Ambiente globalizado exige que País invista em inovação, defende secretário do MDIC

por marcel_gugoni — publicado 26/11/2012 10h51, última modificação 26/11/2012 10h51
São Paulo – Para Nelson Fujimoto, titular da pasta de Inovação do ministério, Brasil precisa deixar de focar somente em preço baixo para oferecer, também, produtos com maior valor agregado.
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A inovação é o motor que impulsiona um país em termos de competitividade global. Investir para tornar as empresas nacionais mais competitivas envolve oferecer incentivos para que elas ofereçam produtos e serviços diferenciados, afirma Nelson Fujimoto, secretário de Inovação do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC).

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“Hoje em dia, não dá para pensar uma indústria, uma empresa e um país sem pensar na competição global”, disse. “O ambiente de negócios ele está cada vez mais integrado e globalizado, e exige um nível maior de inovação para que cada player possa se inserir nessa competitividade global.”

Em entrevista após participar da força-tarefa de Relações Governamentais da Amcham-São Paulo, na sexta-feira (23/11), Fujimoto disse que o Brasil precisa deixar de focar somente em preço baixo para oferecer, também, produtos diferenciados, com maior valor agregado. “Para ser competitivo, não basta ter só preço baixo, mas qualidade para oferecer produtos de nível global em cada segmento.”

“Focar só em valor é apostar em produtos de baixo valor agregado, às vezes só em commoditties. É importante ter um alto valor agregado, que traz consigo valorização de recursos humanos e mudança da matriz produtiva com maior inteligência de negócios.”

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O secretário considera que o papel do governo, neste cenário, é incentivar a inovação do setor privado com recursos de baixo custo. Ele cita o caso do Plano Brasil Maior, que destina R$ 16 bilhões para inovação até 2014, com taxas de juros abaixo da inflação. “Consideramos importante atrelar os incentivos fiscais a indicadores de inovação. Se a empresa não inovar, não vai conseguir ter seus benefícios fiscais renovados.”

Leia os principais trechos da entrevista com Nelson Fujimoto:

Amcham: Quais são as medidas de maior impacto do Plano Brasil Maior em incentivos à inovação?

Nelson Fujimoto: As principais ações têm sido direcionadas basicamente em duas grandes áreas. A primeira é a melhoria e a ampliação da parte de financiamento de projetos de pesquisa e desenvolvimento nas empresas. Esse tema é bastante importante e dispomos de recursos à inovação em torno de R$ 16 bilhões até 2014. Isso envolve desde recursos não reembolsáveis e uma parte de financiamento de recursos reembolsáveis, que têm um grande apoio financeiro do governo. O reembolsável visa a atender mais gente, por isso representa a maior fatia. Já o não reembolsável fica em torno de 1%, mas é um recurso muito nobre porque está voltado para aquilo que efetivamente tem maior risco e exige investimento maior para inovação. Esses valores vêm sendo aplicados desde o começo do ano até 2014, e é importante destacar que a taxa de juros cobrada nesse financiamento reembolsável é de 4% ao ano.

Amcham: É uma taxa mais baixa do que a inflação. Há recursos do governo nesse montante?

Nelson Fujimoto: Para comparar, a taxa média com que o BNDES [Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social] financia é 10% ao ano. Existe aí uma aplicação de recursos públicos para equalizar essa taxa de juros para um nível menor do que o da inflação. Esse recurso está sendo aplicado para as empresas inovarem, o que é muito importante.

Amcham: Qual é a contrapartida que as empresas devem dar por esses recursos?

Nelson Fujimoto: Essa é nossa segunda grande área de atuação: consideramos importante atrelar os incentivos fiscais a indicadores de inovação. Temos feito um movimento para que todo e qualquer incentivo, sejam pedidos de renovações ou de novos incentivos, tenham elementos focados em indicadores. Se a empresa não inovar, não vai conseguir ter seus benefícios fiscais renovados. Um exemplo disso é o setor automotivo, com o InovaAuto [Programa de Incentivo à Inovação Tecnológica e Adensamento da Cadeia Produtiva de Veículos Automotores].

Amcham: Por que o Brasil necessita tanto de inovação?

Nelson Fujimoto: Hoje em dia, não dá para pensar uma indústria, uma empresa e um país sem pensar na competição global. O ambiente de negócios ele está cada vez mais integrado e globalizado, e exige um nível maior de inovação para que cada player possa se inserir nessa competitividade global. O Brasil, nessa competição, não pode estar focado só em preço. É preciso também diferenciar produto. A inovação é essencial para isso. Para ser competitivo, não basta ter só preço baixo, mas qualidade para oferecer produtos de nível global em cada segmento.

Amcham: É uma questão de gerar valor agregado?

Nelson Fujimoto: Com certeza. Focar só em valor é apostar em produtos de baixo valor agregado, às vezes só em commoditties. É importante ter um alto valor agregado, que traz consigo valorização de recursos humanos e mudança da matriz produtiva com maior inteligência de negócios, o que, por sua vez, propicia um crescimento maior da economia e melhorias à sociedade. Em um projeto de desenvolvimento de um país, a inovação é um elemento central.

Amcham: Quais sao os gargalos da economia brasileira que atravancam a inovação?

Nelson Fujimoto: Não diria que atravancam, mas o modelo de desenvolvimento brasileiro tem várias fases com uma indústria brasileira diversificada, desde produção têxtil até máquinas de bens de capital, e o que aparece como principal desafio é justamente olhar para essas cadeias produtivas identificando o que falta para elas crescerem no nível internacional. Elas estão, hoje, sofrendo uma competição global. A inovação não está atravancada, mas aparece como saída para melhorar essa matriz produtiva. Quando olharmos para um setor que é complexo, como o de tecnologia da informação e comunicação, precisamos buscar os gargalos dessa cadeia em termos de tecnologia. A partir daí, é preciso focar. Nossa grande dificuldade generalizada é que, tendo essa matriz produtiva diversificada, é preciso ser inovador em muitos setores diferentes, e nem sempre isso é possível. O esforço do Plano Brasil Maior é identificar quais são esses gargalos e fomentar as áreas com maior carência visando a dar a elas maior poder de competição internacional.

Amcham: Qual é o papel, para a inovação, da parceria entre empresas e universidades?

Nelson Fujimoto: Um dos elementos importantes para a inovação é aproximar os institutos de pesquisa das empresas. Hoje já vemos iniciativas desse tipo, mas ainda são poucas. Ao longo dos últimos dez anos, houve um esforço grande do governo em dotar o País de uma infraestrutura científica e tecnológica, e a excelência nessas áreas está nos institutos de pesquisa. Por isso, entendemos que tudo o que já foi investido na infraestrutura desses institutos deve estar voltado também para as empresas e para o desenvolvimento de produtos. Essa interação é muito importante. Empresas e universidades têm esse interesse. O que falta são mecanismos, e estamos estudando esses mecanismos para resolver a questão de transferência de tecnologia.

Amcham: Qual a melhor maneira de o setor privado dialogar com o governo para a promoção da inovação?

Nelson Fujimoto: O Plano Brasil Maior é o principal canal. Ele está estruturado de forma a que cada setor tenha um comitê composto por representações governamentais e interministeriais, além da participação de empresários, trabalhadores e associações e entidades. É por meio desses conselhos que esperamos receber as contribuições desses setores, que podem encaminhar suas demandas. O ideal, para as empresas, é que possam levar seus pleitos para as entidades de classe correspondentes para que esses pleitos venham de forma mais estruturada para a discussão do plano. Não temos como atender empresa por empresa. Evidentemente, as empresas sempre tiveram e continuarão tendo o apoio que o governo já oferece via BNDES e Finep [Financiadora de Estudos e Projetos], mas, efetivamente sobre o plano, as contribuições devem vir por meio das entidades setoriais.

Amcham: O que aparece entre as principais demandas já identificadas por parte dos empresários, principalmente em relação à inovação?

Nelson Fujimoto: Um  dos pontos, que ficou bastante claro após o debate aqui com alguns associados da Amcham, é a questão da propriedade intelectual e do prazo de resposta dos pedidos de patente. Nestes aspecto, o Plano Brasil Maior mostra uma atenção muito grande e já há uma decisão de governo no sentido de modernizar o Instituto Nacional de Propriedade Intelectual (INPI). Para isso, já aprovamos no Congresso Nacional a ampliação dos recursos humanos do INPI e também a outra boa notícia foi a questão da liberação dos recursos orçamentários para que o órgão possa implementar essa modernização. Com isso, o INPI pode duplicar o número de xaminadores e temos a condição de diminuir o backlog do INPI.

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