Liberdade vs. controle social durante o coronavírus: o papel da ética segundo Pondé

publicado 05/05/2020 14h41, última modificação 05/05/2020 14h41
Brasil – Filósofo e escritor brasileiro acredita que o conhecimento a respeito das teorias éticas ajudaria líderes e sociedade a se posicionarem melhor diante da pandemia
“Ética não é autoajuda, não é motivacional e não é marketing, ela serve para pensar como fazer os seres humanos a agirem de forma menos narcisista, mais coletiva e menos violenta”, afirma Pondé.jpg

“Ética não é autoajuda, não é motivacional e não é marketing, ela serve para pensar como fazer os seres humanos a agirem de forma menos narcisista, mais coletiva e menos violenta”, afirma Pondé

“Ambientes como esse são laboratórios éticos”, afirma o filósofo e escritor brasileiro Luiz Felipe Pondé a respeito do coronavírus. Para ele, ao contrário do que vem sendo dito, grandes crises como essa estimulam vícios e não virtudes. Assim, é mais fácil entrar em um quadro de miséria e não de ética. “Ambientes de muita tensão de muita incerteza são os que geram exploração, pouca empatia e não geram coragem de forma muito fácil”, manifesta.

Segundo ele, entender as escolas de éticas e suas teorias ajudaria líderes e sociedade a tomarem decisões e se posicionarem da melhor forma diante da pandemia. “Ética não é autoajuda, não é motivacional e não é marketing, ela serve para pensar como fazer os seres humanos a agirem de forma menos narcisista, mais coletiva e menos violenta”, esclarece o especialista que esteve presente em nosso webinar ‘Liberdade vs. Controle social na pandemia’, no dia 30/04.

 

AS VIRTUDES

A primeira escola, a das virtudes, é a que discute caráter. Nela, o esforço ético serve para resistir a vícios opostos, como a covardia e a negação. “Na covardia, as pessoas se trancam em casa com medo e não saem de jeito nenhum até que se encontre uma vacina. Na negação, as pessoas desacreditam que exista, de fato, uma pandemia”, explica.

Assim, neste cenário, a ética é compreendida como um embate prático. Vale lembrar também que as virtudes tendem a ser tímidas justamente pelo fato de serem atitudes que não falam de si mesmas, mas sim serem reconhecidas por terceiros.

 

O UNIVERSAL

A segunda escola ética mencionada por ele entende esse princípio como a busca de comportamentos universais: o que não vale para todo mundo não é ética. “Essa leva em consideração o mundo ideal e não o ser humano como é”, comenta Pondé. Isso porque, na explicação dele, é muito difícil descobrir uma regra que se aplique de forma universal.

Por isso, essa segunda escola resvala quando há a necessidade de discussão para questões muito individuais. Ainda assim, a teoria é operacional, porque resolve grandes contingentes de população. “Essa segunda escola trabalha com a busca de estabelecimento de imperativos globais, mas corre o risco de esmagar a liberdade individual”, pontua.

 

O ÚTIL

A terceira escola é a utilitarista, que afirma que a ética não é uma ciência exata. Assim, essa teoria parte do pressuposto que não é possível pensar uma ética sem levar em conta certos recursos que constituem a natureza humana, como, por exemplo, o medo e a busca pelo bem-estar. “Essa é uma ética que tem por princípio a redução do sofrimento, daí o nome utilitarismo – de ser útil”, expõe Pondé.

Ele também pontua com muita clareza que, se os sofrimentos das pessoas não forem reduzidos, elas tenderão a não ser éticas. Também chamada de escola consequencialista, o utilitarismo propõe que o ato é ético quando as consequências dele geram bem-estar para a maioria das pessoas. Assim, normalmente, em situações difíceis, o utilitarismo leva a calcular a melhor decisão possível.

“Essa ética trabalha em ambientes de extrema tensão em que se tem que trabalhar com decisões extremamente duras, daí a ideia de que ela é ruim”, analisa o filósofo. Portanto, em resumo, essa escola entende que a vida humana tem condições práticas e não se pode pensar o bem desconsiderando essas condições práticas, uma vez que a teoria difere da prática.

 

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