Setor privado e Anvisa contam o que fazem para aumentar a produtividade na área de Saúde

publicado 21/03/2014 12h15, última modificação 21/03/2014 12h15
São Paulo – Ações vão de profissionais qualificados, tecnologias integradas a rapidez de processos
ana-maria-malik-8241.html

“Em saúde não se fala mais em eficiência, e sim em produtividade”, resume Ana Maria Malik, coordenadora da GV Saúde – Centro de Estudos em Planejamento e Gestão da Saúde da Fundação Getúlio Vargas (FGV), sobre os desafios da cadeia da saúde no seminário de Competitividade Setorial – Saúde que a Amcham – São Paulo organizou na quinta-feira (20/3).

Para melhorar o atendimento de saúde, os hospitais Albert Einstein e Sírio-Libanês entendem ser necessário ter profissionais qualificados. Por sua vez, tanto a indústria de medicamentos MSD como as de equipamentos médico-hospitalares Siemens Healthcare e BD consideram fundamental aperfeiçoar e integrar novas tecnologias, além de obter rapidez de atuação da Anvisa, o órgão regulador.

No debate, a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) disse estar trabalhando para reduzir o tempo de registro de produtos e de criação de normas sanitárias seguras. Também participaram do encontro a FGV e a Capital Invest.

Apesar da falta de infraestrutura e burocracia excessiva, o mercado de saúde no Brasil é promissor, de acordo com Néstor Casado, CEO da boutique de investimentos Capital Invest. “Os gastos com saúde aumentaram em 15%, incentivado pelo aumento de renda da população e a redução da taxa de desemprego.”

Casado usou dados da consultoria IMS Health, que apontam que o Brasil tem potencial para ser o quarto mercado mundial de saúde em 2016, atrás de EUA, China e Japão. “O potencial de crescimento é enorme. A população brasileira com mais de 60 anos, a que mais consome produtos e serviços de saúde, vai passar dos atuais 14 milhões para 30 milhões em 2020”, argumenta o executivo.

Hospitais

A importância dos hospitais na cadeia de saúde é grande, pois são integradores de serviços médicos, medicamentos e equipamentos de última geração. Claudio Schvartsman, vice-presidente do Hospital Albert Einstein, disse que há novas demandas em função da mudança do perfil de doenças, assim como as exigências dos pacientes.

“Para os hospitais, desempenho é o nome do jogo. Hoje, o paciente faz pesquisa sobre o médico na internet. E escolhe aonde vai se internar não mais pela indicação do amigo, mas pelo desempenho hospitalar”, comenta Schvartsman.

Para ganhar eficiência, os hospitais têm que reduzir o tempo médio de permanência de internação, o que pode ser obtido via melhoria da qualificação dos profissionais. “Quem tem doutorado tem desempenho significativamente melhor. Ter corpo clínico diferenciado é extremamente importante.”

Como exemplo, Schvartsman cita o programa Segunda Opinião do hospital, que consiste em ouvir pelo menos dois médicos para o tratamento de pacientes com problemas na coluna. “De 3 mil pacientes, só um terço teve necessidade de cirurgia confirmada. Os demais foram tratados com dieta e fisioterapia”, comenta.

Gonzalo Vecina Neto, superintendente corporativo do Hospital Sirio-Libanês, disse que a melhoria de produtividade tem que incluir a cadeia como um todo. “O setor precisa de quatro coisas: pessoas mais capacitadas, regulação indutora de desenvolvimento, apoio à Anvisa e debate corajoso sobre eficiência na gestão pública e privada da saúde.”

As indústrias e a Anvisa

Em se tratando de saúde, a rápida disponibilidade de novas tecnologias pode fazer toda a diferença no tratamento de pacientes. “A inovação e as novas tecnologias têm que vir em ritmo acelerado, pois melhoram a eficiência do tratamento e qualidade de vida dos pacientes”, argumenta Fernando Narvaez, diretor da divisão de Imagem e Terapia da Siemens Healthcare.

Para ele, a indústria tem como conseguir eficiência aliando tecnologias com procedimentos. “Há tecnologias de imagem que permitem a detecção precoce de câncer. Aliado ao tratamento preventivo, há como melhorar qualidade de vida.”

O executivo disse que os índices de desenvolvimento humano estão diretamente relacionado aos gastos com saúde. “Países desenvolvidos têm os melhores indicadores. Os BRIC (Brasil, Rússia, Índia e China vivem situação diferente. O desafio é fazer com que o gasto venha com qualidade e eficiência”.

As novas tecnologias precisam chegar rápido ao mercado, de acordo com Walban Damasceno, diretor de Assuntos Corporativos e Relações Governamentais da BD. “A morosidade na concessão de registros (responsabilidade da Anvisa) atrapalha o planejamento de negócios. Não se pode esperar de três a quatro anos para lançar uma tecnologia”, comenta ele.

João Sanches, diretor de projetos estratégicos da MSD, disse que é preciso fazer um desenvolvimento focado e integrado. “Não é possível ter um setor de saúde competitivo sem desenvolvimento clínico, boa regulação e manufatura.”

Há alguns anos, o Brasil era um centro importante de desenvolvimento clínico, mas que deixou de ser em função da excessiva burocracia e infraestrutura insuficiente. “Temos que atrair investimentos de qualidade em pesquisa básica e produção de medicamentos para voltar a ser um grande centro clínico mundial”, comenta Sanches.

Por sua vez, a Anvisa reconhece a lentidão dos processos, mas que tem trabalhado para tornar os procedimentos mais ágeis. No entanto, disse que o ganho de eficiência não pode comprometer a qualidade regulatória. “Temos que avaliar qual efeito o novo produto traz à saúde das pessoas”, afirma Renato Porto, diretor de regulação da Anvisa. “Segurança regulatória não se traduz apenas em produtos com qualidade e eficácia comprovada. Também é preciso manter a Anvisa aberta a modernizações”, comenta.