Empresas e instituições de ensino têm que se integrar cada vez mais, recomenda ‘guru’ de gestão de pessoas

por marcel_gugoni — publicado 08/03/2012 09h18, última modificação 08/03/2012 09h18
Marcel Gugoni
São Paulo – Jonas Prising, da Manpower, participou de evento na Amcham e falou dos maiores desafios para se encontrar e formar talentos.
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Unir empresa e escola é essencial para uma economia que quer ser competitiva e formar talentos para seu mercado de trabalho. Na avaliação de Jonas Prising, vice-presidente das Américas da Manpower, consultoria especializada em Recursos Humanos, as empresas do mundo todo, não só do Brasil, sofrem para encontrar talentos. 

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Ele participou nesta quarta-feira (07/03) do comitê aberto de Gestão de Pessoas na Amcham-São Paulo, que debateu o tema “Fazer diferente no novo contexto do mundo do trabalho da ‘Era do Potencial Humano’”, e falou à reportagem do site da Amcham após o encontro. 

“O problema está na educação”, disse. “É importante ter metodologias que garantam o aprendizado mostrando para os estudantes que eles estão naquele curso para conseguir um emprego. É necessário que os jovens adquiram determinadas habilidades e que as escolas passem a formar estudantes que também já estejam prontos para o mercado de trabalho, e não que somente vão para a graduação.”

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E as empresas também precisam participar desse processo, destaca o especialista, que trabalha desde 1999 na Manpower. “As companhias devem deixar claro de quais profissionais precisam. Haverá cada vez mais colaboração entre as empresas e as faculdades e escolas.” 

Leia os principais trechos da entrevista com Jonas Prising: 

Amcham: O sr. cunhou o termo “Era do Potencial Humano” para definir um novo tipo de relação entre as pessoas no mundo corporativo. O que significa esta nova era?

Jonas Prising: O motivo pelo qual falamos de “Era do Potencial Humano” é mostrar como algumas forças globais como a disparidade social, o crescimento dos países emergentes, a desaceleração das economias desenvolvidas, o papel da tecnologia e a velocidades em que ela avança têm determinado a tendência mundial, seu desenvolvimento demográfico e a mudança da qualificação da mão de obra. Nada disso é novo, mas alguns são eventos mais recentes que os outros. O que ocorre hoje é que tudo isso agora acontece ao mesmo tempo. E quando essas forças se integram umas às outras, da forma como estamos vendo agora, significa que o espírito humano e a importância dos talentos estão sendo exigidos de forma urgente. No passado, como, por exemplo, durante a Revolução Industrial [século XIX], a inovação e o desenvolvimento de novos equipamentos eram a necessidade essencial para que a sociedade avançasse. Hoje, quando a tecnologia é o centro desses movimentos cruciais, o acesso às pessoas e à criatividade humana é necessário para nos levar adiante rumo a novas transformações. É isso o que eu chamo de “Era do Potencial Humano”. 

Amcham: O que o sr. enxerga como a nova fase dessa revolução?

Jonas Prising: Essa é uma nova realidade com vários aspectos. A tendência de crescimento dos mercados emergentes que temos visto vai continuar ocorrendo. Ao mesmo tempo, a natureza das economias desenvolvidas, com sua população e tamanhos bem distintos em relação aos emergentes, é desacelerar. E esse movimento também é inevitável. Vejo uma mudança global que é muito clara. Há países cuja população diminui ano a ano. Como isso afeta essas culturas e seu desenvolvimento econômico? Como podem continuar crescendo a não ser permitindo, por exemplo, a entrada de trabalhadores estrangeiros? Hoje, fala-se em imigração estratégica, mas isso é impossível, porque sabemos que, no geral, há países que preferem fechar suas fronteiras e dificultar a imigração. Temos pela frente todo um novo rumo sobre como crescer e isso passa por permitir a imigração. 

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Amcham: Qual o caminho para as empresas lidarem com essa incessante busca por talentos em um cenário em que o mercado de trabalho envelhece e muitos trabalhadores são pouco capacitados?

Jonas Prising: Há uma necessidade de atrair pessoas e mantê-las no mercado de trabalho. Mas essa não é só uma tarefa das empresas, mas de toda a sociedade. Em alguns países, há leis que ajudam a manter as mulheres nas empresas [em uma fase da vida em que elas poderiam sair para ter filhos e não voltar mais]. Sabemos que as mulheres querem trabalhar, mas se elas tiverem que pagar por uma babá, por exemplo, muitas vão preferir ficar em casa. Então há medidas que poderiam servir para que a participação das mulheres na força de trabalho seja mantida nas empresas. 

Amcham: Além das mulheres, vemos que grande parte dos desempregados nos países desenvolvidos são jovens, que poderiam ser mão de obra essencial para as empresas. Qual a implicação disso?

Jonas Prising: O desemprego neste grupo é altíssimo. Esse é um dos piores efeitos do atual ciclo econômico. Vemos que o desemprego de jovens em vários países do mundo está ainda maior do que quando a crise começou [em 2008]. Entendo que é necessário que os jovens adquiram determinadas habilidades e queiram ir além, não que fiquem satisfeitos só com o diploma. Além disso, as escolas precisam mudar para produzir estudantes que também já estejam prontos para o mercado de trabalho, e não que somente vão para a graduação. Nos Estados Unidos, por exemplo, os desafios não estão nas grandes universidades, mas nos sistemas primário e secundário [o equivalente aos ensinos fundamental e médio do Brasil]. Os abandonos da high school [o ensino médio] rondam a casa dos 30%. E as empresas também precisam participar desse processo e deixar claro de quais profissionais precisam. Haverá cada vez mais colaboração entre as empresas e as faculdades e escolas. Isto já acontece em vários lugares. Se olharmos para as taxas de desemprego dos jovens na Alemanha, na Áustria e na Suíça, veremos que as taxas são muito baixas. E isso porque a educação dos jovens é direcionada para o trabalho. No Brasil há metodologias bastante interessantes de inclusão, como o Senai [Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial], que garantem o aprendizado mostrando para os estudantes que eles estão naquele curso para conseguir um emprego. 

Amcham: Esse é um dos caminhos para melhorar todo o sistema educacional?

Jonas Prising: Sem dúvida. E, mais importante do que isso, é ter um sistema de educação básica eficiente, principalmente no ensino de ciências, tecnologia, engenharia, matemática, física. Quando eu olho para a educação básica dos Estados Unidos, vejo como isso causa uma mudança rapidamente. [Os alunos americanos] recuaram nos últimos 15 anos no desempenho em testes de conhecimentos básicos do topo para algo entre a 17ª e a 23ª posições entre as 65 nações que realizavam testes do tipo. Não que a educação básica dos EUA tenha, de fato, ficado pior, mas ela não melhorou nada. Enquanto isso, outros países melhoraram seu ensino primário e secundário. Em educação, o que era muito bom no passado, não é mais o limite hoje. E isso é o que precisa mudar na mentalidade educacional. Temos que sempre buscar mais e melhor qualificação. 

Amcham: A educação é, hoje, o ponto em que praticamente todos os países precisam melhorar?

Jonas Prising: A educação também demanda grande responsabilidade individual. Sem dúvida os governos e a sociedade têm de oferecer educação de qualidade até certo ponto, mas, como indivíduo, também tenho que ter a iniciativa de me qualificar e desenvolver minha carreira ao longo do tempo. Cada um tem que ser responsável pela própria instrução, enquanto as empresas, por sua vez, não podem abrir mão de oferecer treinamento e desenvolvimento para formar para si os melhores profissionais e mantê-los. Mesmo que elas não os mantenham por algum motivo, quem se instrui e se desenvolve não fica sem trabalho. Vejo, hoje em dia, que muitos profissionais altamente capacitados estão sempre indo de uma empresa a outra. Em primeiro lugar, eles fazem isso porque cada vez que mudam de emprego aumentam seu salário; depois, porque o que os atrai é a oportunidade de continuar se desenvolvendo nas novas empresas.

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