Empresariado tenta contornar gargalos logísticos com investimentos próprios

por andre_inohara — publicado 24/03/2011 16h01, última modificação 24/03/2011 16h01
São Paulo – Ainda aguardando regras claras para aplicar recursos no setor, companhias constroem estruturas particulares para escoar produção.
setor_materia.jpg

Para atenuar as perdas decorrentes da demora no transporte de mercadorias até os portos por via rodoviária, os exportadores constroem, com recursos do próprio bolso, estruturas particulares para o escoamento da produção.

“Produtores de soja no Centro-Oeste criaram aquavias com portos, transbordo e armazéns (usando trechos alternativos ao tráfego rodoviário)”, exemplificou o diretor de Logística da consultoria Accenture, Roque Cifu, que participou do comitê de Logística da Amcham-São Paulo nesta quinta-feira (24/03).

Ele ressalta, porém, que iniciativas adicionais para combater os gargalos logísticos seriam estimuladas se o governo definisse regras mais claras para investimentos privados. “Se o governo não investe, que pelo menos permita que o setor privado se organize em termos de capital para atender essa demanda”, criticou Cifu.

Uma barreira que desestimula os investimentos privados são as licenças ambientais – permissões que atestam que os projetos não trarão impactos negativos ao meio-ambiente. Os entraves são grandes. “Fazer um terminal portuário, ferroviário ou rodoferroviário exige um terreno grande. Para construir, o investidor enfrenta um grande e demorado processo de obtenção de licenças”, disse o diretor.

Perda de competitividade

Os gargalos logísticos representam perda de competitividade no longo prazo. O setor de agronegócios, um dos que produzem superávit na balança comercial, é um dos prejudicados, alerta o executivo. “A falta de infrestrutura representa um custo, que é compensado pela grande eficiência do setor. No entanto, poderá chegar o momento em que essa situação não se mantenha”, assinalou.

Alguns segmentos, como o de soja e milho, sofrem com a falta de ativos de transporte. Não há portos nem armazéns suficientes para enviar a produção de forma rápida, e registros de dezenas de caminhões enfileirados nas proximidades de portos são comuns. “Um caminhão pode ter de esperar de seis a 12 horas para descarregar sua mercadoria.”

No ramo de logística rodoviária, modal de transporte mais usado, não há estradas suficientes nem incentivos para ampliá-las. “Talvez a grande dificuldade do transportador seja o acesso ao crédito para a renovação da frota e melhoria operacional”, sugeriu Cifu. Dados de 2010 do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) sobre a malha rodoviária indicam que é preciso investir R$ 183,5 bilhões para melhorar as estradas do País.

De acordo com o Ipea, o grosso desse montante, R$ 145 bilhões (quase 80%), teria de ser canalizado para recuperação e duplicação de rodovias. Outros R$ 38,5 bilhões iriam para a construção e pavimentação de estradas.

Para o executivo da Accenture, a recuperação de estradas é essencial para o fluxo de exportações. Ele acredita que o governo deveria dar prioridade ao tema.  “Seria interessante que uma política nacional de conservação de rodovias tivesse regras mais claras. Medir a situação das rodovias não deve ser muito difícil de implantar, até para detectar os primeiros sinais de degradação.”