Setor elétrico precisa ser mais integrado e informatizado, defendem especialistas

por marcel_gugoni — publicado 17/05/2012 15h58, última modificação 17/05/2012 15h58
Marcel Gugoni
São Paulo – Previsão é de que o consumo cresça acima do avanço do País até 2016, mas a concretização dessa projeção requer atualizações dos sistemas.
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O setor elétrico deve apresentar taxas de crescimento superiores às da média da economia brasileira nos próximos anos, apesar dos gargalos existentes na geração, transmissão e distribuição de energia elétrica no País. Contudo, para garantir o ritmo acelerado, os sistemas precisam se tornar mais integrados e informatizados, avaliam especialistas do setor.

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Uma estimativa da Empresa de Pesquisa Energética (EPE) aponta que o consumo de energia no País aumentará a uma taxa média de 4,7% ao ano entre 2011 e 2016, enquanto o Produto Interno Bruto (PIB) tende a evoluir, em média, 4,4% ao ano no mesmo período. Desde 2002, os percentuais de crescimento do setor superaram a variação do PIB em quase todos os anos – exceto em 2008 e 2009, devido à crise que levou a uma queda acentuada do consumo.

“Os tempos mudaram. Há novas demandas no mercado, mas todos ainda têm de conviver com o que já está dado. São necessários o aperfeiçoamento e a expansão dos sistemas porque a geração tradicional já não captura os novos aspectos de demanda e oferta energéticas”, diz José Sidnei Colombo Martini, chefe do departamento de Engenharia da Computação e Sistemas Digitais da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (USP). Ele participou do comitê estratégico de Energia da Amcham-São Paulo nesta quarta-feira (16/05). A reunião discutiu os principais entraves dos sistemas de transmissão e distribuição e possíveis soluções.

Tecnologia e regulamentação

A bidirecionalidade é uma das mudanças mais importantes que precisam ser implementadas para assegurar crescimento e eficiência ao setor porque permitiria melhor uso e oferta de energia – tanto produzida por empresas quanto por outros consumidores.

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“Atualmente, as redes de distribuição não estão preparadas para fluxos bidirecionais. A eletricidade caminha por um único canal, os fios que chegam até nossa casa, em um só sentido”, explica Martini.

Ele defende que é preciso mudar o papel do consumidor e permitir que ele também seja um gerador de energia. Para isso, os atuais medidores precisam de atualização tecnológica. A ideia é que os aparelhos passem de meros contadores da energia recebida para computadores capazes de mensurar se o consumidor gera a própria eletricidade e se é capaz de oferecer excedente, e em que quantidade, à rede.

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“Antes de chegar à bidirecionalidade, a microgeração causará nas distribuidoras a percepção de que a demanda está caindo. Ora, quem tem um gerador em casa que alimenta a própria rede terá um aparente consumo zero, mas na verdade estará gerando tudo de que precisa”, explica.

Martini avalia que outro gargalo é ainda não haver regulação que abarque o conceito do microprodutor independente. “E a microgeração, porque causa queda no consumo, bate no interesse da distribuidora, no da geradora e no de quem controla a tributação. São todos gargalos e assuntos que permanecem abertos.”

Redes inteligentes

Mais uma sugestão para enfrentar os desafios do setor energético é levar em consideração a possibilidade de criar redes coletoras (que puxe energia de volta de usuários finais). “Há demandas nesse sentido, mas temos uma série de problemas técnicos de disponibilidade de cabos e outros, e há todo um sistema de gatilhos de sistemas de proteção que ainda está montado para a rede funcionar em um único sentido”, defende o acadêmico.

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Leonardo Campos Filho, diretor de Projetos da Siglasul, consultoria do setor que atua em 14 países da América Latina, acredita que a informatização é o caminho para tornar a rede elétrica mais inteligente. “Os medidores automatizados serão capazes de capturar preços e horários do consumo da energia e criar equipamentos mais eficientes, que podem ajudar a economizar energia e baratear a conta”, afirma. “Outra vantagem será o combate de forma mais efetiva aos roubos de energia, o popular ‘gato’ na rede elétrica.”

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Novas tarifas

Outra vantagem da maior integração e informatização das redes é abrir espaço para maior concorrência. Para os especialistas, o sistema elétrico deveria se espelhar na briga do setor de telecomunicações a fim de criar tarifas menores e novos produtos para os mais variados perfis de clientes.

“A inflexibilidade da medição não permite a criação de novos produtos de energia elétrica, como uma possível energia noturna mais econômica, a qual atenuaria o consumo em horários de pico”, critica Martini. “Para uma indústria, perfis de custos mais baratos poderiam significar até uma economia suficiente de capital para abrir uma nova fábrica, com funcionamento em um horário mais econômico.”

A tese é a de que a flexibilização do sistema para baratear a energia em horários de menor consumo desafoga toda a rede e ainda modifica alguns padrões de uso dos consumidores. “Basta uma tarifa mais barata para empresas reverem seus perfis de gastos. Isso ainda alivia toda a distribuição e toda a transmissão. É um tremendo impacto na geração.”

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Campos Filho, que também fez palestra no comitê da Amcham, concorda: “a realidade da rede inteligente depende, primordialmente, da demanda dos consumidores”.

Perfis de uso

E não é só de variação de tarifas que o setor carece. O debate do comitê ainda mostrou que é preciso passar a contemplar os diferentes perfis de consumidores, isto é, as distribuidoras e as geradoras deverão ser capazes de oferecer energia de alta qualidade a quem demanda isso, e baixa a quem não tem tanta necessidade elétrica além do básico.

“Manter e oferecer energia elétrica de alta qualidade, ou seja, com uma forma de onda elétrica perfeita, requer equipamentos e processos que garantam a qualidade deste produto”, afirma Martini. “Atualmente, não há diferenças entre energia de alta qualidade e a de menor qualidade. Quem quer ondas elétricas perfeitas [sem nenhuma falha na transmissão] tem que reformar a energia por meio de retificadores e inversores próprios.”

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É diferente de quem precisa acender uma lâmpada ou manter equipamentos ligados em casa ou em uma pequena empresa, onde milissegundos de falha na transmissão da onda não são perceptíveis.

Proximidade

A distância cada vez maior entre as fontes geradoras – barragens de hidrelétricas, parques eólicos e fornos de usinas térmicas – também atrapalha uma expansão estruturada. O professor da USP avalia que “há dificuldades naturais, porque a geração está cada vez mais distante e é preciso passar sobre áreas de preservação ambiental, e dificuldades sociais, já que essas linhas percorrem várias regiões que às vezes nem têm energia elétrica disponível”.

A exploração de novas fontes de energia que fiquem mais próximas dos centros de consumo e a pesquisa de redes cada vez mais interligadas e seguras são uma saída. Campos Filho avalia que se deve colocar “a geração de energia mais próxima do consumidor e integrar a automação e a interatividade” dos sistemas.

Simplificação

Martini conclui que, atualmente, o avanço técnico não é mais o problema, mas a burocracia envolvendo a geração, a transmissão e a distribuição de energia. “Quase ninguém mais está preocupado em comprar, vender ou buscar a qualidade. Hoje só há preocupação com regras”, critica.

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“O setor precisa ter essa mudança de postura e lutar para simplificar e atualizar algumas coisas a ponto de qualquer consumidor conseguir entender o sistema”, avalia.