Pesquisa da Amcham mapeia mais de 50 empresas que cogitam abrir capital

por daniela publicado 17/11/2010 16h20, última modificação 17/11/2010 16h20
São Paulo – IPOs podem ocorrer entre um e cinco anos, apontam representantes de diversos setores da economia.
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Pesquisa inédita da Amcham-Brasil envolvendo 106 empresas com alto potencial de crescimento no País revela que quase metade delas (49%) cogita ou já cogitou utilizar o mercado de capitais como instrumento para financiar suas atividades. Para essas organizações, a perspectiva de que esse processo se torne real está concentrada no médio prazo, ou seja, entre um e três anos (52%), e a longo termo, isto é, mais de cinco anos (42%). Apenas 2% têm esse plano no curto prazo, em um horizonte de até um ano.

Mesmo entre as companhias que demonstram não pensar em abrir capital (49%), há um indicador que aponta para a possibilidade de reversão futura dessa postura: metade delas afirma necessitar de mais informações sobre o tema para uma possível tomada de decisão.

“A abertura de capital é bem percebida como forma de financiamento das empresas. Contudo, elas buscam aprofundar o conhecimento para a tomada de decisão e estão bastante conscientes de que é preciso passar por uma preparação, avançar na melhoria da gestão e na governança corporativa para entrar nesse mercado. Essa será, sem dúvida, uma alternativa importante para o crescimento das companhias diante das perspectivas da economia brasileira”, destacou Fernando Schmitt, diretor de Membership da Amcham-Brasil, em apresentação do estudo para a imprensa nesta quarta-feira (17/11) no auditório da BM&FBovespa, no centro de São Paulo.

“Em 2007, com a economia aquecida e quando o País teve um movimento intenso de IPOs (oferta pública inicial de ações), muitas companhias interessadas em abrir capital queriam se preparar em apenas 90 dias, o que era quase impossível. Hoje, ao pensarem no médio e longo prazos, demonstram amadurecimento, preocupação com a preparação, o que é positivo porque leva a um desempenho melhor na bolsa. Existe uma correlação entre o desempenho das ações e os níveis de governança corporativa mais elevados”, acrescentou Paulo Dortas, sócio da área de IPOs da Ernest & Young Terco que também participou do evento.

Vantagens da abertura

As empresas ouvidas pela Amcham identificaram vantagens que a abertura de capital ou a atração de fundos de investimentos – outro tema de grande interesse, que 61% dos ouvidos disseram ter interesse por conhecer melhor – pode trazer: acesso a recursos para financiar o crescimento (28%), estímulo às melhores práticas de governança corporativa (23%), redução do custo de captação de capital após abertura (21%), melhoria da imagem institucional (10%), incentivo ao desenvolvimento dos controles internos (9%) e impulso aos processos de avaliação e mitigação de riscos (9%).

O projeto

O estudo foi realizado pela Amcham em parceria com BM&FBovespa e Ernst & Young Terco entre agosto e outubro deste ano junto a companhias presentes em cinco cidades com atividade econômica pujante – Campinas, Curitiba, Goiânia, Porto Alegre e Recife – e de variados segmentos, com destaque para automotivo, químico e petroquímico, construbusiness, agronegócios, comércio atacadista, vestuário e bens de consumo.

A pesquisa faz parte do projeto “O processo de construção de valor para a sua empresa”, que teve apoio também do Goldman Sachs do Brasil, da Totvs e do escritório Souza, Cescon, Barrieu & Flesch Advogados. Foram realizados seminários nos cinco municípios citados, nos quais os benefícios e os riscos das operações no mercado de capitais foram abordados, com a apresentação de casos práticos.

“Atuamos em cidades fora do eixo Rio de Janeiro-São Paulo com o objetivo de desbravar novas fronteiras, mapeando empresas com intenção de realizar IPO e agregando informações relevantes sobre o tema”, comentou Schmitt.

Tamanho e Bovespa Mais

A grande maioria das companhias analisadas (92%) tem crescimento da receita bruta acima do projetado para o Produto Interno Bruto brasileiro (PIB) em 2010 (portanto, superior a 7%) e também espera avançar acima da média da economia nacional (estimada em 5,9%) nos próximos cinco anos.

Dentre as organizações pesquisadas, há uma concentração de 46% com faturamentos anuais livres de impostos entre R$ 101 e R$ 500 milhões, exatamente o perfil do Bovespa Mais, segmento de listagem da BM&Fbovespa mais simplificado no que diz respeito a normas e que é voltado à estréia de empresas no mercado de capitais, com ofertas públicas de ações de em média R$ 100 milhões a R$ 150 milhões, portanto menores do que as realizadas no mercado tradicional.

Criado em 2005, o Bovespa Mais conta apenas uma companhia participante, a Nutriplant, de fertilizantes. “Uma primeira empresa entrou em 2008, mas logo veio a crise e os investidores se tornaram mais seletivos. Agora, o mercado acionário volta a um padrão de maior normalidade e a bolsa trabalha com empenho para mudar essa realidade, viabilizando mais operações e, consequentemente, aumentando a liquidez”, disse Cristiana Pereira, diretora de Desenvolvimento de Empresas da BM&FBovespa.

Cristiana ressalta que se trata de um processo de mudança cultural envolvendo as empresas, movimentando investidores para a compra de ativos menores e formando players de mercado especializados nesse nicho para levar maior entendimento e atuar na preparação para os IPOs.

Fontes de financiamento

No estudo da Amcham, as entidades de fomento e os bancos de varejo foram citados como as principais fontes de recursos que as empresas utilizam para alavancar os negócios, respectivamente 45% e 32%. “Esses recursos são limitados e geram impacto no endividamento das companhias. A abertura de capital é uma alternativa, uma oportunidade para financiar empresas que têm crescido como se fossem pequenas Chinas (numa alução a pujante economia chinesa)”, pontuou Dortas, da Ernst & Young Terco.

Na sequência, aparecem como fontes de recursos o aporte de capital de acionistas (6%), os fundos de venture capital e private equity (2%), e instrumentos financeiros como debêntures e outros títulos privados de dívida (1%).

Segundo a pesquisa, apenas 12% das empresas não utilizam nenhuma fonte de financiamento externo, ou seja, optam por dar andamento às suas atividades com recursos próprios.

Dentre as companhias que dependem de recursos externos, o nível de endividamento está mais concentrado na faixa de 10% a 25% do capital (28% das companhias). Porém, foram registradas tendências também tanto para abaixo de 10% do capital (22%) como para acima de 50% do capital (23%).

Grau de maturidade dos negócios

O levantamento da Amcham mostra que as organizações estão preocupadas em avançar na gestão de processos. Dentre as respondentes, 63% apontam que já possuem sistema de tecnologia ERP (Enterprise Resource Planning), promovendo a integração das áreas operacionais, financeira e contábil. Outras 29% afirmam estar em processo de implementação do sistema e somente 6% indicam não possui ERP.

Quando questionados sobre os principais índices financeiros para avaliação de desempenho das empresas, os executivos destacam: crescimento de geração de caixa – Ebitda (24%); aumento da receita bruta (23%) e ampliação da lucratividade líquida (18%).

O estudo também evidencia que as empresas têm levado em consideração índices não financeiros para mensurar resultados, sendo que os principais são métricas de qualidade dos serviços ou produtos prestados aos clientes (23%); credibilidade e experiência dos gestores (15%); market share (15%); e qualidade do plano de negócios e capacidade de execução (15%).