Queda na confiança do setor público tem forte impacto nos investimentos

publicado 30/07/2013 14h15, última modificação 30/07/2013 14h15
São Paulo – Dados indicam que o crescimento do Brasil ficará na ordem dos 2%, com aumento da inflação
nilson-teixeira-9192.html

O declínio da confiança no setor público, observada após as manifestações por todo o país, tem impacto direto nos investimentos. Segundo Nilson Teixeira, economista-chefe do banco Credit Suisse, é possível estimar um crescimento menor para o Brasil neste ano, na ordem dos 2%, com ritmo de 0,5% ao trimestre. “Os investimentos crescem, mas não no ritmo necessário que nós gostaríamos de ver para permitir que o crescimento potencial da economia chegasse a 5%”, declara. Para ele, os dados macroeconômicos do país, como crescimento, inflação, superávit, não são exuberantes, mas também não são desastrosos.

Durante o Seminário “Momento Político Atual: Impacto no Negócio”, realizado na terça-feira (30/07), ele trouxe dados que indicam como a onda de protestos afetou o empresariado nacional. “O declínio da confiança é muito negativo para a nossa expectativa de retomada e recuperação dos investimentos, tanto na indústria de bens intermediários e de consumo como na construção civil e nos bens de capital”, aponta o economista, que foi um dos palestrantes do evento realizado pela Amcham-São Paulo.

Além dele, o painel de debate contou com a presença do economista e ex-ministro Delfim Netto, o professor da USP Jacques Marcovitch, o presidente e membro do Conselho de Empresas e Entidades, Pedro Wongtschowski, e o CEO da Amcham Brasil, Gabriel Rico.

O economista-chefe do Credit Suisse informa que hoje existe uma grande deficiência na comunicação do Governo Federal com o setor privado. “O menor crescimento do país está muito associado ao cenário doméstico e aos erros de comunicação do Governo”, afirma Teixeira. De acordo com ele, existe pouca transparência e facilidade no diálogo com as empresas, que não entendem as políticas anunciadas. Como reflexo desse quadro, o Governo também acaba tendo um grau de desconfiança muito grande em relação às companhias privadas.

Por isso, segundo ele, cabe ao setor público dar o primeiro passo, que é “tornar mais claro os seus objetivos”. Nilson Teixeira explica que o impacto das ruas ainda não pode ser interpretado na sua plenitude, pois estariam confirmados mais protestos durante a Copa do Mundo de 2014. No entanto, seria fundamental ao Governo e à presidente Dilma Rousseff “reagir” a tudo isso. “Reagir é ceder, e ceder não com receitas fechadas e definidas, mas abrir mais a discussão”, diz.

Inflação e desemprego
As perspectivas econômicas para o Brasil não são muito positivas. “Nós estamos, pela primeira vez, em uma dinâmica de ligeiro aumento da taxa de desemprego”, acredita Teixeira. Desde 2003, os índices de desemprego vinham caindo de forma expressiva, com média anual de 12,4% há dez anos e 5,5% no ano passado. Porém, em 2013, a estimativa do Banco Credit Suisse é que essa taxa volte a subir, chegando aos 5,8%. “Além disso, o aumento dos salários reais será menor do que nos últimos anos, o que é favorável para a inflação”, indica Teixeira.

Por mais que não haja um descontrole significativo, Nilson Teixeira lembra que a inflação do Brasil é mais alta do que na maioria dos países. “Está muito próximo da meta, de 6,5%, e se deve principalmente pela questão de alimentos”, explica o economista, ao mencionar que, da alta de 1,78% no preço dos alimentos de dezembro de 2012 a junho deste ano, os alimentos em geral representam cerca de 1,1%. “Os industriais contribuíram muito para o aumento da inflação por conta da depreciação cambial e o fim da desoneração”.

Investimento estrangeiro
Houve ainda um aumento no déficit de transações correntes, muito por causa do que está acontecendo no setor de petróleo e derivados. “O Brasil tem apresentado um déficit muito próximo a um e zero e chega a 3,2% do PIB”, acredita Teixeira, que acredita na incapacidade dos investimentos diretos serem compatíveis para financiar e cobrir o déficit de transações correntes.

Mesmo assim, ele aponta que o investimento estrangeiro direto é favorável, com cerca de US$ 7 bilhões em julho e, até o final do ano, um montante equivalente a US$ 65 bilhões. Com base no superávit primário de 1,8% do PIB em 2013, levará a um déficit nominal de quase 3%. “Não é um sinal de crise, ao contrário do que se pode imaginar, mas um sinal de que, mantido o superávit primário, a dívida líquida continuará de maneira bem neutra e a dívida pública com relativa estabilidade”, argumenta Teixeira, que defende medidas do Governo para a redução gradual dos dividendos do setor público.

Impactos políticos
Em junho de 2013, após a eclosão dos protestos em todo o país, a popularidade do Governo Dilma Rousseff teve a maior queda histórica desde o Governo FHC. Segundo Nilson Teixeira, o número é similar à época do impeachment de Fernando Collor. “A expectativa do aumento do poder de compra caiu de forma vertiginosa e, ao mesmo tempo, a estimativa de alta do desemprego aumentou bastante”, comenta o economista, ao lembrar que, há seis meses, a probabilidade de uma reeleição de Dilma era muito alta – o que não acontece mais agora, apesar das fortes chances da presidente se reeleger no segundo turno.

Diante dessa perspectiva, o economista-chefe do banco Credit Suisse defende a ideia de que o Governo Federal tem que reagir às pressões populares. Segundo o palestrante, existe toda uma questão simbólica, que poderia estar representada em iniciativas como a diminuição do número de ministérios. “Hoje, totalizam 39. Se diminuir para 25 ministérios, não trará economia imediata, mas um caráter simbólico determinante”, declara.

De acordo com Nilson Teixeira, se o Governo Federal chegar a 1,5% do superávit primário, o cenário será suficiente para sanar a dívida pública. “Há necessidade que o Governo se mobilize para definir as ações políticas que adotará, com transparência, comunicação e melhoria de gestão”, afirma o palestrante, ao definir essa como a principal solução para melhorar a percepção do povo sobre o poder federal.