Baixa poupança interna deixa investimentos brasileiros dependentes do exterior

por marcel_gugoni — publicado 24/04/2012 19h56, última modificação 24/04/2012 19h56
André Inohara e Marcel Gugoni
São Paulo – Economista diz que País precisa se acostumar à entrada de capital estrangeiro e importações e buscar saídas em termos de competitividade e melhores acordos comerciais.
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A capacidade de criar um produto, serviço ou processo inovador é o principal impulso competitivo de uma empresa – e de uma economia como um todo. Mas a pesquisa e o desenvolvimento requerem vultosos investimentos em tempo e dinheiro. O Brasil, porque conta com uma pequena fonte de poupança interna, fica muito dependente do fluxo de investimentos estrangeiros.

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A avaliação do economista do Itaú Unibanco Guilherme da Nóbrega aponta para um futuro com grande fluxo de capitais do exterior e déficit em conta-corrente, direcionados maciçamente a investimentos em produção e ganhos de escala internamente. Ele participou nesta terça-feira (24/04) do “Seminário Oportunidades nas Relações Comerciais do Brasil frente à nova configuração dos blocos econômicos mundiais”, realizado pela Amcham-São Paulo.

O País deve aprender a conviver neste novo mundo no qual as grandes entradas de moeda externa valorizam o real e diminuem a competitividade das empresas brasileiras, que não conseguem oferecer seus produtos a preços baixos no exterior. “O Brasil mudou muito, é um universo de oportunidades de investimentos que é real, concreto, que vai acontecer”, disse. Entre as alternativas debatidas para essa “convivência”, há desde a melhora da competitividade até a melhoria de acordos comerciais diretos.

“Nosso ritmo de crescimento daqui para a frente vai depender do quanto estamos dispostos a aceitar de complemento de poupança externa em investimentos e o quanto estamos dispostos a aceitar de apreciação do câmbio em decorrência deste movimento.”

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A poupança externa é, atualmente, o principal complemento dos investimentos feitos no País. “Durante alguns anos, teremos déficit em conta-corrente”, afirma Nóbrega. “Isso significa que haverá uma taxa de câmbio que permita trazer mais [bens e produtos] de fora do que mandar, para consumirmos mais do que produzimos e investirmos mais do que pouparmos.”

Mais importação

“O que acontece no final com a taxa de câmbio é expressão dessa realidade: a de um país que cresce importando cada vez mais.”

O ministro Paulo Estivallet de Mesquita, diretor do Departamento Econômico do Ministério das Relações Exteriores, que participou do debate, reconhece o efeito do câmbio sobre a balança comercial brasileira. “De 2007 a 2010, as importações aumentaram na casa dos 90%”, afirmou. “A crise mundial de 2008 e políticas adotadas [pelos países ricos para sair dela] provocaram depreciação significativa do dólar e do euro em relação ao real.”

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“A retração do consumo nos países ricos levou ao redirecionamento da produção para o mercado consumidor do Brasil”, explica ele. 

Miguel Jorge, ex-ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior e consultor internacional de comércio exterior, afirma que há, em resposta a um movimento, um “ativismo estatal” como não se viu durante vários anos – e este movimento ampliou-se recentemente. Em outras palavras, há uma proteção maior a alguns setores da economia.

Política comercial

Mesquita indicou as justificativas para a política comercial brasileira relacionada à importação de manufaturados. Segundo ele, o governo tem atualmente optado por medidas de cunho protecionista para enfrentar os “tempos extraordinários”, de grande alteração dos fundamentos econômicos e de políticas anticíclicas nas economias desenvolvidas e em desenvolvimento.

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“Com o problema cambial que, em parte, é gerado por outros países, é melhor buscar medidas de atenuação do que deixar que setores de grande potencial no longo prazo desapareçam no curto prazo por conta do choque de competitividade”, ressalta. “Temos uma balança comercial de dar inveja a muitos graças a nossa autossuficiência de petróleo e alimentos, então não podemos deixar que o risco dessa situação transitória leve a um efeito permanente no setor produtivo brasileiro.”

O ministro diz que o aumento nas exportações de commodities, principalmente as agrícolas, suporta a importação de manufaturados. “Há duas críticas que se fazem à política comercial hoje: uns querem mais abertura de mercados, enquanto outros falam que o governo não protege o mercado doméstico. Em qualquer jornal se leem essas duas correntes, que refletem objetivos simultâneos que não são necessariamente paralelos ou compatíveis.”

“Desde 2000, nosso comércio exterior tem crescido a uma taxa de 16% ao ano. O Brasil aumentou sua participação no comércio internacional de 0,8% para 1,35%. Ainda é pequena a fatia, mas o aumento é de quase 50%.”

De acordo com Mesquita, o mundo hoje está menos disposto a negociar vantagens comerciais sobre alimentos do que sobre manufaturados. “É difícil aceitar um acordo em que nossos produtos principais sejam excluídos”, destaca. “Há duas maneiras de negociar em comércio: dando prioridade à abertura de mercados externos e oferecendo o que os [parceiros] querem, ou buscando maior atenção às prioridades domésticas tentando obter alguma contrapartida. Países menores dão prioridade à abertura de mercados externos e os maiores, às prioridades domésticas.”

Livre-comércio

Tratados de livre-comércio podem se apresentar como alternativa para fluxos diretos entre duas economias – e fornecer uma saída “ganha-ganha” em um contexto de crise onde há muito “perde-perde”. O embaixador da Coreia do Sul no Brasil, Kyonglim Choi, que também falou durante o seminário, apontou que mais da metade dos acordos comerciais do mundo são feitos, atualmente, considerando livre-comércio.

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Até maio de 2011, dados da Organização Mundial do Comércio apontavam para a existência de 297 tratados do tipo, os chamados FTAs (free-trade agreement). Antes de 1995, eram 91. Mas isso não significa desintegração, diz o embaixador. “O movimento em torno da integração não parece que vai diminuir. E as falhas em torno dos grandes acordos comerciais, como é o caso da Rodada Doha, só vai intensificar esse movimento.”

Mesquita mostrou que essa pode ser uma importante saída ao comércio exterior brasileiro para manter negócios competitivos entre seus maiores parceiros – incluindo os Estados Unidos, a China, e países da Europa, como a Alemanha. “Atualmente, 20% das exportações do Brasil são cobertas por acordos de livre-comércio. Entre 40% e 45% das manufaturas são exportadas graças a esses acordos e outros 10% se beneficiam de outras preferências comerciais.”

Para William Popp, cônsul em exercício dos EUA em São Paulo, o melhor exemplo desses negócios é a parceria que está sendo retomada entre Brasil e EUA. “Temos uma relação comercial muito diversa, complementar e marcada por valor agregado. Não temos só parceria entre empresas, mas algo crescente também entre os governos”, afirma. “É um trabalho bilateral que visa a um impacto global.”

Nóbrega, do Itaú Unibanco, conclui que o Brasil mudou muito e é um dos motores de “um mundo que cresce puxado pelos mercados emergentes”. “Quando a crise de 2008 começou, muitos tinham a certeza de que, se as economias desenvolvidas não caminhassem, nós também não caminharíamos. Essa era uma percepção geral, mas hoje temos que duvidar disso. O mundo hoje se interessa pelo que o Brasil produz.”

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