Seminário da Amcham: governo tem de reagir e ceder para retomar confiança da sociedade

publicado 30/07/2013 13h42, última modificação 30/07/2013 13h42
São Paulo – Segundo ex-ministro Delfim Netto, relação entre governo e iniciativa privada nunca esteve tão tensa
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A reação do governo às demandas gerais da sociedade, expostas nas manifestações que se desencadearam em junho, não são suficientes para gerar confiança, afirmam os economistas e líderes que participaram do Seminário Momento Político Atual: Impacto no Negócio, na Amcham – São Paulo, terça-feira (30/07). A avaliação é de que o governo precisa abrir diálogo com setores da sociedade, como o empresariado, para decidir os rumos do país.

“O governo não só tem de reagir, tem de ceder, mas não com receitas fechadas”, afirma Nilson Teixeira, economista-chefe do banco Credit Suisse, que debateu com o economista e ex-ministro Delfim Netto; Jacques Marcovitch, professor da USP; e Pedro Wongtschowski, conselheiro da Ultrapar. O painel foi mediado por Gabriel Rico, CEO da Amcham – Brasil.

Cenário e riscos

Teixeira ressalta que, no cenário macroeconômico mundial, os riscos são menores dos que se apresentavam há três anos e que, apesar de os números brasileiros estarem abaixo do ideal (ele estima, por exemplo, crescimento do PIB de 2% em 2013), os investimentos cresceram mais que o consumo, em comparação ao início dos anos 2000.

No entanto, há uma desconfiança que afeta a recuperação dos investimentos, afirma. Ele cita a combinação das expectativas de poder de compra, em queda, e do desemprego, em alta, aliada à queda da popularidade do governo, quase ao nível da época do impeachment de Fernando Collor.

“Se o governo não reagir, é falta de preparo. Não são apenas medidas expressivas [que devem ser feitas], mas simbólicas, como a redução ministerial, que não foi cogitada. A ideia é de que o governo não reagirá à pressão, o que eleva riscos do país. Há erros de atuação e de comunicação do governo”, analisa.

“Lixa”

Além de ratificar a análise econômica de Teixeira, o ex-ministro Delfim Netto afirma que o governo desaprendeu a ouvir setores da sociedade, como o empresariado. Ele diz que as relações entre as duas partes “parecem lixa, em vez de engrenagem”, e que o governo não tem o monopólio do nacionalismo.

“As relações entre governo e iniciativa privada nunca foram tão tensas como hoje. Supostamente o governo tem ideia de que o setor privado não sabe nada. O primeiro passo [de reaproximação] tem de ser dado pelo governo, porque, sem o setor privado, não há desenvolvimento. O máximo que o governo pode fazer é discurso, quem trabalha são vocês [referindo-se à plateia de empresários]”, define.

Cidadania e desenvolvimento

A postura do governo frente às demandas da sociedade deve ser ampla, defende o empresário Pedro Wongtschowski. Para isso, diz que o governo precisa “ter humildade e deixar de ouvir com preconceito”.

“O Estado brasileiro trata as pessoas como consumidores, não como cidadãos. Todos querem adquirir bens, mas, acima de tudo, querem perspectivas, esperanças. A demanda é maior do que a da inclusão na classe média”, avalia.

O país deve agir estrategicamente, opina Jacques Marcovitch. Ele cita que os países mais desejados para se morar são os mesmos que possuem as melhores universidades, e a união de qualidade de vida e de educação não se consegue à toa.

“Precisamos de um estado estratégico, que perceba as tendências e promova mudanças rapidamente, além de um setor privado que se reposicione também de maneira rápida, frente aos desafios globais. E, no governo, precisamos de ministros que resolvam, que entendam dos problemas e não sejam escolhidos para obter maioria no legislativo”, declara.

CEO da Amcham, Gabriel Rico ressalta que vários dos temas que vieram à tona com os protestos há tempos são objetos de discussão na câmara, por meio de seminários e debates, muitos deles entre representantes do governo e da iniciativa privada juntos. “Desse seminário, o primeiro sentimento é o de que é preciso haver responsabilidade de todas as frentes, governo e sociedade. O segundo sentimento é o de esperança para resolver os problemas do país”, define.