Como buscar o topo sendo mulher e negra? As dicas de Rachel Maia aplicada a qualquer profissional

publicado 29/03/2018 14h42, última modificação 29/03/2018 15h46
São Paulo – Em webinar da Amcham, executiva comenta trajetória e saída da joalheria após oito anos como CEO

Rachel Maia é a história da superação. Estudante de escola pública, negra, mulher e criada na periferia, é executiva de sucesso no mercado de luxo – como costuma definir, um espaço geralmente "loiro, magro e de olhos azuis".

Passou quase 9 anos como CEO da Pandora e transformou uma startup de duas lojas em uma rede líder do segmento.  Antes disso, foi CFO da Tiffany & CO, trazendo a loja para o Brasil. Inspiração para muitas mulheres negras, Maia participou de um webinar promovido pela Amcham na última quarta-feira (28/03), para contar sobre sua trajetória e os próximos sonhos que quer conquistar.

O Webinar completo é exclusivo para associados, na plataforma Amcham Connect. Confira os principais destaques:

 

Conhecimento e conexões

Incentivada pelos pais a estudar e investir em conhecimento, com o primeiro emprego que conseguiu, pagou curso técnico contábil. Para aprender inglês, foi o mesmo processo: juntou recursos e investiu em cursos intensivos. Para ela, esse é um dos grandes diferenciais para o sucesso. “A busca por aprimoramento na educação - não descarto essa questão de parte está nos livros. Não ter preguiça de levantar mais cedo pra se preparar, ou ficar até de madrugada estudando algo que não é do seu domínio”, relata.

Essa característica foi diferencial em uma das transições mais importantes de sua carreira - a vaga de CFO da Tiffany, disputada com mais sete homens. A exigência de recrutar uma mulher foi o que fez Maia participar do processo de última hora. “Eu era um elefante branco no processo seletivo”, conta. Durante o processo, perguntaram o que estava acontecendo no mundo. Maia relata que, por estar sempre lendo e se informando, sabia responder a pergunta. “Eu sempre fui curiosa e li jornais eu sabia o que estava acontecendo no mundo eu soube responder a pergunta na hora certa porque eu busquei conhecimento, essa foi a virada. Conhecimento é poder para disputar as melhores vagas”, ressalta.

Outro diferencial para ter sucesso, afirma, é estar aberta a pessoas e ao networking. Começar a participar de rodas com outras mulheres, participar de rodas e mesas é essencial – Maia ressalta que quem é visto é lembrado, e por isso é importante se projetar dentro desses locais.

 

“A diversidade sou eu”

Mulheres negras são uma pequena minoria em cargos de presidência de empresa – aproximadamente 0,4%, o que mostra a grande desigualdade racial e de gênero no setor privado. Ser essa minoria – ou até mesmo a única presente da sala – é algo que Maia está acostumada. “Tem momentos que você se sente agredida por não ver seus iguais ali”, conta. Maia teve que aprender a ser mais forte, por ser questionada tanto por sua cor quanto por seu gênero.

“Você aprende a ser mais forte porque somos cobradas por sermos mulheres em altos cargos e, quando você é mulher e negra, o questionamento vem duas vezes. Mas quando você mostra com propriedade a que veio, as pessoas entendem porque você está ali”, comenta.

Por reconhecer que a abolição da escravidão acabou a relativamente pouco tempo, Maia reconhece que as pessoas ainda não estão acostumadas a ver pessoas negras em posições altas ou mesmo em ambientes geralmente dominados por pessoas brancas.

“Temos que educar as pessoas a terem respeito pela diversidade, e educação leva tempo. Algumas pessoas assimilam mais rápido que outras e já têm um olhar mais inclusivo. Para essas que demoram mais, tem que mostrar com respeito e seriedade que estamos ali porque merecemos estar. A sociedade ainda não está preparada 100% para incluir a diversidade no processo”, relata.

Dentro das organizações, de maneira geral, Maia percebe que em algumas camadas de cargo já é possível perceber um universo mais diverso – como na gerência, por exemplo -, mas no alto escalão ainda se vê como exceção. “Não quero ser a exceção”, diz. Reconhece, no entanto, que há mais discussão e aceitação sobre o assunto, principalmente quanto a camada LGBT.

Ela ressalta ainda que as empresas ainda estão tentando entender a questão complexa que envolve a diversidade e inclusão, mas que já existem diversas ferramentas prontas para ajudar nesse processo – como a ONU Mulheres. Nas grandes empresas, essas questões já são mais difundidas; no entanto, ela alerta quanto a necessidade de ampliar a discussão para as PMEs brasileiras também.

 

Maternidade e carreira

Rachel é também mãe solteira. Como precisa “pagar as contas”, como ela mesma coloca, grande parte do seu tempo é dedicado ao business – algo que esclarece a sua filha. Mas nem por isso a mulher deve se sentir culpada, relata: “O importante não é a quantidade de tempo, e sim qualidade – fazer lição, contar história, rezar todos os dias”, conta. “Existe um processo de culpar menos, nos culpamos muito por não equacionalizar o tempo como gostaríamos. Desde que você tenha essa consciência e não se cobre de maneira negativa, as coisas fluem. Mulher maravilha é só no filme”, ressalta.

 

Saída da Pandora

Durante o evento, Maia explicou que o fim da sua trajetória de oito anos na Pandora. “Eu encerrei um ciclo de oito anos na Pandora e essa batalha foi de oito anos e que eu escolhi, escolhi fazer uma marca, e também escolhi entender que o ciclo se encerra, ter clareza de um processo que você sabe que existe a necessidade de estar muito mais envolvido em outros processos. eu tenho que estar ligada a desafios, sou impulsionadas por eles, então preciso de novos desafios na minha vida. E minha aspiração continua a ser o topo”, relata.