Para cientista político, gestão econômica será mantida independente do governo

publicado 06/06/2017 16h54, última modificação 07/06/2017 13h41
São Paulo – Cláudio Couto (FGV) avalia que agenda econômica de eventuais presidenciáveis é semelhante
Claudio Couto

Cláudio Couto, da FGV: classe política está sendo atingida por denúncias de corrupção e há poucas chances de renovação

O cientista político Cláudio Gonçalves Couto, professor da FGV e colunista de política, considera “improvável” uma mudança na política econômica, seja qual for o presidente. “Se Temer não continuar, há pelo menos uma sinalização positiva para os mercados que o sucessor tende a manter a mesma base de políticas econômicas estabelecidas. Salvo novidade, é altamente improvável que assuma um presidente que vire a mesa”, disse, na reunião conjunta dos comitês estratégicos de CEOs & Presidentes da Amcham – São Paulo na terça-feira (6/6).

Em caso de saída de Temer, a linha sucessória seria encabeçada por Rodrigo Maia (DEM-RJ), presidente da Câmara dos Deputados. Mas nomes como o ex-ministro Nelson Jobim e até o presidente do PSDB, Tasso Jereissati, têm aparecido na lista de possíveis presidenciáveis. “Faz todo o sentido eles manterem a equipe econômica, até porque defendem uma agenda semelhante à de Temer”, assinala Couto.

Futuro do governo Temer

O especialista também estima que o governo Temer tem “chances razoáveis” de sobreviver nos próximos meses. “Dá para trabalhar com uma chance razoável de sobrevivência desse presidente até metade do ano que vem.”

Vai depender do que acontecer no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) nos próximos dez dias. “Se a decisão de cassar sua chapa não acontecer já, ele sobrevive por um tempo mais longo”. O TSE retoma hoje o julgamento da ação que pede a cassação da chapa formada por Dilma Rousseff (PT) e Michel Temer (PMDB), vencedora da eleição presidencial em 2014. A ação tem como objetivo julgar se a chapa praticou abuso de poder político e econômico na eleição.

Para Couto, a decisão do TSE é uma das possibilidades que decidirão o futuro de Temer. “A alternativa real é o julgamento, porque pode cassar a chapa de Temer e, consequentemente, o seu mandato.” Mas, mesmo com uma decisão favorável à saída do presidente, o processo será lento. “Todos sabem que pode ter pedido de vista (adiamento de votação) e de recurso no Supremo Tribunal Federal (STF). Ou seja, não sabemos quanto isso dura”, acrescenta.

As outras opções, como a renúncia do presidente ou impeachment, são as menos prováveis de acontecer. De acordo com Couto, Temer não teria margem de negociação pessoal caso decidisse sair, e um processo de impeachment é demorado. “A não ser que algo novo surja, é uma hipótese difícil. Temer tem, pelo menos um terço de deputados e senadores nas respectivas Casas, número suficiente para barrar o processo”, observa.

Crise das oligarquias políticas

Para o especialista, a classe política brasileira está em crise e não criou condições favoráveis ao surgimento de novas lideranças. “Oligarquias políticas que controlam o país e as instituições se acostumaram a atuar em interesse próprio e agora sofrem com a atuação da Justiça. Estão passando por um choque externo que pode causar sua queda”, afirma.

Como os mecanismos institucionais do sistema político são restritivos a membros de fora, fica difícil a renovação. “Não há novos competidores. Os velhos políticos perdem espaço, mas não há alternativas mais jovens.”

A falta de quadros políticos não será preenchida pelos juízes responsáveis pelas operações de investigação de políticos corruptos, ressalta Couto. “Eles não têm preparo e nem perfil para governar. Não se pode criar a ilusão de que os juízes serão os substitutos dos políticos.”

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