Processo de qualificação da mão de obra começa no ensino básico

por andre_inohara — publicado 25/11/2011 13h36, última modificação 25/11/2011 13h36
André Inohara
Brasília – Seminário do programa Competitividade Brasil mostra que é preciso melhorar a qualidade do ensino fundamental para que o aproveitamento dos jovens no nível médio aumente.
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A qualidade da mão de obra brasileira, necessária para sustentar o desenvolvimento econômico dos próximos anos e garantir uma maior competitividade do Brasil, tem de ser pensada desde os primeiros anos da vida escolar, defenderam especialistas que participaram na quinta-feira (24/11) de seminário do programa “Competitividade Brasil – Custos de Transação” da Amcham em Brasília. O encontro marcou o encerramento do segundo ano de atividades do projeto.

“Não conseguiremos vencer o apagão de mão de obra sem um bom ensino fundamental para os alunos que entrarão no nível técnico. É fundamental ver a necessidade de preencher cerca de oito milhões de vagas técnicas de nível médio como parte de um problema maior, que é um ensino fundamental hoje vergonhoso”, disse o senador Cristovam Buarque (PDT-DF).

Para o senador, a carência de profissionais especializados, sentida em todo o País, precisa ser combatida com a reestruturação do ensino. “A educação exige uma revolução no sistema educacional como um todo. Ela precisa ser transformada em uma questão nacional, federalizada.”

Além de um ensino fundamental melhor, também é necessário reforçar a carga horária do nível médio. A proposta de Cristovam Buarque é ampliar a duração dessa etapa de formação dos atuais três para quatro anos. “E o aluno já sairia com um ofício. Não é imprescindível ir à universidade, mas ter uma alternativa de curso técnico que permita sofisticação no desempenho das profissões”, destacou.

O senador reconhece o esforço das companhias no sentido de treinar pessoas para que possam atuar de modo mais eficiente, atendendo às demandas imediatas do mercado de trabalho, mas recomenda que se reforce a interação público-privada com vistas a implementar soluções consistentes de longo termo. “Como gestores (privados), cada um terá de fazer um esforço para resolver suas dificuldades presentes. Como políticos, precisamos focar o médio prazo. E como pensadores de uma nação sólida, temos a obrigação de trabalhar todos juntos”, afirmou.

Inovação comprometida

Sem esse movimento, continua Buarque, a má qualidade da educação em breve será um entrave para o País. Uma das principais consequências dessa deficiência na formação de profissionais é o baixo índice de inovação. “Nossa capacidade de inventar é muito pequena. Hoje, o que dá competitividade são produtos novos no mercado”, lembrou.

O comprometimento da habilidade do País para inovar também foi salientado por Jacques Marcovitch, professor da Universidade de São Paulo (USP) e mediador do painel. “Se não houver mudança profunda na formação, dificilmente daremos resposta ao tema da inovação”, comentou. Essa transformação, para o professor, passa por reverter o atual quadro de falta de conhecimento de ciências pelos jovens que ingressam no mercado de trabalho.

Na mesma linha, o deputado federal Newton Lima (PT-SP), ex-reitor da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), destacou que o Brasil é uma das maiores economias do mundo, mas está mal posicionado em rankings mundiais de inovação e produção científica (47ª e 13ª colocações no Global Innovation Index 2011 do Insead). “O desafio estratégico é colocar a inovação tecnológica na agenda de políticas prioritárias do Estado, com foco no fortalecimento de pesquisa & desenvolvimento empresarial”, disse o parlamentar.

Lima chamou a atenção para a perda de competitividade dos produtos manufaturados brasileiros nos mercados internacionais, uma tendência que pode aumentar nos próximos anos se nada for feito. O deputado apresentou dados da Organização das Nações Unidas (ONU) que mostram que, entre 2000 e 2009, o percentual de exportações brasileiras de bens com alta tecnologia caiu de 13% para 7% do total. Ao mesmo tempo, a fatia de bens primários (de menor valor agregado) subiu de 22% para 34%. “Lamentavelmente, produtos com média e alta tecnologia vêm caindo de maneira acentuada, o que pode levar o País a um processo de primarização crescente da indústria”, alertou.

Para o deputado, a doutrina que o Estado deve adotar para o desenvolvimento da produção tecnológica tem de abordar os seguintes aspectos:
- Adoção de políticas macroeconômicas estruturais focadas no interesse nacional;
- Atuação estratégica do Estado na defesa e no estímulo à Ciência, Tecnologia & Inovação (CTI);
- Ampliação continuada do mercado interno;
- Política industrial articulada com as políticas de CTI;
- Incentivo à competitividade das empresas industriais por meio de instrumentos de política monetária e industrial. Entre eles, taxa de câmbio que fortaleça as exportações de produtos manufaturados, taxas de juros baixos e financiamento subvencionado para a inovação tecnológica.
- Universalização da educação básica de qualidade e expansão significativa da formação técnica e superior.

Iniciativas importantes

Diante do desafio de capacitar mão de obra para impulsionar avanços em inovação e competitividade, Newton lima destacou a importância das seguintes iniciativas em curso:
• Expansão da educação profissional e superior;
• Plano Nacional de Educação, que define metas para a educação entre 2011 e 2020;
• Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico e Emprego (Pronatec), voltado a expandir a oferta de cursos técnicos e profissionais de nível médio, e de cursos de formação inicial e continuada para trabalhadores;
• Programa Ciência sem Fronteiras, que prevê a concessão de 100 mil bolsas para estudantes brasileiros fazerem intercâmbio no exterior, com o objetivo de incentivar maior avanço brasileiro em ciência e tecnologia.
Ele também defendeu o uso dos royalties do pré-sal para investimentos em educação e inovação.

Parceria para capacitação

A AES Eletropaulo, empresa de geração e distribuição de energia, é exemplo de como o setor privado sofre com a escassez de profissionais qualificados, especialmente quadros técnicos, e age para fazer face a esse cenário.

Em 2009, a AES Eletropaulo lançou o programa Pool de Eletricistas, em parceria com o Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai) e o Instituto Edison, de ensino técnico e profissionalizante. Além de suprir as necessidades de funcionários da AES, o programa também contribui para formar mão de obra para o mercado.

“Já formamos cerca de 2600 colaboradores profissionais no setor de distribuição e admitimos 170. As empresas parceiras (contratadas pela AES) contrataram 1700, e o excedente foi para o mercado de trabalho”, contou Cibele Castro, vice-presidente de Pessoas e Gestão da AES.

Aumento das exigências profissionais

A dificuldade da AES de encontrar profissionais preparados não é isolada. O dinamismo da economia brasileira e a modernização das empresas nos últimos anos colocaram novas exigências de qualificação que, no geral, não vêm sendo acompanhadas pelas escolas de formação. O pesquisador do Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas (Ipea) Divonzir Arthur Gusso explicou, no evento da Amcham, que isso se reflete diretamente no recrutamento das empresas.

Hoje, são necessárias qualificações específicas que exigem mais formação técnica. A oferta expandida de ensino médio ainda reproduz conteúdo curricular desatualizado, o que estimula o desinteresse dos estudantes, apontou o pesquisador.

Entre 1998 e 2009, verificou-se que as vagas em serviços de infraestrutura de transportes e telecomunicações passaram por um grande nível de sofisticação, devido à inserção maior desses setores na economia e à necessidade de atualizações tecnológicas.

Nesse período, os empregos diminuíram nos setores de agronegócios e indústria – sendo que, na indústria, voltaram a contratar em anos posteriores. Outro movimento importante foi o processo de formalização e diversificação de vagas no setor terciário (serviços).

Gusso avalia que essas mudanças reforçam a relevância das propostas da Amcham para enfrentar os gargalos de mão de obra no Brasil, com destaque para criação de incentivos fiscais às companhias que investem em capacitação e desenvolvimento de um programa intensivo de melhoria do Ensino Médio nas áreas de Matemática, Ciências, Física e Química.