Aplicativo em celular facilita controle de saúde em tempo real, mas médicos fazem ressalvas

por marcel_gugoni — publicado 26/09/2012 17h28, última modificação 26/09/2012 17h28
São Paulo – Previsões mostram que, entre 2013 e 2017, investimentos em mobilidade na área de saúde saltarão de US$ 4,5 bi para US$ 23 bi.
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O Brasil tem quase 260 milhões de celulares e o número não para de crescer. O aparelho, que é onipresente no dia a dia da maior parte da população, pode ser uma importante alternativa para o controle da saúde em tempo real. Aplicativos são a próxima fronteira do atendimento médico na novidade chamada de mobile health ou mHealth.

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O médico Carlos Suslik, diretor da PwC na área de gestão de saúde, diz que o mHealth é uma forma de aumentar o ponto de contato entre o paciente e o médico, além de permitir maior integração e controle de prontuários. “O paciente passa a ser parte de um sistema, e não mais uma parte isolada, e com isso é possível fazer com que as informações [de seu histórico médico] sejam mais fidedignas.”

O especialista participou na última terça-feira (25/09) do comitê aberto de Saúde da Amcham-São Paulo, que debateu o tema da mobilidade no setor. Segundo levantamento da PwC, as perspectivas de investimentos em mobilidade na área de saúde são de forte crescimento. Entre 2013 e 2017, os gastos para manter serviços de tecnologia móvel e desenvolver inovações devem passar de US$ 4,5 bilhões para US$ 23 bilhões.

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A onipresença e o autocuidado são termos usados para expressar o que pode mudar com a disseminação do uso do celular para o controle da saúde. “Para o paciente, a principal mudança é ele passar a achar que é o responsável pela própria saúde. E o papel dos devices é estarem sempre junto e serem amigáveis ao uso.”

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Para Suslik, os aplicativos de saúde ajudam a manter mais pontos de contato do paciente com o sistema, já que antes só havia um momento de encontro, normalmente o dia da consulta.

Acompanhamento contínuo

No Brasil, em torno de 30% da população sofrem com doenças crônicas, segundo dados do Ministério da Saúde e da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS). Na lista, entram desde pacientes com problemas de diabetes e hipertensão até casos de câncer.

Segundo o médico, que é especialista em gestão da saúde, “o gerenciamento de doenças crônicas deve ser um sistema coordenado de intervenções e comunicações que busca aumentar o envolvimento do paciente no auto-cuidado”.

Estar mais perto do paciente é uma saída para melhorar esse contato, promovendo a educação em saúde e a mudança de comportamento e estilo de vida dos pacientes, principalmente. “Para um hipertenso, é possível que o sistema passe a informá-lo mais sobre a importância da atividade física e da nutrição adequada para evitar problemas”, explica.

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“Em todos os casos de doenças, há uma infinidade imensa de interações. Mas o gerenciamento não pode ser um substituto de consultas médicas, e sim complementá-las.”

Katia Galvane Luiz, gerente da divisão de negócios e-Health da Telefônica Vivo, salienta que nenhum aplicativo deve substituir a relação médico-paciente, apenas complementá-la. “Ter uma gestão remota dos pacientes não significa substituir o médico porque nenhuma máquina substitui o contato. A questão é promover o uso efetivo das telecomunicações para fazer a informação chegar rapidamente ao médico.”

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Para a cadeia de saúde, principalmente para o médico, a alternativa visa a dar um volume maior de dados sobre o paciente a partir de um registro médico eletrônico acessível em qualquer unidade de saúde, com informações dos dados biomédicos do paciente, seu histórico de utilização de medicamentos, dados clínicos como sintomas e o histórico de evolução.

App inteligente

Um dos exemplos que ditam a tendência dos apps na área de saúde é o WellDoc Diabetes Manager, aplicativo de controle de diabetes disponível tanto para smartphones da Apple quanto com sistema operacional Android, do Google.

O paciente pode inserir dados sobre o que acabou de comer, o horário em que dormiu e remédios que tomou. A partir disso, o programa alerta sobre níveis de baixa glicose no sangue e recomendações de alimentos mais saudáveis.

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Para Katia, programas como esse ajudam a encurtar a distância do atendimento de saúde e reduzir as filas de espera. A Telefônica Vivo vem desenvolvendo serviços de teleatendimento e teleconsulta sob medida para redes de hospitais e planos de saúde. “O resultado foi uma queda no absenteísmo [consultas marcadas para as quais os pacientes faltaram] nos hospitais e um melhor encaminhamento das demandas.”

Suslik concorda que não só apps, mas também as mensagens via SMS, vêm para ajudar a incentivar os pacientes a melhorarem seu estilo de vida. “Qualquer app voltado para a saúde precisa ser inteligente e engajar com foco em resultados”, diz Suslik.

Uma pesquisa da PwC feita neste ano mostrou que 46% dos usuários indicam maior conforto e conveniência no serviço de saúde com a ampliação das plataformas de mHealth. Em torno de 40% dos médicos encorajam seus pacientes a monitorar a própria saúde.

Preocupações

Ainda que os benefícios dos apps sejam muitos, o uso ainda é motivo de preocupação: 44% dos médicos se dizem preocupados com o fato de o mHealth dar muita independência ao paciente. Os médicos tanto temem perder o controle sobre o que o paciente faz em termos de tratamento quanto diminuir suas consultas, o que afeta o salário.

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A segurança surge como outro problema. Com sistemas integrados e disponíveis em nuvem, históricos médicos e prontuários ficam muito mais sujeitos a vazamentos de dados e mau uso das informações na internet.

“O que chama a atenção nas pesquisas é que existe uma certa resistência ao mobile health, o que é normal porque é uma plataforma nova e existe uma grande avenida para desenvolver melhor esses aplicativos”, diz o consultor da PwC. “No começo, qualquer aplicativo ainda é de difícil interação. Mas, cada vez mais, eles se tornam amigáveis aos usuários e aos profissionais de saúde.”

Os especialistas, contudo, são unânimes em dizer que o segmento só tende a crescer. “No Brasil, a adoção é inevitável e há interesse de operadores, médicos e usuários”, conclui Suslik. “Hoje qualquer telefone faz muito mais e tem muito mais recursos do que os computadores do passado. Nada mais lógico do que aproveitar esses múltiplos recursos que temos para a saúde.”

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