Sistema de voto distrital dá mais poder ao eleitor para fiscalizar os políticos, afirma Delfim Netto

publicado 31/07/2013 15h11, última modificação 31/07/2013 15h11
São Paulo – Mecanismo aproxima a sociedade do político, que fará propostas mais realistas de melhoria
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O voto distrital é uma arma poderosa que os eleitores têm para cobrar dos políticos eleitos as melhorias prometidas em campanha. “É um mecanismo eficaz que dá cidadania à sociedade e poder sobre o político”, afirma o ex-ministro e economista Delfim Netto, no seminário ‘Momento Político Atual: Impacto no Negócio’, realizado na terça-feira (30/7) pela Amcham-São Paulo.

A reformulação do modelo eleitoral foi abordada no debate, como forma de solucionar o problema de representatividade em uma eventual reforma política. Essa foi uma das bandeiras dos manifestantes que participaram das passeatas de junho.

No sistema distrital, o Estado é dividido em territórios (distritos) e cada um deles elege um deputado por maioria simples (50% dos votos mais um) para lutar por melhorias na região junto ao governo federal. No Brasil, os representantes da população de um estado no governo central são os deputados federais, escolhidos por voto direto.

Delfim conheceu o modelo distrital na França, quando morou por lá durante três anos. “É um sistema terrível de controle, o sujeito (político eleito) e a família têm que morar no distrito. Ele é um pobre miserável obrigado a representar seu eleitorado e dar a mão para 350 mil cidadãos (que habitam no distrito)”, comenta o ex-ministro.

Outra vantagem do sistema distrital é que o próprio candidato é que tem que arcar com as despesas de campanha. “Não vai precisar, como está sendo proposto agora, que a sociedade financie a eleição. Cada um que cuide de si. O candidato vai com a mulher fazer cartazes e pendurar na praça, falando suas propostas”, detalha Delfim.

Nesse sentido, a proposta de financiamento público de campanhas eleitorais, do PT (Partido dos Trabalhadores), é uma “indignidade”, classifica o ex-ministro. “É a conservação do que está. Quem se elege de novo é o que tem mais recursos, e quem tem mais recursos é o que está eleito”, argumenta.

Mas, embora nenhum sistema eleitoral seja perfeito, o ex-ministro se mantém favorável ao modelo distrital. “Se o sujeito se comportar mal, o distrito cassa a sua eleição e põe outro.”

Gestão de expectativas

Quando o contato dos eleitores com o seu político é maior, o poder de cobrança aumenta e as propostas de campanha tendem a ser mais realistas. “É evidente que, em países onde o convívio entre eleitor e eleito é mais próximo, há maior preocupação da gestão de expectativas”, afirma Jacques Marcovitch, professor da USP (Universidade de São Paulo).

Ou seja, o candidato não vai prometer aquilo que não puder cumprir. Porém, em sistemas eleitorais onde o distanciamento da população é forte, como no Brasil, a propaganda se tornou uma peça fundamental do candidato. “O que observamos em democracias como a nossa é que há um discurso que, poucos dias depois (da eleição), não é correspondido com a prática”, comenta Marcovitch.

De acordo com o acadêmico, o eleitor não se lembra em quem votou porque existe uma estrutura sofisticada de mídia que consegue captar o que ele quer ouvir e o candidato, por sua vez, monta seu discurso baseado nessas expectativas. “Mas em poucos dias essa conexão desaparece”, ressalta.

Passado o período eleitoral, o candidato eleito se esquece rapidamente das promessas de campanha. “Não há o accountability (responsabilidade) entre uma parte e outra.”

O convívio maior entre eleitores e eleitos é a chave para uma maior representatividade da população e melhoria da imagem dos políticos, defende Marcovitch. “Os fatos que chegam ao noticiário são os casos negativos. Raramente vamos nos lembrar dos políticos dignos que tem ajudado na construção do País”, destaca.