“A gente não quer fazer sentido só na prostituição. Queremos ocupar outros espaços também”, afirma militante travesti

publicado 03/10/2017 11h03, última modificação 04/10/2017 11h40
São Paulo – Amara Moira, aponta a discriminação e exclusão de pessoas trans no mercado de trabalho

Dentro da sigla LBGT, o grupo T, composto por transexuais e travestis, é um dos que mais encontra dificuldades de inserção no mercado de trabalho. A baixa escolarização (muitos abandonam os estudos por conta do preconceito na escola), a falta de apoio de familiares e a discriminação no mercado de trabalho deixa o grupo à margem da sociedade. Dados da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA) mostram que mais de 90% das pessoas T vivem unicamente da prostituição. Amara Moira, travesti e doutora em literatura pela Unicamp, critica essa realidade.

“A gente quer ocupar outros espaços também. A gente não quer fazer sentido só ali [na prostituição], a gente quer fazer sentido na sociedade como um todo. Os sonhos infantis de ser advogada, cientista, astronauta, para nós, nenhum deles dá certo. No máximo, a gente vai poder sonhar com ser prostituta. Precisamos começar a romper com essas narrativas que nos engessam”, afirmou, durante o Fórum de Diversidade da Amcham - São Paulo, realizado no dia 28 de setembro.

A trajetória de Amara é diferente da grande maioria das pessoas trans. As que começam os processos de transição ainda na adolescência, muitas vezes, não conseguem terminar os estudos. “É muito recente minha transição. Eu já estava no doutorado, nesse espaço privilegiado que é a pós-graduação, então tinha condições de negociar minha aceitação com a minha família e sociedade. Mas essa não é a realidade da maioria das pessoas trans no país”, conta. Na Unicamp, Amara relata que todas as pessoas T também começaram o processo após entrar na universidade e vem de uma realidade socioeconômica privilegiada.

Mesmo nesse espaço, na Unicamp, são dez pessoas trans entre 30 mil estudantes – o que representa 0,03%. Amara compara esse número a porcentagem de pessoas trans na zona de prostituição de Campinas: cerca de 5%. “Se esse número fosse realidade em outros espaços da sociedade, todo mundo teria estudado com uma travesti, todo mundo conheceria uma trans na sua sala”, alerta.

Hoje, professora de literatura de um cursinho online, Amara também foi prostituta por um tempo e lembra que era um espaço em que não precisava de um decreto para respeitarem seu nome e sua identidade de gênero - ao contrário de instituições como escolas, universidades e empresas. “A sociedade só consegue nos conceber como prostitutas, profissionais do sexo, como pessoas que querem fazer sexo o tempo inteiro. Quando eu estou na prostituição, não precisa de um decreto para respeitar meu nome, meu gênero. Para a Unicamp me chamar de Amara, precisou de um decreto estadual. As empresas que vocês trabalham - não sei o quanto elas estão dispostas a reconhecer o gênero e nome social da trans antes que exista uma legislação obrigando essas empresas”, criticou.

Amara lembra que, no início de sua carreira, quando ainda estava na graduação e não tinha iniciado sua transição, conseguiu um emprego com grande facilidade, mesmo sem experiência profissional. Hoje, com mais experiência e mais estudos, teve muito mais dificuldade para encontrar uma posição no mercado de trabalho. “Um colégio precisa ter coragem para me contratar como professora, porque para me contratar ele vai ter que comprar brigas. Vai ter que peitar a transfobia dos funcionários, dos alunos, dos pais de alunos: quem está disposto a isso? Eu sou a prova viva de que não existe meritocracia alguma, porque hoje eu sou uma professora muito melhor do que eu era há dez anos. E mesmo assim, ainda é uma luta para conseguir um emprego”, ressalta.

Para as empresas que gostariam de investir na inclusão de pessoas T, Amara ressalta a importância da organização defender e ficar ao lado do colaborador trans, dando segurança a pessoa, principalmente em casos de discriminação. “Na primeira aula que eu dei, teve muita reação transfóbica de quem estava vendo a aula em vídeo. E foi muito importante que a própria empresa depois veio conversar comigo e falou que tinha deletado todos os comentários transfóbicos que apareceram no chat da aula”, compartilha. Nesse diálogo, a organização também deixou claro que não era o preconceito de alunos e pais de alunos que fariam com que eles abrissem mão de Amara.