Empresas com controle difuso têm governança maior e mais capacidade de crescimento

por andre_inohara — publicado 04/08/2011 09h19, última modificação 04/08/2011 09h19
André Inohara
São Paulo – Quem diz é o presidente do conselho da Brasil Foods. Ele também comenta a nova política industrial e se mostra favorável à desoneração total da folha de pagamentos.

As empresas com controle difuso têm alto potencial de crescimento, devido à grande capacidade de captação de recursos e a estruturas fortes de governança corporativa.

Para Nildemar Secches, presidente do conselho de administração da Brasil Foods (BRF), companhias que possuem maior grau de dispersão acionária no bloco controlador precisam manter um relacionamento melhor entre todos os públicos-chave da corporação, sejam acionistas, clientes ou parceiros. Com isso, as práticas de transparência na gestão tendem a ser bastante rigorosas.

Para Secches, as perspectivas de crescimento de uma companhia com controle difuso acabam sendo maiores em função da maior capacidade de endividamento. As empresas de maior concentração acionária dependem muito dos recursos de seus controladores, argumenta Secches.

Veja abaixo a entrevista que Nildemar Secches concedeu ao site da Amcham, após participar do comitê estratégico de Governança Corporativa da Amcham-São Paulo na quarta-feira (03/08):

Amcham: Como é a atuação de um conselho de administração em uma empresa de controle difuso?
Nildemar Secches:
O conselho de administração de uma empresa de controle difuso precisa trabalhar muito a questão da cultura empresarial. Cabe ao conselho substituir a figura do fundador da empresa.
Essa cultura empresarial é bastante importante e exige alta dose de governança corporativa. É por meio de práticas de transparência organizacional que se definirá o relacionamento com todos os stakeholders (clientes, fornecedores, acionistas e mercado financeiro).

Amcham: Como devem ser as práticas de governança corporativa nessas empresas?
Nildemar Secches:
É preciso que haja um código de ética bem elaborado e aceito por todos, porque as relações corporativas deixam de ser pessoais – ligadas à figura do fundador – e se tornam muito mais organizacionais. Quanto ao plano estratégico, ele precisa ter foco no longo prazo. Isso é necessário porque se está substituindo a visão do fundador por uma política duradoura. É um documento que tem de ser aceito por todos e ficar ao lado da mesa de cada executivo e funcionário, como se tivesse sido escrito pelo dono da empresa. E a gestão de risco também necessita ser muito forte. Quando a empresa tem um dono, ele pode assumir os riscos que quiser, mas em uma organização de controle difuso deve existir tanto gestão como políticas de risco bem definidas. Tudo isso precisa ser feito com agilidade.

Amcham: Quais as diferenças entre uma empresa de controle difuso e outra com controle acionário concentrado?
Nildemar Secches:
A empresa de controle difuso não é nem melhor nem pior do que uma empresa de processo definido ou de um dono só. Ela é diferente na forma de organização e trabalho, mas isso não é um empecilho para a rentabilidade. A BRF proporcionou uma rentabilidade de 32% ao ano aos seus acionistas durante 16 anos consecutivos, mesmo considerando o período em que ela era formada apenas pela Perdigão (a Sadia foi incorporada em 2009). Uma empresa com controle difuso exige grau maior de governança corporativa, porque é através de estruturas bem formadas de gestão que a empresa se relaciona com os diversos acionistas. É isso o que faz a união e a confiança para esses investidores.

Amcham: Como deve evoluir a formação de empresas com controle difuso?
Nildemar Secches:
Cada vez mais as empresas terão de ir para o controle difuso por uma razão simples. Nas empresas com um único acionista controlador, seu crescimento fica vinculado ao tamanho dos recursos do dono. Quando o controle da empresa se torna difuso, seu crescimento é praticamente ilimitado em termos de capital. Muitas empresas como Renner, BRF, Ultra e Iochpe Maxion decidiram realizar essa operação para aumentar as possibilidades de crescimento.

Amcham: Como o sr. analisa as medidas de estímulo à competitividade da nova política industrial do governo brasileiro, a Brasil Maior?
Nildemar Secches:
O governo está trabalhando em várias frentes, em vez de se concentrar em medidas já determinadas. Vemos boas intenções do governo em fazer o que é correto, mas as medidas são de difícil implantação. A própria restituição dos impostos, objeto de medidas anteriores, é pouco praticada em função das dificuldades de regulamentação. Ela se torna pouco efetiva. Se pudesse fazer um só pedido em termos de política industrial, seria a desoneração da folha de pagamento. Nosso setor (bens de consumo), que é um grande contratante de mão de obra, ficou de fora (dos setores contemplados com a desoneração da folha de pagamento). Mas não posso avaliar os efeitos dessa medida sem todos os dados. Acho que a desoneração total da folha deveria ser trabalhada muito fortemente.

Amcham: E como o sr. analisa o cenário de concorrência em seu setor, o de alimentos?
Nildemar Secches:
A concorrência é mais um dado. A empresa precisa ser mais eficiente em relação aos seus concorrentes e ter estratégia bem definida. Nos últimos dezesseis anos, tivemos uma estratégia rígida, com ganho forte de produtividade que propiciou lucro bastante satisfatório aos nossos acionistas. Não achamos que o cenário competitivo será muito diferente daqui para a frente. Estamos fazendo a nossa parte. Temos um plano estratégico bem definido, pois a empresa sempre se preparou para isso de forma a manter um crescimento semelhante ao que tivemos no passado. Não mudaremos nossos planos.

 

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