Autoprodução de energia eleva competitividade da indústria nacional, defendem empresas e entidades

publicado 20/02/2014 12h17, última modificação 20/02/2014 12h17
São Paulo – Regulamentação adequada e incentivos podem impulsionar empreendimentos
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De toda a energia elétrica consumida no ano retrasado, 12,5% saíram de unidades geradoras mantidas por empresas para seu próprio uso. A atividade tem papel de vantagem ao setor produtivo nacional, segundo companhias e entidades especializadas.

“O investimento em autoprodução é importante fator de competitividade da economia nacional”, afirma Claudia Piunti, diretora de Energia da Gerdau, que investe na autoprodução.

Ela participou do comitê aberto de Energia da Amcham – São Paulo na terça-feira (18/02), ao lado de Charles Lenzi, presidente da ABRAGEL (Associação Brasileira de Geração de Energia Limpa) e Suani Coelho, coordenadora do CENBI/USP (Centro Nacional de referência em Biomassa do Instituto de Energia e Ambiente da Universidade de São Paulo).

Vantagens

Dados citados pela executiva mostram que, no mercado cativo, em que a energia é comprada de concessionária sem a possibilidade de negociar preço, sujeito às tarifas, é de R$ 195,8/MWh. O valor fica entre R$ 147,5/MWh e R$ 171,2/MWh, no mercado livre, em que o consumidor negocia preço, prazo e indexação. Já na autoprodução, o MWh sai a R$ 136,6.

“Consegue-se travamento de custos, garantia de suprimento, contratação de longo prazo e mais eficiência, com o domínio sobre o insumo”, destaca.

Desafios

Ela ressalta outras vantagens, como expansão da oferta via investimento privado; planejamento energético de longo prazo; melhoria das condições operativas do sistema; geração de emprego e renda; eficiência energética; responsabilidade socioambiental e, por consequência, competitividade para a indústria.

No entanto, ainda há desafios para autoprodução no Brasil, sobretudo na regulamentação e nos incentivos, diz Claudia. “Como autoprodutores não comercializam energia, a indústria que investe em geração própria acabou privada dos incentivos oferecidos ao desenvolvimento das fontes alternativas”, explica.

“Como essa política é para fonte e não para investidores, a medida é discriminatória e prejudicial à competitividade da indústria”, complementa.

Pequenas hidrelétricas

As PCHs (pequenas centrais hidrelétricas) são uma das modalidades mais tradicionais de autoprodução de energia. Os 462 empreendimentos em operação representam 3,65% da capacidade instalada da matriz nacional, com 4.570 MW.

Estudos da EPE (Empresa de Pesquisa Energética) apontam para o crescimento de 56% nesses números, até 2022. Porém, outras fontes, como biomassa e eólica, devem crescer 74% e 1.000%.

“O potencial eólico é muito maior, mas uma fonte não deve crescer em detrimento da outra, até porque o sucesso ocorre porque elas se complementam. Há fase em que os ventos param”, expõe Charles Lenzi, da ABRAGEL.

“A vantagem sobre outras fontes é que as PCHs são distribuídas próximo aos centros de carga, o que significa menos custos de transmissão e menor custo global. As unidades empregam mais: 40 vagas a cada MW”, acrescenta.

O problema é que o ciclo burocrático para uma PCH entrar em operação consome, em média, 10 anos, desde a identificação do trecho do rio até a autorização final. “Estamos tentando simplificar o tempo desse ciclo de desenvolvimento junto aos órgãos competentes. É um prazo incompatível com a necessidade do país para suportar o crescimento vegetativo de consumo”, declara.

Biomassa

A geração de energia por meio de biomassa é outra significativa modalidade de autoprodução no Brasil, principalmente a partir do bagaço da cana, subproduto tradicionais usinas de cana de açúcar e álcool.

“A biomassa é particularmente importante porque o sistema é interligado e precisa de fontes complementares. O período da safra, de abril a outubro, é quando há queda de chuvas no país e a incidência de ventos está se recuperando”, diz Suani Coelho, coordenadora do CENBIO/USP, fazendo referência às hidrelétricas e eólicas.

Com 370 unidades de geração, o bagaço da cana respondeu, em 2012, por 11,2% do consumo energético, no país, segundo a EPE. Atualmente, há mais cinco unidades em construção e outras 30 em outorga. A previsão do plano nacional de energia (PNE) é de que a produção, que foi de 4,5 GW em 2010, passe a 22,3 GW em 2030, representando XX% da matriz nacional.

“Mas ainda estamos abaixo do potencial de energia que pode ser ofertada como excedente”, alerta.

Segundo a professora, um dos problemas do setor é o preço da tarifa adotado pelo Ministério de Minas e Energia, considerado baixo pelos produtores. “A energia eólica tem incentivos que as outras fontes não têm. Então, se discute fazer leilões separados para que a oferta de uma fonte não suplante a outra”, comenta. “O ideal é que haja equidade de incentivos”, defende.

Suani diz que já houve críticas à fonte porque que as unidades de biomassa apresentam baixa capacidade instalada, em comparação a grandes hidrelétricas – cerca de 20 MW, enquanto Itaipu pode gerar 14 mil MW. “Mas são várias pequenas usinas. Se houver um problema no sistema, como um apagão, o país perde bem menos no todo”, conclui.

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