Parceria entre empresas e instituições de ensino é um dos principais caminhos para enfrentar déficit de profissionais na região de Campinas

por andre_inohara — publicado 27/07/2011 11h44, última modificação 27/07/2011 11h44
Campinas – No seminário Competitividade Regional, foram apontadas também estratégias como apoio à preparação de professores, contratação de aposentados e ênfase em treinamento e recrutamento interno, tudo para preencher as crescentes vagas.
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Contar com mão de obra qualificada, especialmente técnica, em quantidade suficiente para atender às necessidades da economia pujante da região de Campinas tem sido um grande desafio. Para lidar com esse quadro, as companhias apostam em estratégias como parcerias com instituições de ensino, apoio para preparação de professores, contratação de profissionais aposentados e fortalecimento do treinamento e do recrutamento interno para preencher vagas, mas ainda há muito a fazer para garantir todos os profissionais demandados.

As escolas, por sua vez, cada vez mais se mostram abertas a interagir com as companhias para contemplar nos cursos de formação aquilo de que o mercado precisa e nas localidades em que precisa.

Essas são algumas das conclusões do seminário Competitividade Regional, realizado na terça-feira (26/07) em Campinas. O evento integra o projeto “Competitividade Brasil – Custos de Transação” da Amcham.

Corrida contra o tempo

A IBM, por exemplo, representada no evento por Marco Kalil, vice-presidente de Service Delivery, busca profissionais qualificados tanto para o atendimento em Tecnologia da Informação (TI) como para suporte aos clientes. “Nossa demanda é crescente e precisamos de gente qualificada. Muito vezes, o tempo joga contra nós, não havendo prazo suficiente para formar profissionais. Essa é uma realidade cada vez mais frequente”, disse Kalil.

O executivo se mostrou preocupado com as carências de formação no ensino médio, sobretudo em disciplinas como matemática, ciências e idiomas. “Precisamos de profissionais que dominem o inglês, fundamental na nossa área, e também de espanhol, em função da proximidade com os países do continente”, afirmou. Esse desequilíbrio entre oferta e demanda de mão de obra, já bastante sentido, promete se tornar ainda maior para a companhia. “Prestamos serviços tanto para contratos locais como do exterior, e a tendência é de trazer mais coisas para o Brasil”, acrescentou ele.

Kalil comenta que a unidade brasileira da IBM tem necessidade não só de técnicos de informática, mas também de que eles falem inglês. Hoje, muitos serviços acabam sendo direcionados para a Índia devido à vantagem técnica e à fluência no idioma por parte dos profissionais daquele país. “Precisamos de qualificação técnica, até mesmo por uma razão de competitividade em relação aos mercados da Índia e da China.”

Parcerias

Frente a esse contexto, a IBM faz parcerias com instituições como o Instituto de Pesquisas Eldorado, para que, quando o aluno, ao terminar o ensino médio, esteja pronto para trabalhar, e o Centro Paula Souza, ajudando a preparar professores para levar tecnologia aos estudantes. Também tem convênios voltados a oferecer cursos de inglês em instituições, de modo a que os profissionais em formação se tornem aptos a assumir áreas de maior responsabilidade no futuro. A IBM calcula já ter atingido cerca de 5 mil pessoas nos últimos anos com essas iniciativas.

A Magneti Marelli, do setor de autopeças, também considera indispensável no quadro atual a qualificação de professores como forma de melhorar e multiplicar a formação de trabalhadores.

“Sofremos no Brasil e na América Latina as mesmas dificuldades de formação na base. Temos casos de alunos que vêm com dificuldades de interpretar textos, seja no ensino médio ou na graduação”, lamentou o gerente de Recursos Humanos da Magneti Marelli, Waldyr Faustini.

A empresa faz parcerias com instituições como a Fundação Dom Cabral, contribui para a formação profissional de jovens de baixa renda através do projeto Formare e investe na qualificação de seu pessoal. “Sentimos dificuldade quando temos de trazer alguém para o time, então aumentamos o recrutamento interno”, revelou Faustini.

Outro ponto defendido pelo executivo da Magneti Marelli é a mudança de legislação a fim de que as empresas possam fazer doações a instituições de ensino público, algo que hoje começa a surgir, embrionariamente, na Escola Politécnica da Universidade de São Paulo, como lembrou Jacques Marcovitch, professor dessa universidade.

“No modelo Oscip (Organização Civil de Interesse Público), alunos e ex-alunos encontram uma forma de canalizar recursos para dotar a escola da infraestrutura de que precisa”, lembrou Marcovitch, que mediou o painel do seminário.

Instituições de ensino na estratégia das empresas

Para garantir a formação de mão de obra qualificada em quantidade, Ricardo Terra, diretor técnico do Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai), defende uma série de aspectos:

• Reforço dos movimento associativos setoriais para ajudar a qualificar e dimensionar as demandas da iniciativa privada;
• Participação do setor produtivo na definição de programas públicos emergenciais, a exemplo do Pronatec (Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico e Emprego, em tramitação no Congresso) e do Via Rápida Emprego, criado pelo governo paulista para oferecer cursos gratuitos e auxílio financeiro para qualificação profissional;
• Aumento da polivalência da força de trabalho, reduzindo a necessidade de expansão dos quadros;
• Melhoria dos processos produtivos focada em inovação e tecnologia, com impactos nas necessidades de mão de obra;
• Reforço dos processos articulados entre empresas e instituições de ensino, com foco no longo prazo;
• Ajuste nas políticas públicas direcionadas a suportar esse desenvolvimento, englobando balanceamento da oferta do ensino, melhoria da qualidade da educação (com indicadores se cobrança) e valorização das profissões técnicas;
• Regionalização e setorização do ensino;
• Conexão entre cursos técnicos e oportunidades de trabalho.

“As instituições de ensino precisam estar na estratégia das empresas para formar a mão de obra necessária”, ressaltou Terra.

O diretor cita os casos de parceria bem-sucedida do Senai com a Hyundai, pela qual a escola treina o contingente técnico da montadora coreana há cerca de dois anos, e de formação de profissionais técnicos nas cidades de Pedreira e Jaguariúna. “Formamos 64 técnicos do setor de plásticos para as pequenas e médias empresas da região”, contou. Há ainda treinamentos em canteiros de obras para qualificar trabalhadores da construção civil.

Mais qualidade

A qualificação dos profissionais também é uma preocupação da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Para Renato Pedrosa, coordenador associado do Centro de Estudos Avançados da Unicamp, na área de engenharia e em correlatas, a formação no País não é qualificada como deveria.

“Somente um terço dos engenheiros que se formam estão realmente aptos para exercer a profissão”, estima ele com base em números do Enade, segundo os quais 10% dos engenheiros formados no Brasil estão aptos a desenvolver ciência e tecnologia, e outros 20% capacitados para as tarefas da profissão.

Para garantir qualidade também no nível do ensino técnico médio, Pedrosa é favorável à instalação de mais escolas técnicas na região. Ele destacou que apenas duas das 51 Fatecs em funcionamento em São Paulo se encontram na região de Campinas, em Americana e Indaiatuba. “Esse sistema cresceu dez vezes nos últimos anos, mas não em Campinas.”

Pedrosa defende também que o governo federal cobre maior qualificação das instituições ao conceder bolsas do Prouni (Programa Universidade para Todos).

Além de pensar na qualificação dos cursos, a Unicamp tem se preocupado em atrair os melhores alunos das escolas de ensino médio público de Campinas. Para isso, criou o Profis (Programa de Formação Interdisciplinar Superior), que abriu 120 vagas em 2011 para esses alunos com base no Enem (Exame Nacional do Ensino Médio), sem vestibular. Participam 96 escolas, sendo que 51 delas até então nunca havia colocado um de seus formados na Unicamp.

“Os alunos matriculados voltam às escolas de origem para contar a experiência e motivar os outros a se inscrever”, celebrou Pedrosa.

O professor disse que a Unicamp quer estender o programa à região metropolitana de Campinas, mas a universidade precisa de apoio da iniciativa pública e privada para ampliar o projeto. 

“Sou a favor de uma espécie de lei Rouanet, que permita que a iniciativa privada possa investir com compensação fiscal, e na qual as pessoas físicas possam fazer contribuições para as universidades, a exemplo do que ocorre nos Estados Unidos e, mais recentemente, na China”, observou o professor, em linha com a proposta mais votada pelos empresários da região de Campinas para lidar com a escassez e má qualificação da mão de obra, conforme sondagem realizada pela Amcham para o evento com o apoio do instituto Análise.