Brasil e EUA têm potencial para liderar mercado de energias renováveis

por marcel_gugoni — publicado 22/03/2012 21h08, última modificação 22/03/2012 21h08
Marcel Gugoni e André Inohara
São Paulo - Dois maiores produtores de alimentos e de etanol do mundo têm agenda estratégica para se unir e elevar o nível da produção global.
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Brasil e Estados Unidos são líderes globais na produção de etanol e estão em níveis bastante próximos nas pesquisas de alternativas energéticas verdes. A tarefa essencial é avançar os acordos comerciais para serem parceiros estratégicos e líderes nesta área – e não concorrentes. Gabriel Rico, CEO da Amcham, diz que “Brasil e EUA têm tecnologias avançadas em diferentes culturas que são comercialmente importantes para ambos.”

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O assunto foi um dos temas debatidos em entrevista coletiva após a cerimônia de Posse do Conselho de Administração 2012 da Amcham, realizado nesta quinta-feira (22/03), na Amcham-São Paulo. Participaram também do encontro Myron Brilliant, vice-presidente de Assuntos Internacionais da U.S. Chamber of Commerce, e José Augusto Fernandes, diretor de estratégia da CNI (Confederação Nacional da Indústria).

Além de cooperação energética, considerado um tema estratégico das relações entre os dois países, o debate ainda falou sobre o potencial de produção de alimentos no mundo e os caminhos da produção de petróleo e o espaço do Brasil com a descoberta do pré-sal.


Confira os principais trechos da entrevista coletiva:

Quais as maiores oportunidades na área de energia?

José Augusto Fernandes: No campo de energia, temos duas áreas de grande interesse. Uma é de petróleo e gás. Atualmente, várias empresas americanas já operam no Brasil por meio de parcerias com a Petrobras ou como prestadoras de serviços. O País tem desenvolvido centros de pesquisa com bastante foco na área de petróleo e gás que estão ganhando escala global. A segunda área importante de cooperação é a área do etanol. O Brasil e os EUA são os grandes produtores mundiais de etanol. E há um interesse estratégico de que ambos transformem o etanol em uma commodity global à semelhança do petróleo – sem taxações ou barreiras artificiais. Tivemos neste ano uma evolução muito importante que foi a eliminação na tarifa nos EUA. Foi um avanço importante que cria um novo cenário para essa indústria no Brasil. E temos diálogos entre os dois países para uniformizar padrões técnicos do etanol. Há várias oportunidades associadas a pesquisas de segunda geração nessa área, em que a parceria entre o Brasil e EUA será muito importante.

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Gabriel Rico: Há também uma grande oportunidade de desenvolvimento de combustível para aviação baseado em etanol. Há interesse tanto de empresas brasileiras como americanas, da fabricante de aviões Embraer à fabricante de turbinas GE. Elas estão bastante envolvidas neste projeto. Quando falamos de cooperação de energia, é muito importante lembrar que os investimentos feitos no Brasil não são feitos tanto pelo governo, mas pelas empresas americanas que atuam aqui. Por isso esse encontro da presidente Dilma é tão importante. Ela tem a chance de mostrar os avanços do ambiente de competitividade no Brasil, ajudando a criar um clima mais favorável para que esses investimentos venham.

Myron Brilliant: A colaboração energética entre empresas da área de petróleo e gás é importante e ajuda a elevar o nível de qualidade [da produção]. Mas há outros setores com grande oportunidade de crescimento, como cooperação em energia nuclear e energia solar. Há um foco interessante no Brasil sobre o etanol. E isso também é importante, porque os benefícios diretos e indiretos para os EUA são enormes com a cooperação, porque falar em etanol não é só falar em grandes empresas, mas em pequenos produtores e pesquisadores de novas tecnologias.


O Brasil tem potencial para assumir posição de destaque na produção de petróleo?

Gabriel Rico: O presidente Obama, em 2011, deixou muito claro o interesse estratégico dos EUA em comprar petróleo do Brasil, em ser cliente do Brasil no longo prazo, considerando o potencial de desenvolvimento do pré-sal. É evidente que o Brasil tem condições políticas mais amenas [do que a Venezuela ou grandes produtores do Oriente Médio]. Aí sim eu vejo uma relação se tornando cada vez mais estratégica se o Brasil se tornar um grande fornecedor de petróleo. Mas há um tema de maior importância, que também foi debatido no seminário, que é o desenvolvimento de energias renováveis. Brasil e EUA estão praticamente em igualdade de condições tecnológicas. O Brasil já é bastante forte na questão da energia solar. Há em Fortaleza uma usina do grupo EBX, com equipamentos da GE, que é um investimento importante e mostra uma grande interação entre os dois países na energia solar. Há um campo de cooperação estratégica muito grande que o petróleo pode coroar. Isso porque ainda não conseguimos explorar [comercialmente] o petróleo do pré-sal.

José Augusto Fernandes: O fato de o Brasil ter capacidade de aumentar a oferta de petróleo e gás, em si, já gera um efeito global e torna países consumidores menos dependentes de países [produtores de petróleo] com problemas internos. Haverá um efeito indireto para os EUA. O comércio de petróleo Brasil-EUA se dá, hoje, entre empresas, não entre governos. É diferente, por exemplo, de um acordo com a China, que depende do governo. A própria descoberta do shale gas [gás de xisto, retirado de formações geológicas de baixa permeabilidade a grandes profundidades] nos EUA reduziu dramaticamente o preço do gás. O preço do gás nos EUA hoje é de quase US$ 4, enquanto no Brasil é cerca de US$ 17. Temos a expectativa de que com a descoberta de shale gas no Brasil, na Bacia do São Francisco, a gente possa alcanças os preços americanos.

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Myron Brilliant: Em uma reunião com diretores do FMI em Washington, discutimos alguns pontos-chave que vão determinar o crescimento da economia mundial. Um deles é a situação da Europa. O segundo é o risco político de algumas áreas do globo. O terceiro são os choques do petróleo. Há descobertas de petróleo no Brasil que devem contribuir com um aumento nas reservas mundiais, e isso dá uma segurança para a economia global. Nos EUA, as alianças comerciais sobre o petróleo com alguns países do Oriente Médio não são tão boas quanto algumas pessoas imaginam. Importamos muito petróleo da Arábia Saudita, mas diversificamos nossas fontes, preferindo trazer mais petróleo do Canadá, do México, da Venezuela e até mesmo dos EUA. Enquanto os preços do gás aumentaram nos EUA, alguns perguntaram por que ainda não havíamos adotado uma política energética mais racional. Então em vez de dizer como o Brasil deveria fazer [com sua matriz energética], tínhamos que fazer algo dentro de casa para mudar a própria política energética dos EUA. Creio que ainda há muito espaço para avançarmos neste sentido.

 

Qual é o espaço que o etanol brasileiro tem nos EUA?

Gabriel Rico: Caminhamos um bom tempo em um diálogo com os EUA para eliminar os subsídios ao etanol, o que foi da maior importância. Mas depois que os subsídios terminaram, passamos a importar etanol dos EUA. O essencial é que Brasil e EUA trabalhem juntos para desenvolver o etanol como uma commodity. De toda a gasolina consumida no Brasil, é sempre adicionado 25% de etanol. Em uma conta simples, se o Japão adicionasse 10% de etanol à sua gasolina, teríamos que produzir pelo menos o dobro do etanol que produzimos hoje para suprir o mercado japonês. Imagine se o mundo passasse a adicionar 10% de etanol à gasolina. É claro que seria bom para o ambiente porque é um combustível limpo, mas mais do que isso, mostra o potencial que os dois países têm nas mãos.

José Augusto Fernandes: As novas áreas de expansão do etanol no Brasil exigem grandes investimentos em logística apropriada para os dutos de transporte desse produto até os portos. É uma escala de investimento mais elevada, que exige um parceiro mais robusto em termos de capital. Da mesma forma que no passado, quando olhávamos para a barreira do etanol nos EUA, achávamos que era algo impossível, olhar para o Japão do exemplo que o Gabriel deu é pensar que em algum momento essa barreira vai ser rompida.

Gabriel Rico: Foi importantíssimo esse trabalho de acabar com a barreira para o etanol entrar nos EUA. Não pela questão do etanol em si, mas pelo fim da eliminação de todos os subsídios agrícolas. Brasil e EUA são os dois maiores produtores de alimentos do mundo e não podem ter pequenas disputas por mercados que significam muito pouco. Ao longo das próximas décadas se projeta um crescimento mundial da produção de 30%, mas o consumo vai crescer mais de 70%. Alguns falam que pode até em dobrar em três décadas, principalmente por causa do aumento do poder aquisitivo de China e Índia. Brasil e EUA são os dois maiores celeiros mundiais. A cooperação entre eles, nesta área em que ambos têm uma tecnologia avançada em diferentes culturas, é comercialmente importante para ambos.

Myron Brilliant: Há um claro e correto esforço focado em cooperação energética. Acho que derrubar os subsídios ao etanol ajudou a tirar essas rusgas e direcionar melhor a relação comercial para óbvias oportunidades de cooperação em produção de alimentos. Tentamos sempre direcionar esses esforços e estamos conseguindo fazer isso, eliminando outros subsídios de áreas importantes, mas o governo brasileiro também tem a obrigação de reconhecer que os esforços têm que ser feitos em uma via de mão dupla. No caso do Brasil, adoraríamos ver avanços em áreas como legislação, tributação, informação de comércio e transparência; queremos ver o governo trabalhar com o setor privado para avançar em questões como essas. Há necessidades e obrigações dos dois lados.

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