Brasil é terreno fértil para fake news, segundo especialista em checagem de notícias

publicado 11/10/2018 16h36, última modificação 17/10/2018 16h01
São Paulo – Webinar da Amcham discutiu o risco que notícias falsas trazem para eleições e reputação de empresas
Brasil é terreno fértil para fake news, segundo especialista em checagem de notícias

A Agência Lupa, especialista em checagem de fatos, contabilizou que, de agosto até agora, as dez notícias falsas mais populares tiveram mais de 865 mil compartilhamentos no Facebook. Clara Becker, jornalista da Lupa, conta que, das 20 notícias mais compartilhadas sobre corrupção, cinco eram falsas e cinco de fontes não confiáveis.

Para falar sobre o perigo das informações falsas e como se proteger disso, Becker e Alana Rizzo, do Albright Stonebridge Group, participaram de um Webinar da Amcham no dia 09/10. 

Brasil, um terreno fértil

Para Becker, o Brasil é um país propício para o compartilhamento de fake news. Uma em cada dez contas no WhatsApp são de brasileiros. No Facebook, são 127 milhões de contas ativas e somos o terceiro país que mais consome conteúdo jornalístico online. No caso do Facebook, uma parceria com a Lupa ajuda a identificar notícias falsas e alterar o algoritmo para reduzir a visibilidade.

O compartilhamento de notícias falsas teve um impacto enorme nas eleições dos Estados Unidos em 2016, conforme lembra Becker. Mark Zuckerberg, CEO da empresa, teve que ir a corte se explicar quando uma consultoria política usou dados de milhões de usuários da rede para fins eleitorais, com o objetivo de espalhar mentiras e influenciar nos resultados do pleito. Veio daí a preocupação em formar alianças com empresas que fazem checagem de fatos.

Como identificar notícias falsas? Clara Becker dá algumas dicas.

O Twitter também tem iniciativas de derrubar contas controladas por robôs, mecanizam o compartilhamento de links com notícias falsas e ampliam o seu alcance. O problema é que, no caso do WhatsApp, não há o que fazer: a mensagem é criptografada, ou seja, não é possível tomar qualquer medida para combater a disseminação das falsas informações. “Temos estudos que apontam que, nas eleições brasileiras deste ano, o WhatsApp será o que foi o Facebook em 2016 nos EUA”, lamenta.

As redes sociais mostraram o tremendo impacto que podem causar em um pleito. Como Becker lembra, até então, os candidatos de partidos que tinham mais tempo de propaganda na televisão eram os que tinham mais chances de vencer. E, neste ano, Jair Bolsonaro teve 46% dos votos com apenas oito segundos de propaganda eleitoral. Suas redes sociais, mesmo antes de 2018, já tinham um alto engajamento e muitos seguidores.

Para Rizzo, com a infinidade de informações perdidas e sem fonte confiável, as pessoas tem dificuldade de filtrar o que é verdadeiro e o que não é. Para a especialista, nessas eleições, esse problema já teve um efeito enorme e continuará assim no segundo turno. “A eleição colocou em cheque a nossa responsabilidade de disseminar informações. A responsabilidade é de todo mundo: das empresas, das pessoas e de nós, pessoas físicas”, aponta.

Efeitos nas empresas

O perigo das fake news não se restringe à política: muitas empresas já tiveram grandes prejuízos por conta de falsas informações. A Ambev é um exemplo disso. A cervejaria foi acusada de triturar pombos e colocar na produção de cervejas, graças a um vídeo que circulou nas redes sociais. Depois, descobriram que esse vídeo era antigo e foi gravado na Rússia - ou seja, não tinha nenhuma relação com a empresa. A RedBull é outro caso: desde 2001, circularam boatos que a bebida continha sêmen de touro. Nas perguntas frequentes do site da organização, inclusive, eles desmentem esse boato. O problema é que esse tipo de informação acaba ficando no imaginário das pessoas, e é difícil de desconstruir - principalmente pela velocidade da disseminação das notícias falsas.

Ter um plano estratégico para lidar com esse tipo de crise é fundamental, justamente para dar uma resposta rápida. "O tempo de resposta é fundamental e o canal também, é preciso entrar no meio em que a notícia tá circulando. Tem que estar engajado com a sua comunidade. Se chegar tarde demais para falar alguma coisa, as pessoas não te respeitam mais. Não minimize nada na internet. Não temos controle das redes sociais", indica Rizzo.

Becker lembra: não é possível antecipar o que vai viralizar. Por isso, monitorar as redes sociais e acompanhar o que sai sobre sua empresa é fundamental. Se sentir que está crescendo rapidamente, o ideal é já se proteger. Ter respostas coerentes, transparentes e verdadeiras é essencial. "Se te acusaram de uma coisa, não pode responder “isso aqui não é fábrica minha”. Tem que ir atrás da origem do vídeo, da imagem, do texto. Não pode ser só a sua palavra contra a palavra de quem fez a acusação", alerta.

Assista o Webinar na íntegra no Amcham Connect.