Presidente do Conselho da Amcham: “Brasil não é duro para negociar, é superprotetor”

publicado 02/10/2018 10h25, última modificação 02/10/2018 11h51
São Paulo - Hélio Magalhães comenta a declaração de Trump sobre o Brasil ser um país ‘duro’ com empresas americanas

O presidente do conselho da Amcham (Câmara Americana de Comércio), Hélio Magalhães, discorda de Trump sobre o Brasil ser difícil nas negociações. “Não é que nós negociamos de uma forma mais dura. A questão é que o Brasil é um país que sempre protegeu a produção interna. Isso, que não é nenhuma novidade, afeta igualmente todos que produzem em solo brasileiro.”

O anúncio nos EUA de um novo acordo de livre-comércio entre EUA, Canadá e México acabou servindo de oportunidade para o presidente americano, Donald Trump, alfinetar o Brasil e sua política comercial. Ao dizer a um jornalista que a Índia cobra "tarifas tremendas" dos EUA, Trump acrescentou que "o Brasil é outro caso. Eles cobram de nós o que querem. Se você perguntar a algumas empresas, elas dirão que o Brasil está entre os mais duros do mundo (em comércio exterior), talvez o mais duro".

Para Hélio Magalhães, que comanda a maior Câmara Americana entre 114 existentes fora dos EUA, entre os principais problemas do ambiente de negócio brasileiro estão a elevada carga tributária e o excesso de burocracia, impactando não somente as empresas americanas.

"É um ambiente muito complexo, pouco favorável aos negócios, com alta carga tributária, instabilidade jurídica, corrupção que encarece (as transações), ineficiência da mão de obra e baixa qualidade dos serviços públicos. Além disso, temos poucos acordos comerciais. Mas não faz sentido dizer que o Brasil trata mal as empresas americanas. Todas são tratadas da mesma maneira", comenta o presidente do Conselho da Amcham Brasil, que reúne mais de 5 mil empresas, sendo 85% delas brasileiras.

Sinalização para uma conversa e eleições no Brasil

Hélio Magalhães destaca como “positivo” o comentário de Trump sobre o fato de nenhum presidente americano tentar negociar com o Brasil. “O ponto positivo é esse aceno para uma conversa. E não estou discutindo se ele está certo ou errado”, reitera. Um papel mais forte nas negociações globais depende do país melhorar a competitividade aqui dentro, afirma o executivo. “Seria ótimo se o novo governo pudesse iniciar a discussão sobre um acordo comercial. Se Trump estiver disponível, a Amcham fará todo esforço para facilitar essa conversa entre o governo americano e o brasileiro.”

Assim como presidente Donald Trump, os empresários brasileiros enxergam dificuldade em fazer negócios globalmente a partir do país. Em pesquisa Amcham com 130 diretores de  multinacionais e empresas brasileiras, sobre a principal barreira à integração e inserção do Brasil nas cadeias globais de valor, 31% apontaram a insegurança jurídica e normativa para investimentos. Em seguida, vieram os custos poucos competitivos (27%), falta de acordos comerciais ou de investimento (25%), ausência de estímulos à internacionalização de empresas e financiamento e garantia às exportações (13%).

“Precisamos escolher um líder que priorize a inserção do Brasil nas cadeias globais de valor como uma estratégia para o médio e longo prazo, além da desburocratização do comércio. Observamos que, apesar dos riscos evidentes e crescentes, esses temas ainda aparecem de forma tímida nas discussões da nossa politica interna”, argumenta Magalhães.

Ainda na pesquisa da Amcham realizada em junho deste ano, 56% dos empresários gostariam de observar um governo brasileiro com uma postura mais ativa de diálogo na relação bilateral Brasil-EUA, se comprometendo com um horizonte de negociação mais concreto com os Estados Unidos. Para 33%, o diálogo já deveria ser intensificado no curto prazo, de forma a evitar possíveis novas sobretaxas.

Na visão da Amcham, a eleição de outubro é a chance de reverter este cenário de baixa participação brasileira no comércio internacional. A entidade vem realizando um trabalho de influência na agenda dos principais candidatos à presidência. As propostas recebidas pelos candidatos foram dividas em quatro pilares de atuação: Segurança Jurídica e Atração de Investimentos, Modernização do Sistema Tributário, Integração do Brasil nas Cadeias Globais de Valor e Fortalecimento da Relação Bilateral Brasil – Estados Unidos.