Educação é principal caminho de engajamento entre empresas e sociedade

por marcel_gugoni — publicado 04/10/2012 17h34, última modificação 04/10/2012 17h34
São Paulo – Executivos de gestão de pessoas avaliam, em comitê da Amcham, que o setor privado tem papel essencial para a melhoria da qualificação de mão-de-obra.
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O apagão de mão de obra é um problema que ronda as empresas e fica cada vez mais claro que não é suficiente atribuir ao setor público todo o encaminhamento da questão. Para empresários e gestores de recursos humanos, as empresas são parte essencial dessa resolução, ao promover ações como qualificação profissional e formação de mão de obra por meio de institutos e fundações.

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Deli Matsuo, vice-presidente de Gestão e Pessoas do Grupo RBS, empresa de comunicação dona de rádios, jornais e televisões no Sul do Brasil, afirma que a educação e a formação passaram a ser “agenda prioritária” das companhias. “Precisamos nos mobilizar como sociedade e empresariado para empurrar essa agenda junto ao governo e aos legisladores mais rapidamente”, apontou.

Ele participou, nesta quinta-feira (05/10), do comitê estratégico de Gestão de Pessoas da Amcham-São Paulo, que debateu o tema da cidadania nas empresas e como o setor privado deve criar valor à sociedade de uma forma mais ampla. Também participaram do comitê executivos de recursos humanos e especialistas de gestão de pessoas de empresas como IBM, Nextel, Telefonica Vivo e Hospital Albert Einstein.

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“Esse assunto está muito relacionado com o papel do mundo empresarial na educação e no desenvolvimento da sociedade e como isso se conecta com o futuro desenvolvimento dos candidatos [a vagas corporativas]”, disse Matsuo, em entrevista ao site após o evento. “A educação é peça do desenvolvimento econômico do País e um dos fatores fundamentais é a conscientização da sociedade e do empresariado. É visível que empresas já estão sensibilizadas, investindo em suas próprias instituições e fundações. Mas é preciso empurrar os cidadãos.”

Formação básica

Mardely Vega, diretora de RH para a América Latina da IBM Brasil, defende que as empresas devem se envolver com o tema da cidadania corporativa. “O foco é em educação porque é fonte do pipeline [fonte de fornecimento de mão de obra] de nossas empresas. Nos demos conta de que as empresas estão enfatizando fortemente o apagão de talentos, mas só olham os que estudaram e têm formação”, diz.

Para ela, há muitos que não se formam e engrossam as estatísticas da baixa qualificação dos trabalhadores brasileiros. “Quantas pessoas estudam, quantas desistem, quantas são realmente alfabetizadas?”, questiona. “É por isso que as empresas têm que entender que o foco de investimento privado tem quer ser em educação de forma geral.”

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Números do Censo 2010 mostram que 1/3 dos alunos que deveriam estar no Ensino Médio estão no Ensino Fundamental e apenas em torno de 50% concluem a Educação Básica (referentes a 12 anos de estudo). Uma parte das cidades do Norte e do Nordeste tem analfabetismo acima de 20% entre jovens e adultos. Em 2009, o Brasil ocupou o 53º lugar entre os 65 países avaliados no Pisa – exame que avalia nível de leitura e de raciocínio lógico e matemático de adolescentes, feito pela OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico).

Mardely diz que cidadania corporativa “é como a corporação se engaja em problemas sociais. E as corporações, as que representamos aqui, estão vendo que educação deveria ser uma fonte de engajamento com a sociedade”. Para ela, investir em educação básica é necessário porque “ajuda a sociedade e também se reverte em ações positivas porque haverá mais talentos no País e essa guerra de talentos vai ser melhorada se você houver mais candidatos”.

Formação da cidadania

Por serem empregadoras de mão de obra e geradoras de riqueza, as empresas têm papel significativo no desenvolvimento da cidadania. “A responsabilidade das empresas é enorme pelo poder que têm”, disse Françoise Trapenard, presidente da Fundação Telefônica e ex-presidente do comitê estratégico de Gestão de Pessoas da Amcham-São Paulo.

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“Os recursos que as companhias movimentam, o capital humano dentro de sua atividade, o potencial de inovação e articulação política com o governo dá às empresas papel central na agenda de responsabilidade social”, argumenta Françoise.

A atuação do empresariado brasileiro no tema ainda é incipiente, mas Françoise acredita que ele será incorporado à cultura corporativa de forma gradativa. Para ela, há muito que aprender com as empresas americanas.

“Lá, as empresas vivem de forma engajada e atuante, atuando como responsáveis pela educação e financiando universidades. Elas também influenciam o governo participando de fóruns multissetoriais em temas relevantes de cidadania e responsabilidade social”, descreve.

Na prática

No comitê da Amcham, quatro empresas relataram algumas das ações de cidadania que estão realizando. O hospital Albert Einstein prioriza o recrutamento e a capacitação da mão de obra que mora em seu entorno ou em comunidades adjacentes.

O Instituto Nextel realiza um trabalho de formação de jovens para inclusão no mercado de trabalho. O programa capacita pessoas que não possuem capacitação mínima, o que as exclui automaticamente das oportunidades mais básicas de emprego.

Já a IBM possui um programa de voluntariado global. A empresa organiza grupos de funcionários para atuar durante um mês em ONGs (organizações não governamentais) de diversos países.

E a RBS usa seus canais de comunicação para veicular campanhas de mobilização da sociedade civil em prol da educação.

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