Parcerias Público-Privadas devem ser mais exploradas em educação

por daniela publicado 19/10/2011 16h43, última modificação 19/10/2011 16h43
Daniela Rocha
São Paulo-Juan Carlos Sanchez, coordenador de Ensino Técnico, Tecnológico e Profissionalizante do Estado de São Paulo, também ddefende que País precisa de plano de longo prazo para o setor.
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As Parcerias Público-Privadas, hoje mais ligadas à infraestrutura logística, podem ser mais aplicadas na área de educação. É o que avalia Juan Carlos Sanchez, coordenador de Ensino Técnico, Tecnológico e Profissionalizante da Secretaria de Desenvolvimento Econômico, Ciência e Tecnologia do Governo do Estado de São Paulo.

Ele participou nesta terça-feira (18/10) no “Seminário Competitividade Brasil: Custos de Transação – Qualificação da Mão de Obra” na Amcham-São Paulo.

Após o evento, em entrevista ao site da Amcham,  Sanchez abordou os desafios para a capacitação de profissionais:

Amcham: A escassez da mão de obra é uma realidade no País?
Juan Carlos Sanchez:
A escassez de mão de obra, infelizmente, é real. Há uma discrepância entre a oferta de profissionais e a demanda das empresas; porém, em um cenário de desemprego. Temos ainda no Estado de São Paulo mais de 1,5 milhão de pessoas desempregadas. Então, como explicar esse fenômeno de um quadro de desempregados e, ao mesmo tempo, empresas buscando profissionais e não encontrando? A explicação para esse fenômeno é o histórico de falta de educação básica e de qualificação profissional no País e, dentro dessa perspectiva, logicamente alguns setores sofrem mais, principalmente aqueles que demandam mais tecnologia.

Amcham: Durante o evento, o sr. comentou que, em relação às 50 maiores ocupações do Caged (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados) do Ministério do Trabalho, bastaria o ensino médio para que fossem preenchidas...
Juan Carlos Sanchez:
O problema é muito sério. Quando olhamos pessoas acima de 30 anos de idade, ainda há grande parcela com déficit acentuado de educação. Das 50 principais ocupações do Caged, 65% das vagas seriam preenchidas se as pessoas tivessem concluído o ensino médio e feito algum curso profissionalizante. Ou seja, essas pessoas não precisariam ingressar em uma universidade ou mesmo em um curso técnico de tecnologia, apenas um curso básico de formação profissional daria a elas as condições instrumentais necessárias para que pudessem estar ocupadas. No entanto, quando falamos em educação profissional, infelizmente, não é possível associá-la sem que se tenha a educação formal. Assim, precisamos garantir às pessoas mais velhas programas de elevação de escolaridade adequados.

Amcham: O Estado de São Paulo possui algum programa profissionalizante para atender essas pessoas?
Juan Carlos Sanchez
: Sim. O programa Via Rápida veio para preencher essa lacuna mas, por enquanto, prevê apenas a formação profissional. A elevação da escolaridade formal é dada pelas redes públicas de ensino municipal e estadual. O que ofereceremos em um segundo momento é um programa de Educação de Jovens e Adultos (EJA) profissionalizante  articulado entre o governo do Estado e prefeituras. O objetivo é que essas pessoas que não têm ensino fundamental concluído tenham a possibilidade de concluí-lo formalmente e ingressar na profissionalização de baixa complexidade.

Amcham: No Brasil, as parcerias entre governos, empresas e instituições de ensino na área de capacitação de mão de obra vêm sendo intensificadas?
Juan Carlos Sanchez:
Sim. Essa aproximação é fundamental para o sucesso de qualquer ação, seja de desenvolvimento da empresa, de cidades, dos estados ou do Brasil. Os atores, os agentes envolvidos devem estar integrados. Cada vez mais, governos, empresas e trabalhadores têm de trabalhar juntos para identificar oportunidades e viabilizá-las no que diz respeito à formação profissional.

Amcham: As Pacerias Público-Privadas podem ser aplicadas na área educacional?
Juan Carlos Sanchez:
Sem sombra de dúvidas. O vice-governador de São Paulo, Guilherme Afif Domingos, tem muita experiência nisso. Ele é o maior entusiasta dessa aproximação do setor produtivo com o governo do Estado. A experiência mostra que sempre que a iniciativa privada faz alguma coisa, faz melhor. E, dentro dessa perspectiva, quanto mais PPPs  forem possíveis de serem implantadas não somente em áreas tradicionais que dizem respeito a infraestutura, mas cada vez mais em educação e saúde, será muito positivo.

Amcham: Nesse caso, as empresas poderiam construir escolas?
Juan Carlos Sanchez:
Estamos vendo movimentos semelhantes ao que seriam PPPs. Por exemplo, a secretaria de Estado da Educação contrata 30 mil vagas da iniciativa privada para cursos técnicos aos alunos da rede, em seu contra-turno. São espaços ociosos nas instituições privadas nos períodos matutino e vespertino, que passam a ser ocupados por alunos de Ensino Médio da escolas estaduais em cursos técnicos. Isso mostra que não é preciso ficar reinventando a roda e construir mais escolas. É possível aproveitar instalações ociosas da iniciativa privada.

Amcham: O Brasil tem urgência em formar mão de obra capacitada sobretudo diante de eventos esportivos da Copa e das Olimpíadas e oportunidades de negócios relacionadas. Como alavancar a competitividade do País com geração de empregos e renda nos próximos anos?
Juan Carlos Sanchez:
É fundamental correr atrás de anos e anos perdidos. O apagão da mão de obra não é causa, mas sim efeito. Nos últimos anos, a educação foi relegada a segundo plano. Nas décadas de 60, 70, 80 e em parte da de 90, não se colocou foco na educação. O que enfrentamos hoje é esse apagão decorrente da falta de educação profissional que está, por sua vez, relacionada à falta de educação formal. São milhares de brasileiros que não têm ensino fundamental concluído. Temos de fazer a lição de casa em curto espaço de tempo em função da proximidade dos eventos; no entanto, é preciso olhar no longo prazo e fazer todos que façam o ensino fundamental e o ensino médio seguirem aos cursos técnicos ou universidades. Esse é o caminho para o País se desenvolver de maneira sustentável.

Amcham: É necessário um plano que transcenda governos?
Juan Carlos Sanchez:
Sem sombra de dúvidas. A descontinuidade causada pelas mudanças de governos é ruim para qualquer política pública, sendo que, para as educacionais, isso é um veneno. A continuidade dessas políticas é que traz benefícios ao longo de gerações.