Se reformas continuarem, Brasil deve reconquistar grau de investimento em 2023, diz economista

publicado 16/08/2019 16h26, última modificação 21/08/2019 13h04
São Paulo – Para Sílvio Campos (Tendências), reforma previdenciária e reinserção internacional criam contexto claro de retomada
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Sílvio Campos Neto, economista da Tendências Consultoria

Para o Brasil ter chance de recuperar o grau de investimento em 2023, vai depender do que fizer em 2019, observa o economista da Tendências Consultoria, Sílvio Campos Neto. “Esse ano é decisivo para criar as condições de uma retomada econômica a partir de 2020.”

No comitê de Finanças que realizamos em São Paulo, no dia 15/8, o especialista explica que a agenda econômica liberalizante precisa continuar. Com isso, os resultados chegarão a partir do próximo ano. “Ao longo dos próximos anos o Brasil já deve receber alguma melhora de avaliação de risco. Mas como ainda são três upgrades necessários para recompor o grau de investimento, creio que fique para 2023, que é um período razoável para isso acontecer”, completa.

Um país que tem o selo de ‘grau de investimento’ sinaliza que é bom pagador de dívidas e atrai mais investidores de fora. As agências internacionais de classificação de risco, que são responsáveis pela nota, levam em conta fatores como situação fiscal, solidez da economia e estabilidade política do país avaliado. De 2011 a 2014, o Brasil recebeu o grau de investimento das três principais agências mundiais (Standard&Poor's, Fitch e Moody's), mas foi rebaixado em função das incertezas políticas e econômicas do período.

Uma reforma robusta

A reforma da Previdência aprovada na Câmara foi “robusta” e abriu caminho para a retomada sustentável. Falta a aprovação no Senado, mas Campos acredita que deve acontecer. “A economia fiscal de 900 bilhões de reais nos próximos dez anos será maior do que muita gente esperava, inclusive nós”, admite. “Ela é bem superior ao que o mercado acreditava, de uns 600 bilhões de reais. Isso dá uma margem fiscal muito importante para os próximos anos.”

Outro fator positivo é a volta do país ao cenário internacional com o acordo Mercosul-União Europeia e a reaproximação com os Estados Unidos. “O Brasil está se reinserindo em um contexto complicado (países ricos se voltando ao protecionismo), mas é positivo”, assinala Campos.

Outras medidas, como a proposta de reforma tributária e a MP (medida provisória) da liberdade econômica, são parte de uma agenda favorável de simplificação e desburocratização, segundo Campos.

Do ponto de vista interno, o início das discussões de reforma tributária é parte de uma agenda boa para a economia e cria a perspectiva de recuperação consolidada. “Temos um contexto claro de retomada nos próximos anos. É possível que o Brasil cresça de 2,5% a 3% por ano.” Para 2019, o economista projeta um crescimento de 0,9% do PIB.

Pontos negativos

Os pontos de atenção ao cenário básico de crescimento da consultoria vêm do cenário externo, com o aumento da disputa comercial entre Estados Unidos e China, e a questão fiscal interna. “Há muitos focos de tensão nos países ricos que podem acentuar a desaceleração global e afetar os emergentes (o Brasil está entre eles)”, comenta.

No quadro interno, a situação fiscal atual é preocupante, apesar da aprovação da reforma previdenciária. Mesmo com a perspectiva de economia fiscal, o Brasil vai ter déficit primário e alto nível de endividamento público até 2022. “A reforma não muda o quadro fiscal ruim, que vai levar uns dez anos para reverter. Não é à toa que a equipe econômica estava preocupada com essa questão”, disse.