“Desempenho econômico será modesto, mas não catastrófico, com qualquer resultado da eleição”

publicado 13/05/2014 11h30, última modificação 13/05/2014 11h30
São Paulo – Para Fernando Sampaio, da LCA consultores, PIB brasileiro deve crescer entre 1,2% e 1,9% em 2014
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Sem grandes pretensões, os resultados econômicos do Brasil em tempos de Copa e de eleições não serão exatamente o fim do mundo. Nem no próximo ano, seja qual for o resultado das urnas. Essa é a análise que o economista Fernando Sampaio, sócio da LCA Consultores, fez durante o comitê estratégico de Finanças da Amcham – São Paulo, quinta-feira (08/05).

“Vou contra o senso comum, mas eu lido com o mercado, tenho de dar informações aos meus clientes, então meu papel é ser objetivo”, diz.

A consultoria projeta crescimento do PIB entre 1,2% (cenário adverso) e 1,9%, em 2014. Para o próximo ano, entre 2,1% e 2,5%.

Sua análise difere das mais pessimistas ao considerar a macroeconomia mundial, em que há perspectiva de desempenho regular, e dados domésticos como o consumo, que não repete o boom da última década, mas se mantém em crescimento.

Todo mundo junto

Sampaio destaca que, apesar da incerteza monetária (alta dos juros), a economia dos EUA segue com atividade mais firme e desemprego em queda. O impasse político que levou ao shutdown, por exemplo, perdeu força. Na zona do euro, a deflação e a saúde dos bancos ainda preocupam, mas há perspectiva de melhora. “Essa crise financeira (de 2008) é dos países desenvolvidos. Mas o mundo está fechando a cicatriz da crise de 2008”, diz. “Na Europa, o processo está mais atrasado, mas não parece haver chance de hemorragia”, acrescenta.

Na China, as reformas na economia tornarão o crescimento mais irregular nos próximos anos. Mesmo assim, o país ainda tem muita reserva de moeda estrangeira (US$ 3,95 trilhões, segundo o Banco Popular da China). Os chineses têm dívida pública baixa e, com esse cenário, mostram condições de ajudar.

“O crescimento de 7,5% do PIB chinês de hoje é maior que o de 10% ao ano anterior”, expõe. “Eles são uma das razões pelas quais o Brasil conseguiu juntar US$ 380 bilhões. Não se trata de um tigre de papel”, define.

A Argentina ainda prossegue com as crescentes pressões cambiais e inflacionárias. Os ajustes por lá devem ocorrer apenas após as eleições presidenciais de 2015. Porém, uma sangria argentina não levaria o Brasil por água abaixo. “É um importante parceiro nosso, mas não oferece contágio como no passado, até pela reserva de dólares do BC (Banco Central)”, argumenta.

Mas ainda assim, o PIB mundial vai subir, devendo fechar 2014 com alta de 3,6% (EUA: 2,6%; UE: 1,1%; China: 7%; Japão: 1%) e 2015 com 3,9% (EUA: 3,1%; UE:  1,7%; China: 7%; Japão: 1,1%).

“A economia do mundo todo está subindo e a nossa está atrelada. É incomum o PIB do mundo todo subir e o nosso de um país não acompanhar”, explica.

Aqui dentro

Entre os fatores domésticos, estão a política e o consumo da população que, mesmo sem reproduzir a pujança dos últimos anos, segue positiva.

Para o economista, as pesquisas ainda não exibem um retrato fiel do que está ocorrendo entre as faixas de eleitores, porque cada instituto usa uma metodologia.

“No momento, a queda de intenção de voto em Dilma é uma erosão em sua própria base, e não alta dos opositores. É difícil a oposição crescer agora porque a campanha ainda não começou”, comenta.

Ele afirma que, qualquer que seja o resultado eleitoral em outubro, as projeções são as mesmas. “Não muda muito porque as más notícias já são esperadas para 2015: corte de investimentos, inflação, etc. Até porque é o primeiro ano de governo, que tem mais benevolência da população para resultados ruins”, diz.

Fora das urnas, há o risco – e não é pequeno - de racionamento de energia, uma vez que o cronograma de obras não foi cumprido. No entanto, o efeito não será “bruto” como em 2001, porque tem mais oferta e comunicação no sistema.

Já se sabe, também, que haverá baixo reajuste do salário mínimo em 2015, pois o cálculo considera a variação do PIB de dois anos anteriores, além do acumulado da inflação em 12 meses. “O mínimo, hoje, impacta menos o salário do trabalhador e mais as contas públicas, em função de benefícios previdenciários”, declara.

Corre a bola

A consultoria espera desaceleração dos investimentos em 2014, devido à (des)confiança dos empresários e volatilidade do dólar durante 2014 (mas fechando o ano a R$ 2,35). Além disso, a inflação deve ultrapassar o teto da meta, com a manutenção da Selic em 11%. O alívio deve ocorrer ao longo prazo.

A inadimplência do consumidor deve recuar esse ano, assim como em 2013. E a tendência é de que o comércio varejista apresente menor crescimento, nos próximos anos, com o fim de incentivos do governo, condições de crédito menos favoráveis e o aumento pequeno da renda, além do endividamento das famílias.

A expectativa é de que o setor agropecuário também terá crescimento menor, de 2,8%, em 2014, e 4% em 2015. No ano passado, o setor teve alta de 7%, enquanto o PIB do país todo subiu 2,3%.

E quando o assunto é o número de dias úteis reduzido com a Copa do Mundo, há mais incertezas do que convicção. “Ninguém sabe medir o impacto disso, mas a expectativa é de que mais atrapalha do que ajuda”, comenta.

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