Política fiscal do governo deve fomentar investimentos no Brasil, mas em ritmo menor do que em anos anteriores, prevê economista

por andre_inohara — publicado 26/02/2013 16h10, última modificação 26/02/2013 16h10
São Paulo – Representante do Banco Fator avalia que demanda enfraquecida nos mercados externos não tem convencido empresários a aumentarem produção.
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Com os projetos de modernização de infraestrutura andando em passo lento, o governo continuará recorrendo à política fiscal para reduzir o Custo Brasil e atrair os investimentos necessários para melhorar a produtividade da economia.

Ou seja, novas rodadas de desoneração salarial em setores ainda não contemplados e licitações de serviços públicos devem estar a caminho. São medidas que tendem a atrair investimentos, mas eles não devem chegar com a mesma intensidade vista em anos anteriores, segundo José Francisco de Lima Gonçalves, economista-chefe do Banco Fator.

A política fiscal é o espaço que o governo tem para atuar em curto e médio prazos, afirma o economista. “São o componente fiscal e as concessões de serviços públicos [os elementos] que o governo vai usar para fazer [a economia] crescer”, observa ele, em entrevista ao site após ter participado do comitê estratégico de Compras Corporativas da Amcham-São Paulo na última quinta-feira (21/02).

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Em relação aos investimentos, estimular os empresários a produzir mais no Brasil é uma tarefa das mais complicadas. A decisão de investir envolve, além de condições favoráveis como as que o governo tenta criar, perspectiva de ganhos futuros, lembra o economista.

“Hoje o [saldo de] comércio está quase zerando e o investimento externo, desacelerando. Isso acontece no mundo inteiro. Ninguém está investindo porque todos estão com medo de gastar e não ter para quem vender”, argumenta Gonçalves.

Para ele, a desconfiança do empresariado é enorme, pois as oportunidades de retorno não são mais tão óbvias. “Em 2008 [pré-crise], era muito fácil enxergar a demanda. A China crescia 10% ao ano seguidamente, e se falava que isso duraria mais cinco ou dez anos seguidos.”

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Expansão de capacidade produtiva

Parte da produção está aquecida pelo consumo doméstico crescente, mas isso não será o suficiente para garantir um PIB (Produto Interno Bruto) maior, aponta Gonçalves. “É um aquecimento que está se esgotando, tanto que o Brasil cresceu 1% em 2012”, opina.

Sem ampliação da oferta de produtos e serviços, a renda vai parar de aumentar e, com ela, o consumo. “Se eu ganhava R$ 5 e agora ganho R$ 10, vou consumir coisas que não podia antes. Mas, se minha renda ainda for de R$ 10, vou consumir a mesma coisa”, exemplifica ele.

É por isso que, em períodos de incerteza, o governo precisa ter agilidade e garantir um ambiente estável para negócios. “O empresário precisa saber que a demanda existe e que as regras permitirão que se faça a conta para saber quantos quilos vai vender lá adiante e quanto isso vai custar.”

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PIB, inflação e câmbio

As projeções do Banco Fator para 2013 são de crescimento de 3% do PIB, “se a economia mundial não desandar como em 2010” – uma probabilidade baixa na visão de Gonçalves, visto que a economia dos EUA deve manter a rota de recuperação e a crise fiscal na Europa tem sido administrada.

A inflação prevista para este ano deve chegar em 6%, conforme o economista. “Crescemos 1% no ano passado e a inflação ficou no nível incômodo de 5,5% para 6% [perto do teto da meta do Banco Central, de 6,5%]. Se o crescimento for de mais 1 ou 2 pontos percentuais como se espera em 2013, a inflação não vai cair”, argumenta.

Os preços elevados de serviços devem continuar pressionando a inflação. “O setor de serviços é fundamentalmente formado por salários. Como ele é pouco desenvolvido aqui e está crescendo, os salários cresceram muito”.

A indexação de preços também é um fator influente. “Todo início de ano há reajuste de 5% a 10% nos preços, e existe expectativa inflacionária alta. Quando se acha que a inflação vai subir, aumenta-se o preço e aí é que realmente sobe”, comenta ele.

Para o câmbio, a expectativa do Fator é de que o dólar termine o ano na casa dos R$ 2, com o governo monitorando ativamente a cotação. “Como o BC (Banco Central) não consegue segurar a desvalorização, então deve segurar a valorização.”

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