Redes elétricas caminham para se integrar na smart grid, um sistema inteligente e automatizado de fornecimento de energia

por marcel_gugoni — publicado 21/05/2012 11h53, última modificação 21/05/2012 11h53
Marcel Gugoni
São Paulo – Sistema bidirecional será capaz de reagir às diferentes cargas e permitir cobranças diferenciadas pelo uso.
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A internet via rede elétrica é uma realidade que vem sendo testada no Brasil para amplificar ainda mais o alcance do acesso à rede mundial de computadores. O caminho inverso é igualmente relevante: as redes elétricas inteligentes podem usar a comunicação instantânea da internet para detectar problemas, dinamizar o acesso à energia e permitir um consumo mais racional de eletricidade.

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Em entrevista ao site da Amcham, o economista Leonardo Campos Filho, diretor de projetos da Siglasul Consultoria, empresa especializada na criação e no aperfeiçoamento da regulação elétrica no Brasil que atua em 14 países da América Latina, diz que as redes elétricas caminham para se integrar na chamada smart grid, um sistema inteligente e automatizado capaz de fornecer energia de grandes geradoras e receber eletricidade de pequenos produtores independentes.

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A ideia por trás do conceito é de um sistema bidirecional (ao contrário da unidirecionalidade existente hoje), capaz de reagir às mais diferentes cargas e viabilizar a cobrança de preços diferenciados pelo uso. “Essa comunicação ocorrerá via internet.”

Campos Filho participou do comitê estratégico de Energia da Amcham-São Paulo realizado na última quarta-feira (16/05).

Leia os principais trechos da entrevista:

Amcham: Quais são as possibilidades que o uso de smart grids traz para o setor de energia?

Leonardo Campos Filho: As redes inteligentes permitem instalar medidores capazes de capturar preços e horários do consumo da energia e criar equipamentos mais eficientes, que podem ajudar a economizar energia, baratear a conta e contribuir para ajustar o cronograma da produção de modo a evitar os momentos de pico de uso do sistema. A smart grid permite, por exemplo, utilizar o carro para gerar energia elétrica e colocar na rede o excedente elétrico, garantindo renda extra. Será possível viabilizar o desenvolvimento tecnológico de grandes baterias, que vão fornecer energia em horários em que a energia custa mais caro e serão carregadas quando a energia é mais barata. Outra vantagem será o combate de forma mais efetiva ao roubo de energia, o popular “gato” na rede elétrica. Isso eem contar o desenvolvimento de produtos diferenciados e energias de qualidades distintas vendidas a preços variados. Trata-se de uma infinidade de coisas que vão colocar a geração de energia mais próxima do consumidor.

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Amcham: As redes elétricas caminham cada vez mais rumo à informatização?

Leonardo Campos Filho: Sem dúvida elas caminham para integrar a automação, a interatividade e os vários tipos de energia, já que cada um poderá colocar e retirar energia da rede. A questão da comunicação é vital para isso. Os equipamentos passarão a reagir a essas variáveis de cargas, preços etc. Essa comunicação ocorrerá via internet.

Amcham: O que se fez necessário em termos técnicos e de regulamentação para implementar essas mudanças?

Leonardo Campos Filho: A realidade da rede inteligente depende, primordialmente, da demanda dos consumidores. No Brasil, essa demanda varia de estado a estado. Em energia, sabemos que os custos não são proporcionais e uniformes. Em algumas regiões, poucos benefícios serão capturados da smart grid. Para quem busca um carro popular e conhece sua finalidade, não adianta o vendedor tentar oferecer um veículo de luxo. Se houver uma regulamentação que aumente muito as tarifas de quem deseja esses serviços, ele fracassará com certeza.

Amcham: Isso é o que ocorre com o carro elétrico, que hoje ainda tem altos preços?

Leonardo Campos Filho: Não só isso. Há incentivos que podem fazer aumentar a procura do carro elétrico, e suas vendas podem ser muito bem-sucedidas em áreas metropolitanas, onde as pessoas querem economizar com combustíveis e “abastecer” com eletricidade barata, mas, mesmo com subsídios, ele pode não ser bem-sucedido em outras áreas, como no interior, por exemplo. Quem sabe, em regiões distintas, ele tenha custos parecidos em termos financeiros, mas os benefícios em questões de poluentes sejam diferenciados.

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Amcham: Enquanto a maior informatização não é implantada, quais gargalos ainda temos que enfrentar?

Leonardo Campos Filho: Os novos geradores, a geração distribuída, as novas demandas não têm um passado. Não há um histórico para quem faz o planejamento nas empresas do setor. Então há uma necessidade imensa de informação nova, processamentos atualizados, ferramentas de simulação que apontem cenários da rede a partir da criação dessas novas tecnologias para que as próprias empresas possam se adequar e organizar para investir. A informação é essencial para o planejamento.