Visita de Mike Pence, Vice-Presidente americano, é sinal de retomada do diálogo Brasil-EUA, avalia CEO da Amcham

publicado 27/06/2018 09h18, última modificação 27/06/2018 10h08
São Paulo – Deborah Vieitas, que lidera a maior Câmara Americana fora dos EUA, comenta que visita é o primeiro momento relevante desde a troca de governos há quase dois anos

O vice-presidente dos Estados Unidos, Mike Pence, desembarcou em Brasília, ontem (26/6), na primeira visita de um representante da cúpula do Governo Donald Trump ao País e um dos encontros diplomáticos mais importante do governo do Presidente Michel Temer. 

Para Deborah Vieitas, CEO da Amcham Brasil, a maior Câmara Americana entre 114 existentes fora dos EUA, a visita é uma sinalização da retomada de uma aproximação Brasil-Estados Unidos. “É o primeiro momento de fato relevante na agenda bilateral com uma alta autoridade americana desde a troca dos dois governos. Há quase dois anos não temos um movimento tão significativo com o nosso principal parceiro comercial mais relevante e qualitativo”.  

No histórico de diálogos bilaterais, Temer e Trump tiveram um encontro durante a reunião do G-20, em Hamburgo, na Alemanha, em 2017. Já Mike Pence e o presidente Temer se encontraram na ocasião da Cúpula das Américas, no Peru, em abril deste ano, e antes tinha excluído o Brasil da sua agenda na região. “O vice-presidente americano tem sido um importante interlocutor da Casa Branca para assuntos relacionados à América Latina. Do lado brasileiro, devemos aproveitar essa visita como o início de uma nova dinâmica de aproximação mostrando os dados e positivos da nossa parceria histórica”, acrescenta Vieitas.

Expectativas do encontro

Os Estados Unidos são o país que tem o maior volume de investimento estrangeiro direto no Brasil, gerando cerca de 600 mil empregos diretos e somando mais US$ 280 bilhões de dólares, equivalente ao PIB da Colômbia. A balança comercial entre os dois países foi superavitária para os EUA em US$ 973 bilhões nos meses de janeiro a maio de 2018. No total de 2017, o saldo foi positivo para o Brasil em US$ 2 bilhões, após oito anos de déficits.

“Em meio as tensões comerciais e imigração globais, o Brasil precisa manter uma postura mais ativa e positiva de diálogo com seus principais parceiros comerciais. O país norte-americano é o principal destino de exportação de produtos brasileiros manufaturados e semimanufaturados, compondo cerca de 75% da pauta de exportações nesses segmentos e envolvendo mais de 7 mil empresas manufaturados”, contextualiza a CEO da Amcham Brasil, que reúne mais de 5 mil empresas associadas, sendo 80% delas brasileiras dos mais variados segmentos e portes.   

O cenário de protecionismo não é favorável ao Brasil, continua a CEO. Ela cita dados da Conferência das Nações Unidas para o Comércio e Desenvolvimento que estimam que, em caso de guerra comercial entre as duas superpotências, as tarifas aplicadas às exportações brasileiras poderiam subir de 5% para 32%. “Esse cenário é preocupante. Muitos países sujeitos a aumento de tarifas dos EUA, vão procurar outros mercados para suas exportações. Estudos apontam que países emergentes e setores altamente protegidos, como agricultura e processamento de alimentos, estariam entre os mais afetados negativamente”, segundo Vieitas.

Além disso, a instabilidade no cenário global deve encarecer os custos de logística e seguros, e pode mudar o desenho do comércio mundial. “Em relação ao aço brasileiro, é importante ressaltar que o Brasil conseguiu entrar em sistema de cotas ao invés de entrar diretamente no programa de aumento de tarifas, tal como ocorreu com o Canadá e a União Europeia, outros parceiros históricos americanos”, ressalta.

Unilateralismo e oportunidades

A CEO da Amcham acredita que, apesar de não ter sido o grande tema da pauta deste encontro, o governo Brasileiro deve aproveitar o retorno do diálogo para falar sobre a construção de um futuro acordo de investimento e comércio. “Diante da crença do presidente Trump na maior vantagem do unilateralismo, apresentamos vantagens que devem ser discutidas de forma estruturada e constante”, provoca.

Deborah Vieitas cita estudo da Amcham e FGV que aponta que um acordo entre os dois países traz um potencial de crescimento de PIB na ordem de 1,4% até 2030, e inúmeras vantagens também de crescimento do lado americano. “Este encontro pode ser um passo inicial e provocativo nesta direção. Sabemos que este seria um sonho, mas devemos aproveitá-lo para intensificar a facilitação de comércio, que envolve questões de convergência regulatória e de padronização de processos aduaneiros”, recomenda.

A Amcham enxerga espaço há médio e longo prazo para a construção deste acordo amplo e, por isso, vem desenvolvendo uma agenda propositiva com os principais pré-candidatos a presidência da República do Brasil, apresentando as vantagens da intensificação da relação bilateral Brasil-EUA. Os presidenciáveis Ciro Gomes, João Amoedo, Álvaro Dias e Henrique Meirelles já estiveram na Amcham formalizando seu compromisso em dialogar com o programa proposto pela Câmara Americana. Até agosto, a Amcham estará recebendo os demais candidatos. A agenda está no disponível no www.amcham.com.br .