Lei trabalhista precisa ser otimizada para manter geração de empregos, diz presidente do IDV

por marcel_gugoni — publicado 11/10/2012 12h45, última modificação 11/10/2012 12h45
São Paulo – Para Fernando de Castro, varejo brasileiro é o setor que mais emprega mão de obra e poderia ampliar vagas se houvesse maior flexibilização para as contratações.
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O varejo é um setor intensivo em mão de obra, com atuação relacionada a vários outros segmentos da indústria e da agricultura. São mais de 9,5 milhões de pessoas empregadas em lojas, supermercados, shoppings e uma infinidade de estabelecimentos. “Mas ao mesmo tempo em que há um nível de pleno emprego, existe capacidade de otimização de mão de obra que não está sendo utilizada porque a lei impede”, afirma Fernando de Castro, presidente Instituto para Desenvolvimento do Varejo (IDV).

“O varejo tem crescido bastante, mas acredito que poderíamos crescer muito mais atacando alguns focos. Um deles é a modernização das leis de trabalho. O varejo é um grande prestador de serviços e um grande gerador de empregos”, defendeu em entrevista após participar da Business Round Up realizada pela Amcham-São Paulo nesta terça-feira (09/10). Para ele, a legislação é muito voltada à indústria e já não reflete as atuais relações e demandas das relações entre empresa e empregado. 

Leia a cobertura completa da Business Round Up

“Quando uma pessoa que se aposenta porque acha que o ciclo de trabalho integral dela se esgotou, não significa que ela não queira trabalhar em meio período, quatro horas por dia, com algo que lhe dê prazer. É o caso também de um estudante que esteja fazendo cursos e precise ocupar uma parte do seu dia para complementar a renda. A legislação impede esse trabalho porque está engessada.” 

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Castro diz que esse é um dos principais gargalos ao setor. E critica também a carga tributária, que exerce um peso duplo nos contribuintes – sobre a figura do trabalhador e a do consumidor. “O Brasil é um dos poucos países do mundo que tributam cesta básica, e isso tira o poder de compra do consumidor”, afirma. “A carga trabalhista também é um grande gargalo porque uma boa parte da renda, em torno de 25%, o governo retém, além de onerar o empregador com outros impostos.” 

Leia os principais trechos da entrevista com Fernando de Castro: 

Amcham: Quais são as previsões do IDV em relação ao crescimento do varejo para 2012 e 2013?

Fernando de Castro: Para este ano, estimamos um crescimento de 5,5% do varejo, enquanto o PIB ficará na ordem de 1,5% a 2%. Isso mostra que o varejo tem crescido sistematicamente acima do PIB, com certa correlação entre 3,5 a 4 pontos percentuais acima da taxa da economia. Já 2013 deve ser um ano bem melhor, com um crescimento do varejo na ordem de 7% a 7,5%, com um avanço de 3% a 4,5% do PIB brasileiro. Dentro deste crescimento, temos algumas grandes divisões: os segmentos de semiduráveis e os duráveis, entendidos como o material de construção, móveis e eletroeletrônicos de grande tamanho, devem crescer acima destas taxas. Nos últimos anos, o varejo de construção civil tem crescido na ordem de 10%, e o varejo de eletroeletrônicos tem avançado na ordem de 8,5%, com destaque para os setores de informática, com avanço de 30%, e os itens da linha branca, com 25%, graças às desonerações de IPI. 

Amcham: O Brasil vive um cenário de transformação no consumo. O que mudou, na sua opinião, nos últimos anos?

Fernando de Castro: A grande mudança que está ocorrendo no consumo brasileiro tem dois fenômenos. O primeiro é a incorporação de pessoas na população ativa. A geração de empregos no Brasil tem crescido na casa de 2 milhões [ao ano] nos últimos dois anos e deve crescer até 1,8 milhão [ao ano] em 2012 e 2013. O varejo tem uma contribuição importante neste crescimento: criamos entre 20% e 25% desses empregos formais. Hoje, o varejo representa 9,5 milhões de empregos, o que faz desse setor o maior empregador privado do Brasil. O segundo movimento, promovido tanto por reivindicações sindicais quanto por possibilidade de carreira, tem levado a um aumento da renda na ordem de 3,5%. Esses dois eventos criam um grande mercado de consumo. O varejo tem a visão de que esse consumidor novo é tanto um bom cliente como também um profissional que pode ser contratado. Nos últimos três anos, surgiram 6 milhões de novos consumidores, 2 milhões de empregos formais a cada ano e um salário médio mensal [dessa nova classe média] subindo para a casa de R$ 1.600. Veja o que isso faz em termos de massa de consumo. Hoje, em número de pessoas, temos 65% da população nas classes emergentes e na nova classe média – e ela representa cerca de metade do volume de consumo do País. 

Amcham: O que essas mudanças alteram no perfil de consumo do brasileiro?

Fernando de Castro: Muda muita coisa. Em primeiro lugar, há um fenômeno chamado “efeito de demonstração”, que é a imitação do consumo. O segundo movimento é a criação de produtos próprios, específicos para o gosto desses novos consumidores. Basta olhar os supermercados da periferia da cidade para notar que as marcas encontradas não têm nada a ver com as que encontramos nos centros. É um mix de produto específico. 

Amcham: Falando do futuro, quais os principais gargalos para as empresas do setor de varejo que precisam ser resolvidos?

Fernando de Castro: O varejo tem crescido bastante, mas acredito que poderíamos crescer muito mais atacando alguns focos. Um deles é a modernização das leis de trabalho. O varejo é um grande prestador de serviços e um grande gerador de empregos. A lei precisa ser otimizada porque ela é muito antiga e foi concebida, basicamente, para as indústrias. Ao mesmo tempo em que há um nível de pleno emprego, existe capacidade de otimização de mão de obra que não está sendo utilizada porque a lei impede. Por exemplo: quando uma pessoa que se aposenta porque acha que o ciclo de trabalho integral dela se esgotou, não significa que ela não queira trabalhar em meio período, quatro horas por dia, com algo que lhe dê prazer. O varejo é empregador desse tipo de pessoa. Mas a lei atual impede isso. É o caso também de um estudante que esteja fazendo cursos e precisa ocupar uma parte do seu dia para complementar a renda. A legislação impede esse trabalho porque está engessada. Um segundo gargalo importante, evidentemente, é a carga tributária. Não falo só em termos de impostos para as empresas, mas da que tira o poder de compra do consumidor. O Brasil é um dos poucos países do mundo que tributam cesta básica. Temos uma tributação de energia absurda. A carga trabalhista também é um grande gargalo porque uma boa parte da renda, em torno de 25%, o governo retém, além de onerar o empregador com outros impostos. 

Amcham: Dentro dos resultados da pesquisa apresentada no seminário Business Round Up, quais chamam sua atenção?

Fernando de Castro: Um deles é a coerência dos dados. Parece que há uma importante convergência dos empresários respondentes com a visão de Brasil. Isso é bom porque, se todos pensam igual, significa que todos vão trabalhar no mesmo sentido. O resultado que a pesquisa mostra é que há uma consciência de que a boa gestão interna dos controles [modelo de negócios, grau de competitividade, custos operacionais, approach de marketing] passa a ser importante diante dos fatores externos. Isso é um elemento extremamente importante e positivo. O Brasil é uma economia muito mais complexa e precisa ser gerido de forma cada vez mais apurada. As empresas enfrentam os mesmos problemas externos, então devem olhar para dentro em busca de melhores resultados. Adicionalmente, fazendo isso, é possível superar os limites desse cenário externo. 

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