Paraná deve retomar sua posição inovadora em urbanismo e transportes para atrair investimentos

por daniela publicado 14/07/2011 15h12, última modificação 14/07/2011 15h12
Daniela Rocha
Curitiba - Estado necessita de novas soluções em infraestrutura para se tornar mais competitivo, indica José Bosco Silveira, presidente da Brose do Brasil.
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O Paraná precisa recuperar sua posição de referência em inovação nas áreas de urbanismo e transportes para atrair mais companhias e investimentos, defende José Bosco Silveira, presidente da Brose do Brasil, empresa fornecedora de sistemas elétricos de acionamento de vidros para indústria de automóveis estabelecida em São José dos Pinhais.

Silveira também destaca a necessidade de mais investimentos, assim como o aprimoramento da gestão pública das obras de infraestrutura logística, principalmente no Porto de Paranaguá e nas rodovias.

Ele participou do seminário Competitividade Regional realizado em Curitiba na quarta-feira (13/07), como parte do projeto "Competitividade Brasil - Custos de Transação" da Amcham, e concedeu a seguinte entrevista ao site da entidade:

Amcham: Qual é aspecto que mais prejudica a competitividade do Paraná?
José Bosco Silveira:
A infraestrutura pesa bastante. Temos hoje aqui três aspectos que são os mais problemáticos. O primeiro é o Porto de Paranaguá, que tem algumas características de operação que dificultam as atividades empresariais. No ano passado, por exemplo, sofremos o efeito negativo da falta de dragagem. A segunda questão é o aeroporto de São Jose dos Pinhais, que não é o modal que mais empregamos para o transporte de materiais, sendo utilizado apenas quando precisamos trazer produtos importados com mais agilidade. Esse aeroporto não recebe aviões de maior porte, o que ainda não nos compromete porque os componentes de que necessitamos não são muito grandes nem volumosos. Por último, os problemas das rodovias não fogem muito do que ocorre no restante do País. Temos dificuldades em termos de quantidade e qualidade de estradas. Para se ter uma ideia, usamos muito o Contorno em Curitiba, uma espécie de anel viário, e constantemente ocorrem acidentes devido a problemas de drenagem e buracos nas pistas.

Amcham: Então a deficiência de infraestrutura prejudica o andamento dos negócios...
José Bosco Silveira:
O déficit de infraestrutura dificulta as operações das empresas e implica em custos adicionais. Entre o Porto de Paranaguá e Curitiba, o transporte dos produtos é feito por rodovias. Seria muito bom se tivéssemos um porto seco em Curitiba, para onde pudéssemos trazer os contêineres de Paranaguá via trens.

Amcham: Quais são as soluções para isso? São necessários mais investimentos em infraestrutura?
José Bosco Silveira:
Com certeza são necessários mais investimentos. Existem também dificuldades no andamento das obras. Por exemplo, temos uma obra pública iniciada no final do ano passado que é a construção de uma passarela mais uma trincheira para que se faça o contorno por baixo de uma rodovia, não por cima, como ocorre hoje. Essa obra, relativamente simples, começou no ano passado mais ou menos na época em que também iniciamos a ampliação da nossa fábrica. Hoje, nossa planta está quase 95% pronta e já operando parcialmente, enquanto a obra da trincheira só avançou cerca de 20% a 30%. Então, é possível fazer uma fábrica mais rápido? Será que a construtora que contratamos é melhor do que a da licitação? Talvez não. Isso é uma questão de foco, de colocar agilidade. Quando se comparam essas duas realidades, a diferença é gritante. Trata-se de um problema de gestão pública. Acho que, quando olhamos o PIB (Produto Interno Bruto) do Brasil e quanto os governos arrecadam de impostos, vemos que, com uma boa gestão, seria possível fazer mais.

Amcham: No Paraná, há mão de obra qualificada em número suficiente?
José Bosco Silveira:
Temos muita dificuldade para encontrar profissionais para áreas técnicas e engenheiros. Algumas vagas ficam abertas por muito tempo. O custo da mão de obra qualificada tem subido na região. Em relação à mão de obra mais operacional, "chão de fábrica", a situação é um pouco mais favorável, mas também temos de formar pessoal em casa. Mantemos uma política de aproveitamento interno muito forte, com promoções e treinamentos para cobrir vagas, mas também necessitamos buscar profissionais no mercado.

Amcham: O sr. acredita que as empresas deveriam contar com algum incentivo fiscal quando investirem em capacitação dos profissionais?
José Bosco Silveira:
Qualquer iniciativa que gere renda e desenvolvimento é válida. As empresas acabam exercendo um papel de educadoras  que talvez não seja delas, porém necessário para rodar os negócios. O grau de preparo das pessoas que saem das escolas públicas é precário. Diversas pesquisas sobre nível de escolaridade mostram que o Brasil está muito atrás em termos de educação. As empresas têm que cobrir gaps na formação das pessoas e, para isso, oferecem treinamentos.

Amcham: Em relação a oferta e qualidade da energia, o Paraná enfrenta algum problema?
José Bosco Silveira:
Quanto à energia, a situação é tranquila. As interrupções na rede são raras. Não sei como isso se comportará no longo prazo, nas próximas décadas, mas sei que a Copel, nossa empresa do setor de energia, é considerada uma referência no setor.

Amcham: Na sua avaliação, o Paraná precisa inovar mais?
José Bosco Silveira:
Sem dúvida.  Durante muito tempo, num passado não muito distante, o Paraná era considerado referência em muitas questões, como  urbanismo e sistema de transporte, que atraíram muitos investimentos. Temos aqui a chamada Cidade Industrial de Curitiba, com uma série de companhias e o próprio polo automotivo, que se instalou na década de 90. A impressão que temos é que esses movimentos de inovar, de criar coisas diferentes, deixaram de ser feitos e fomos ficando para trás, uma situação que, com certeza, precisa mudar.