Para consultor, impeachment, se acontecer, vai demorar

publicado 16/10/2015 11h30, última modificação 16/10/2015 11h30
São Paulo – Carlos Eduardo Lins da Silva disse que crise política expõe falta de lideranças nacionais
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O jornalista e consultor Carlos Eduardo Lins da Silva, sócio-diretor da Patri Políticas Públicas, acredita que a presidente Dilma Rousseff tem apoio suficiente para continuar no cargo até o fim do mandato (2018), e que ela não demonstra intenção de que vá renunciar. “Ela não tem o perfil de quem renuncia, acho que ela não vai fazer isso”, ressalta, no seminário ‘Brasil 2016 – Perspectivas para o País’ da Amcham – São Paulo, na quinta-feira (15/10). Um impeachment é possível, na opinião do consultor, mas não virá de uma hora para outra. Segundo ele, no Brasil as transições políticas costumam ser negociadas e demoradas.

Comparando com o ex-presidente Fernando Collor (1990-1992), afastado do cargo após acusações de corrupção, Silva disse que a situação de Dilma é diferente. “Ela tem apoio de setores importantes, como as centrais sindicais e os movimentos sociais. Ao contrário da época do Collor, a oposição a Dilma não chegou a um consenso. Além disso, nem toda a sociedade quer o seu afastamento.”

Para ele, o aspecto mais negativo da crise política é a falta de líderes capazes de promover o consenso e reconduzir o país ao desenvolvimento. “Pode ser que surjam, mas hoje não vejo nenhuma pessoa em condições de liderar o Brasil. Isso é muito ruim.”

A presidente Dilma Rousseff e o ex-presidente Lula não estariam entre eles, de acordo com Silva. Dilma tem um perfil político que, nas palavras de Silva, “complica a vida dela”. A presidente não é famosa por cultivar relações pessoais e profissionais e, nesse quesito, seria parecida com o ex-presidente americano Richard Nixon.

Nas biografias que leu sobre Nixon, Silva disse que o líder americano detestava não só pessoas, mas também políticos, “e a Dilma parece que vai por aí”. Dois assessores pessoais do ex-presidente tinham ordens de não deixar nenhum político falar com ele, acrescenta Silva. “Um presidente que não gosta de políticos e pessoas atrai para si a possibilidade de, em situações difíceis, ser vítima de tentativas de impeachment.”

“Depende da economia, da formação de consenso político entre as oposições, membros da base aliada e do PT (partido da presidente). Fora que o processo de legalidade do impeachment ainda tem que ser garantido pelo STF (Supremo Tribunal Federal).”

Em relação a Lula, que tem perfil mais agregador, Silva analisa que ele terá papel fundamental no governo Dilma. “O que me passa pela cabeça é que, enquanto achar que será eleito em 2018, Lula vai defender o mandato da Dilma e até radicalizar, como no discurso na CUT [em que defendeu o governo, mas criticou a proposta de ajuste fiscal e disse que é preciso continuar crescendo com empregos e geração de renda].”

Mesmo em um cenário ruim para o governo, o ex-presidente seria figura chave, mas não seria o sucessor de Dilma. “Se Lula perceber que não será eleito, e acho que não vai, começa a ajudar na costura política de um acordo para a saída da Dilma ou por renúncia ou impeachment”, argumenta Silva.

De qualquer modo, o consultor acredita que a crise política só chegaria ao fim com um novo presidente, que traria de volta a confiança da população e dos investidores. “Independente de ser o vice-presidente Michel Temer, o novo presidente vai conseguir tirar do congresso quase tudo o que quiser. Vai ter imediato apoio da população, e a chance de termos uma presidência tão benéfica e produtiva como a de Itamar (Franco, 1992-1994) é muito grande.”