Pesquisa Amcham: prioridade número um para ambiente mais propício à inovação no Brasil é mostrar casos concretos de que avanços na área geram lucro

por marcel_gugoni — publicado 27/08/2012 17h20, última modificação 27/08/2012 17h20
São Paulo – Sondagem com representantes de empresas a instituições focadas em inovação identificou ainda importância de formação de recursos humanos qualificados em exatas, bem como apoio à internacionalização das atividades de P&D.
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A inovação gera lucro para as empresas e torna um país mais competitivo. Promover mais iniciativas para mostrar essa perspectiva, por meio de casos concretos, estimulando mais pesquisa e desenvolvimento, é a maior prioridade para tornar mais propício o ambiente de inovação no Brasil. É o que dizem 30% dos 128 representantes de empresas e instituições focadas em inovação que participaram de enquete durante o seminário “Inovação e a Competitividade Brasileira”. 

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O levantamento, realizado durante evento da Amcham-São Paulo em 16/08, considerou dez prioridades nas quais os próprios votantes se dispõem a atuar. O resultado reflete carência de maior divulgação dos principais cases e boas práticas observados nas mais variadas regiões do País. 

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Quem resume a questão é Ademar Seabra da Cruz, chefe da Divisão de Ciência e Tecnologia do Ministério das Relações Exteriores: “No Brasil, temos exemplos de boas práticas. Não somos um deserto de inovação. Há parques de inovação em vários lugares que geram coisas novas, mas a economia brasileira está longe de um comportamento sistêmico da inovação.” 

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Por comportamento sistêmico, entenda-se tanto a cultura da inovação nas empresas quanto a segurança jurídica que garanta o reconhecimento rápido de patentes e de pesquisas. Pedro Passos, copresidente do Conselho de Administração da Natura, afirma que divulgar as boas práticas é essencial para impulsionar a melhora desse comportamento sistêmico. 

“A resposta [da pesquisa da Amcham] mostra que as pessoas têm mais interesse em conhecer as melhores práticas e os bons exemplos de inovação”, comentou ele após a divulgação dos números. “Estes exemplos são fundamentais para a elevação dessa consciência e da mobilização para que as empresas e o poder público ajam.” 

Mão de obra 

A segunda grande necessidade apontada é dar maior ênfase à formação de recursos humanos qualificados em engenharia, ‘ciências duras’ e ensino técnico, ampliando e aprimorando a estrutura dos Institutos Tecnológicos e de Inovação. Foram 16% os que indicaram essa opção. 

Pedro Passos complementa a explicação dizendo que promover o desenvolvimento dos profissionais é a primeira etapa para a inovação sistêmica. “É importante formar gente para envolver a criação de novos produtos, serviços, processos e modelos de negócios.” 

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Fernando Ferreira Costa, reitor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), concorda que a formação é caminho essencial, mas é preciso mais do que o esforço das universidades. “Uma crítica recorrente diz que as universidades produzem ciência, mas isso não se traduz em inovação. A culpa não é só das universidades”, afirma. 

“[As faculdades e institutos superiores] têm, sim, que fazer pesquisa que possa ter aplicação imediata. Mas é das que aparentemente não têm aplicação imediata que saem as mudanças mais significativas.” Em outras palavras, têm que ter o apoio das empresas para mostrarem suas necessidades de curto e de longo prazo. 

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Para Costa, um dos caminhos é ampliar a troca de conhecimento com outros países. “É fundamental para que a inovação ocorra nas universidades que elas tenham professores e pesquisadores qualificados, além de alunos inseridos na internacionalização. Precisamos de estrangeiros e intercâmbios, porque isso dá uma visão crítica importante à educação dos alunos e favorece a produção de conhecimento de qualidade que leva à inovação.” 

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Guilherme Marco de Lima, vice-presidente da Anpei (Associação Nacional de Pesquisa e Desenvolvimento das Empresas Inovadoras), diz que a formação de mão de obra tem que ser considerada estratégica para o País. “A promoção [e divulgação das práticas inovadoras] é fundamental, mas temos que olhar para os talentos. Mobilizar recursos em uma visão de um projeto bem feito é essencial.” 

Expansão global 

O apoio à internacionalização de empresas brasileiras e de suas atividades de pesquisa e desenvolvimento para capacitá-las a competir globalmente vem logo em seguida no ranking de prioridades. Em torno de 15% do empresariado que respondeu a enquete da Amcham diz que essa é uma ação prioritária, que visa a capacitar as companhias para competir globalmente. 

Eduardo Wanick, presidente e CEO da DuPont para a América Latina e presidente do Conselho da Amcham, afirma que sua empresa ampliou o ritmo de crescimento depois de expandir a adoção de práticas de inovação, antes concentradas nos Estados Unidos.  “Hoje, temos [na América Latina] quatro vezes o tamanho que tínhamos em 2002”, reforça. 

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A lição é uma só: “Quanto mais gente estiver engajada, mais inovação acontece. É preciso aumentar o número de parceiros”, observa. Isso significa abrir o leque e permitir, inclusive, a internacionalização das ideias novas. 

Financiamento 

A pesquisa da Amcham mostra que 10% dos participantes dizem que há necessidade de apoiar a inovação por meio do financiamento às atividades inovadoras nas companhias, governos e universidades, valorizando os ativos intangíveis das empresas. A avaliação de Helena Tenório Veiga de Almeida, chefe de Planejamento do departamento de Avaliação, Inovação e Conhecimento do Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), é de que o banco está cada vez mais preparado para financiar a inovação do País. 

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“O crédito é a resposta para a inovação. Se o empresário não tiver crédito, terá que buscar de fontes próprias, o que diminui muito a capacidade do empreendedor de ampliar seu investimento”, afirma. “Mas tem que haver bons projetos. O setor privado tem o dever de apresentar trabalhos de qualidade.” 

Ela diz que, nos bancos privados, são poucos recursos os direcionados a pesquisa e desenvolvimento das empresas. Isso porque o risco de um projeto de inovação é altíssimo. “A inovação pode dar certo ou não. No Brasil, temos um complicador: nosso crédito ainda é muito voltado ao curto prazo. É um cenário de escassez de crédito de longo prazo para esse tipo de financiamento.”  

Propriedade intelectual 

Na sondagem da Amcham, melhorar a infraestrutura e a cultura de propriedade intelectual no País por meio de um regime pragmático e da reestruturação do sistema de patentes no Brasil teve 9% das respostas, enquanto o desafio de remover os entraves legais para que as universidades possam negociar livremente a propriedade intelectual por elas gerada, inclusive nos casos em que a pesquisa tenha sido custeada por agências governamentais, ficou com 6% das opiniões. 

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Buscar mecanismos de fast track, ou seja, uma via rápida para o registro de patentes em áreas selecionadas, é uma atitude prioritária para 5%. 

Para Julio César Castelo Branco Reis Moreira, diretor de Patentes do Instituto Nacional de Propriedade Industrial (INPI), a questão é os envolvidos em uma atividade inovadora saberem valorizar os ativos intangíveis. “Precisamos dar um salto de qualidade no Brasil. Há universidades se dispondo a fazer mais com as empresas e é importante que haja troca do conhecimento de tecnologia e valorização das inovações.” 

“As grandes empresas sabem como inovar, mas o pequeno não pode arriscar errado porque não tem o recurso”, diz o diretor do INPI, reconhecendo que é das pequenas e médias empresas que costumam surgir muitas das inovações. “Por isso, temos que mostrar o que pode ser feito com este eventual sucesso, mas ainda esbarramos na dificuldade de conscientizar o empresário de que ele tem que descrever todos os seus processos e produtos para ter a proteção [de patente].” 

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Para Moreira, “no momento em que o empresário consegue um produto final, ele tem que ter a segurança jurídica de que seu invento será protegido e não vai ficar preso no INPI”. 

Já Alexandre Garcia, coordenador-geral do Programa de Pesquisa em Ciências Exatas do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), defende que haja uma facilitação dos acordos entre universidades e empresas para negociar suas patentes. 

A pesquisa da Amcahm aponta que 3% priorizam a criação de observatórios de inovação no exterior, junto às principais embaixadas e consulados para acompanhamento de políticas públicas para a inovação, programas, processos, instituições e o trabalho de centros de pesquisa e desenvolvimento. Outros 3% indicam o aprimoramento do marco legal de apoio à inovação, com ajustes que tornem mais efetivos os regimes de incentivos existentes. 

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A necessidade de melhorar a articulação entre política de inovação e a política de comércio exterior foi considerada prioridade por 2% dos participantes, já que o assunto envolve vários órgãos do poder público, incluindo o Ministério das Relações Exteriores. A integração entre os diversos players é apontada como essencial para a inovação no Brasil, segundo Jacques Marcovitch, mediador do debate e professor da USP (Universidade de São Paulo). “Se cada um fizer sua parte, todos conseguem inovar.”