Redução de juros é acertada, mas governo precisa atacar problemas centrais que comprometem custo de produção, avalia economista

por marcel_gugoni — publicado 14/06/2012 17h01, última modificação 14/06/2012 17h01
Curitiba – Lucas Dezordi, economista-chefe da INVA Capital, falou sobre desafios da economia brasileira na Amcham-Curitiba.
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O cenário de turbulências internacionais e desaceleração da economia brasileira exige do País uma discussão urgente sobre gargalos fundamentais que comprometem uma maior competitividade nacional, avalia o economista-chefe da INVA Capital, Lucas Dezordi, que participou do comitê aberto de Finanças da Amcham-Curitiba nesta terça-feira (12/06).

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Para ele, medidas como as recentes reduções na taxa Selic (que hoje está em 8,5% ao ano) representam uma decisão acertada do governo para enfrentar a desaceleração econômica e a valorização cambial, mas são limitadas. Os desafios envolvem levar a cabo mudanças mais profundas, incluindo uma reforma tributária e a ampliação dos investimentos em educação para enfrentar a falta de mão de obra qualificada.

“O governo pode obter resultados positivos com a redução dos juros, mas inevitavelmente terá de atacar alguns problemas centrais do País, principalmente no que diz respeito ao custo de produção”, afirma o economista.

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Leia abaixo os principais trechos da entrevista:

Amcham: Como o sr. avalia a última redução na taxa de juros, realizada em maio pelo Comitê de Política Monetária (Copom)? Qual a sua expectativa para a Selic até o final deste ano?

Lucas Dezordi: Desde agosto de 2011, o Copom vem de maneira correta flexibilizando os juros, ou seja, reduzindo-os para fazer frente à forte desaceleração da economia brasileira e, inevitavelmente, a uma nova onda de recessão que estamos observando em alguns países mais frágeis da zona do euro. Por outro lado, essa expressiva queda da taxa de juros também está servindo como forma de combater a forte valorização cambial, que vinha preocupando o governo. Atualmente o Banco Central está olhando para o PIB [Produto Interno Bruto] do Brasil e não apenas para a meta de inflação. A taxa de câmbio nominal e o desempenho do Produto Industrial Mensal são as variáveis que estão influenciando diretamente a taxa de juros. A minha previsão é de que, agravando-se a situação da Europa e da economia brasileira, fechemos o ano com uma taxa de juros em 7,5%.

Amcham: Se o atual cenário de crise internacional permanecer, a tendência do governo é continuar reduzindo a taxa básica de juros? Até que ponto essa medida é favorável para a economia brasileira?

Lucas Dezordi: Analiso que o governo continuará reduzindo os juros. A questão, então, passa a ser discutir a sustentabilidade dessas medidas. Uma boa forma de se lidar com essa desaceleração da economia seria reduzir os juros por um lado e melhorar os gatos em eficiência produtiva por outro, ou seja, aumentar os gastos em infraestrutura, transporte e educação, principalmente naquilo que venha a sustentar a produtividade da economia nacional. O governo pode obter resultados positivos com a redução dos juros, mas inevitavelmente terá de atacar alguns problemas centrais do País, principalmente no que diz respeito ao custo de produção.

Amcham: Diante desse cenário, há risco de um aumento da inflação?

Lucas Dezordi: Infelizmente, sim. O Brasil pode sofrer com a inflação se quiser crescer muito acima do que a produtividade permite, ou seja, se quiser crescer de 5% a 6% [ao ano] sem fazer reformas estruturais. É o risco de querer crescer a qualquer custo. Na situação atual da economia brasileira, não tenho dúvida de que isso geraria um novo processo inflacionário que inviabilizaria uma maior competitividade a longo prazo.

Amcham: Qual é o maior problema do Brasil, que precisa ser atacado prioritariamente?

Lucas Dezordi: O maior problema da economia brasileira é certamente a falta de investimentos em educação. O Brasil está vivendo uma falta de mão de obra qualificada. Fortes investimentos desde a educação básica e uma reforma do sistema educacional brasileiro são a chave para o desenvolvimento econômico do Brasil. Agora, o que poderia ser resolvido em questão de 12 meses, sem sombra de dúvidas, é uma reforma tributária. Isso, com vontade política, se faz até em menos de um ano.