Cresce número de expatriados no Brasil e companhias reavaliam políticas visando retenção

publicado 28/06/2011 16h03, última modificação 28/06/2011 16h03
Daniela Rocha
São Paulo - Segundo especialistas, as principais áreas que demandam profissionais estrangeiros são engenharia e tecnologia da informação.
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O número de profissionais estrangeiros trabalhando no Brasil, os chamados expatriados, está em expansão. Eles são demandados para suprir a falta de mão de obra em variadas áreas. Atualmente, as empresas  já disputam esses talentos e estão passando por uma revisão nas suas políticas de contratação e retenção. Essa visão é compartilhada por especialistas que participaram nesta terça-feira (28/06) do comitê de Viagens & Negócios da Amcham-São Paulo.

De acordo com levantamentos do Ministério do Trabalho, foram recebidos 56 mil estrangeiros para trabalhar no País em 2010 ante 42,9 mil no ano anterior. Diana Quintas, gerente sênior de Capital Humano da Ernst & Young Terco, afirma que as estatísticas do governo indicam que, mesmo no período de crise financeira global, não houve retração.

“Hoje, são necessários profissionais das áreas de tecnologia da informação e engenharia, principalmente devido aos eventos da Copa e das Olimpíadas e a projetos relacionados ao petróleo, entre outros. O grande desafio das empresas é baixar os custos com expatriação e, ao mesmo tempo, reter essas pessoas”, destacou Diana.

“Há uma tensão na gestão de expatriados. São dois pólos: enquanto as organizações buscam gerenciar custos, os profissionais de fora reivindicam mais benefícios, que por sua vez são subjetivos. A dificuldade é chegar ao meio termo”, acrescentou Ricardo Ferreira, presidente do comitê.

Nessa linha, o Brasil agrega uma certa vantagem de poder recrutar pessoas qualificadas de nações em turbulência econômica, enfatizou Regina Assumpção, sócia da Shagal, especializada no treinamento de expatriados “Por exemplo, trabalhamos com uma empresa que está trazendo 250 engenheiros da Itália e da Espanha. A crise lá significa menor custo na contratação aqui e, assim, ocorre o preenchimento das necessidades de mão de obra.”

No País, houve uma mudança no perfil dos expatriados. Há dez anos, o foco era em altos cargos. “Antes era comum expatriar CEOs, mas hoje as empresas trazem até estagiários de outros países. A expatriação ocorre em todos os níveis”, comentou Fabiana Kiste, coordenadora de Mobilidade Corporativa da McKinsey para América Latina. A consultoria, que conduziu 28 processos de expatriação em 2009, teve esse volume superado somente no primeiro semestre desse ano.

A pujante economia brasileira continuará levando à ampliação da participação de profissionais estrangeiros. Se no passado eles eram considerados ‘concorrentes’ dos trabalhadores locais, hoje são vistos como elementos fundamentais para alavancar a competitividade do País. “Nossa aposta é no crescimento do fluxo de estrangeiros no Brasil, que conquistou muita visibilidade no cenário global. O País se destaca cada vez mais pela sua economia, pelos seus negócios”, considerou Alessandra Leite, diretora da Assistere Consultores e advogada especializada em tributação para expatriados.

Pesquisa

A Ernst & Young Terco realizou uma pesquisa em 2010, a Global Mobility Effectiveness Survey, com o objetivo de avaliar a eficiência das áreas de mobilidades corporativas. O levantamento junto a 250 companhias em diversos países desenvolvidos e em desenvolvimento, incluindo o Brasil, mostrou que, apesar de 81% das empresas terem planejado a diminuição dos custos com expatriação em 2009, apenas 57% reduziram os custos de fato após a crise financeira global; dessas, 74% conseguiram minimizar menos de 10%.

“Após a fase de contenção de custos, veio o período de reavaliação. No ano passado, 58% das empresas afirmaram ter revisado suas políticas nos últimos 12 meses”, destacou a gerente da consultoria Diana Quintas.
Conforme o mesmo estudo, 67% das organizações informaram que os pacotes de benefícios não atingiram as expectativas dos expatriados. Outro ponto abordado é que apenas 14% das companhias reportaram o envolvimento dos departamentos de Recursos Humanos na seleção dos candidatos, embora, na percepção de 64%, essa participação agregaria valor nas escolhas. “Quando o RH se envolve, há mais sucesso nas expatriações porque é uma área mais especializada na avaliação do que os gerentes de projetos.”

Práticas

A expatriação começa muito antes da entrada do profissional no País, com a definição da estratégia, ou seja, é preciso estudar as características da vaga, as competências necessárias para a função, a adequação dos custos e a efetiva viabilidade em termos legais, orientou Alessandra Leite, da Assistere. “É fundamental trabalhar na prevenção dos problemas”, disse.

Segundo a advogada, os processos de imigração podem se arrastar por até seis meses, e as organizações devem estar cientes disso, inclusive para a melhor programação das suas atividades, sem prejuízos, explicou.

No Brasil não existem normas específicas relacionadas ao trabalho dos expatriados, sendo que o que vale é a aplicação da CLT (Consolidação das Leis do Trabalho), e as multinacionais estrangeiras enfrentam dificuldades para compreendê-la devido à sua complexidade. Esse trabalho de esclarecimento, contudo, deve ser feito quando se trata de trazer profissionais ao Brasil para se evitar passivos trabalhistas, alertou Alessandra.

Outro aspecto relevante para o êxito nas expatriações é a integração do profissional estrangeiro com língua e cultura diferentes. “As empresas devem facilitar e acelerar esse processo”, ressaltou Regina Assumpção, sócia da Shagal.

 

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