Para Fitch, classificação do país melhora com efetividade das reformas de Temer

publicado 12/05/2017 16h23, última modificação 01/06/2017 10h19
São Paulo - Rafael Guedes (Fitch) e Zeina Latif (XP) veem sinais positivos para a economia e defendem reformas
O Brasil sob a Perspectiva de Wall Street

Da esq. para a dir.: Telma Marotto (Bloomberg), Zeina Latif (XP Investimentos) e Rafael Guedes (Fitch Ratings): ajuste fiscal é essencial para retomada de investimentos e melhora da nota soberana

Se as reformas econômicas e políticas endereçadas pelo governo Temer frearem o crescimento da dívida pública, poderá haver uma melhora do rating do país, segundo a agência de classificação de risco Fitch Ratings. Essa é a opinião de Rafael Guedes, Managing Director da Fitch Ratings. “O que será analisado é: com a passagem da reforma, qual o impacto que isso vai ter na dinâmica da dívida. Se os analistas observarem uma redução [na dívida], isso poderia levar a um ação de rating positiva”, declarou, durante o evento “O Brasil sob a Perspectiva de Wall Street”, promovido pela Amcham e o Council of the Americas no dia 12 de maio, em São Paulo. O rating soberano é a capacidade de pagamento de uma dívida em um prazo de cinco a sete anos. A dinâmica da dívida brasileira, com os números que se tem atualmente, mostra um crescimento ao longo do tempo. A nota dada ao Brasil pela agência é BB, com perspectiva negativa, o que significa que o país está fora da classificação de grau de investimento.

Para o especialista, o governo tem tomado “passos muito acertados” na economia, tanto em pequenos ajustes na microeconomia quando em reformas macro. Dentre as ações que Guedes considerou positivas, destacou a PEC do Teto de Gastos aprovada em dezembro do ano passado e que limita, por 20 anos, os gastos públicos à inflação do ano anterior. Ele compara a PEC a um líquido em fermentação dentro de uma garrafa de borracha. Quando os gases aumentavam, a garrafa acompanhava a dilatação. E ela estava aumentando persistentemente. “Com a PEC, temos agora uma garrafa de vidro, que não consegue mais expandir. Mas, se não tiver reformas, essa garrafa explode”, lembrou o especialista, citando a reforma previdenciária como parte crucial para o desenvolvimento da economia brasileira.

Para Zeina Latif, economista-chefe da XP Investimentos, a questão central da economia brasileira é o ajuste fiscal. Dentro do ajuste, medidas como a PEC dos Gastos e reforma previdenciária garantem uma maior tranquilidade aos investidores. O fato de a inflação ter caído de forma drástica nos últimos meses, segundo ela, é uma consequência direta. “O grande fator que ancora a inflação é a questão fiscal, é o diagnóstico que precisava ser entendido. A queda da inflação é, sim, mérito deste governo”, afirmou. Para 2017, Latif ainda vê que haverá impactos da recessão e que “não vamos recolher os frutos dos esforços das políticas do governo neste ano”.

Com a dívida pública chegando a quase 75% do PIB neste ano e uma taxa de investimento modesta se comparado à taxa de outros países com economia semelhante, ambos veem uma recuperação ainda lenta. Outro ponto abordado por ambos foi o problema da educação no Brasil, que se refletiria na baixa eficiência e produtividade da mão-de-obra brasileira. “Claramente o Brasil tem problemas no sistema educacional. Outros gaps que o país tem em relação a países com classificação semelhante são eficiência e rapidez do sistema judiciário e o aspecto tributário", aponta Guedes. 

 Visão global da Fitch

Para a Fitch, o ciclo negativo da economia mundial está se aproximando do fim. Guedes lembrou que a previsão do crescimento global cresceu em 2017 e 2018, influenciado pela estabilização do preço das commodities e da volta do fluxo de investimento. Ainda há, no entanto, focos de atenção para a organização. Um deles é a América Latina: Brasil, México e Chile, três grandes mercados da região, estão com a perspectiva negativa pela agência. Outros riscos citados por Guedes são a preocupação com as políticas econômicas norte-americanas e algumas tendências protecionistas.