Livre concorrência e inovação são vitais para o desenvolvimento econômico

por andre_inohara — publicado 24/04/2012 18h28, última modificação 24/04/2012 18h28
São Paulo – Seminário sobre oportunidades nas relações comerciais, com participação de diplomatas e CEOS, indicou que esse é o caminho.
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Criar um ambiente favorável ao desenvolvimento econômico e à competitividade de longo prazo demanda uma combinação de livre concorrência, investimentos em inovação e ganhos de produtividade. A receita foi indicada no ‘Seminário Oportunidades nas Relações Comerciais do Brasil frente à nova configuração dos blocos econômicos mundiais’, realizado pela Amcham-São Paulo nesta terça-feira (24/04).

“No Brasil, tenta-se salvar toda e qualquer empresa, por mais ineficiente e improdutiva que seja. Temos que tomar a coragem de não escolher as companhias que deveriam sobreviver. O mercado é que deveria fazer isso”, disse Miguel Jorge, consultor de comércio exterior e ex-ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior. Ele, que também é presidente do comitê estratégico de Business Affairs Latam da Amcham-São Paulo, participou do debate juntamente com os representantes diplomáticos da Coreia do Sul, da Alemanha e dos Estados Unidos, e CEOs de grandes empresas que atuam no País.

No evento, analisou-se comparativamente a situação da indústria manufatureira, que vem perdendo espaço nos mercados internacionais por conta de custos elevados e carência de produtos de maior valor agregado, e do agronegócio, bastante competitivo globalmente.

Para Miguel Jorge, o agrobusiness teve estímulo para se desenvolver quando o governo deixou de subsidiar o setor por meio da concessão indiscriminada de financiamentos – o que gerava casos crônicos de inadimplência e falta de produtividade – e obrigou os empresários a criarem estratégias para a própria sobrevivência, como consolidações e, posteriormente, investimentos em tecnologia.

“No exato momento em que o Brasil parou de subsidiar o setor, ele se tornou um dos mais competitivos do mundo. Precisamos fazer uma autocrítica em relação à competitividade e eficiência das empresas brasileiras”, disse o ex-ministro.

As empresas também necessitam considerar mais o desenvolvimento de novas tecnologias. “Não conseguiremos competir se não houver mudança de mentalidade. É preciso aplicar grandes volumes de recursos em inovação, ciência e tecnologia”, observa Jorge.

Protecionismo prejudicou Coreia do Sul

Os representantes diplomáticos da Coreia do Sul e Alemanha também abordaram a questão do protecionismo, que consideram prejudicial à economia. Apesar de ser um dos países mais industrializados do mundo, a Coreia trilhou um caminho difícil até chegar a um alto nível de desenvolvimento.

O embaixador da Coreia do Sul no Brasil, Kyonglim Choi, lembra que a economia de seu país também era protegida pelo governo, e que o impulso para mudanças veio das grandes dificuldades.

Em 1997, a Coreia era uma das economias mais dinâmicas do mundo ao lado de Taiwan, Cingapura e Hong Kong, nações que foram apelidadas de ‘Tigres Asiáticos’. Nesse ano, uma crise financeira mundial que se iniciou na Ásia atingiu seriamente essas localidades.

O governo coreano promoveu uma série de mudanças na economia, no sentido de promover a liberalização do mercado. “Antes da crise, a indústria cresceu em parte por conta da proteção governamental, mas sua eficiência estava muito atrasada em relação aos pares estrangeiros”, lembra o embaixador.

Com subsídios e proteção de mercado, a indústria coreana da época não se mostrou competitiva para os tempos de pós-crise.

“Muitas companhias declararam falência, mas as que sobreviveram se reestruturaram e a partir daí surgiram empresas como Hyundai e Samsung, que hoje estão no mesmo nível de Toyota e Sony”, conta Choi. Para o embaixador, as empresas precisam ter coragem de se expor à competição interna e externa.

Outro exemplo dado por Choi foi a situação distinta entre os setores financeiro e de informática de seu país no início da década de 1990. Nessa época, a indústria de serviços financeiros era mais desenvolvida, e tinha influência política para restringir a atuação de empresas estrangeiras no país.

Tudo mudou com a crise financeira de 1997, comenta Choi. “O ministro das Finanças foi forte o suficiente para não abrir a indústria financeira, mas, após dez anos, ela não desenvolveu competitividade e foi uma das razões da crise.”

O setor de informática, por sua vez, teve que contar com suas próprias forças. Pressionado por empresas americanas e europeias, o setor foi forçado a abrir seu mercado mais cedo.

A exposição à concorrência acabou fortalecendo a indústria de Tecnologia da Informação coreana, que hoje é uma das mais fortes do mundo, assinala o embaixador. “Isso é para dar uma ideia do que o protecionismo pode causar em longo prazo.”

Alemanha sem medo de competição

A concorrência chinesa é uma dor de cabeça até para países altamente eficientes como a Alemanha. Mesmo assim, o governo do país não cede à tentação de proteger setores ameaçados, afirma o embaixador da Alemanha, Wilfried Grolig. “É preciso concorrer e tentar sobreviver no mercado”, de acordo com o diplomata.

A Alemanha desenvolveu uma indústria de energia solar com subsídios, e o setor atingiu um tamanho significativo como fonte de energia renovável. No entanto, empresas chinesas passaram a atuar no mercado alemão e a conquistar cada vez mais espaço.

Como essa indústria já havia atingido certa maturidade, o governo alemão reduziu os subsídios, apesar de a indústria de painéis solares alemã estar enfrentando uma luta acirrada com a China. “Nosso governo não está fazendo nada (para socorrer o setor), porque, se a indústria alemã não consegue ser competitiva, melhor interrompê-la o quanto antes. Caso contrário, perderemos muito dinheiro”, destaca Grolig.

A situação é difícil, admite o diplomata, que avalia que nesse caso é melhor adotar uma solução pragmática. “O segredo do sucesso alemão é que nunca nos protegemos da concorrência”, salienta.

O Brasil tem muito a aprender com os exemplos da Coreia do Sul e da Alemanha, disse Miguel Jorge. Na década de 1970, a Coreia investiu pesadamente em educação para sair do atraso econômico e social, e hoje é uma das nações mais avançadas tecnologicamente. E a Alemanha, maior economia europeia, é um mercado dinâmico que premia a eficiência empresarial.

Na época em que a Coreia do Sul decidiu melhorar o nível educacional da sua população, apresentava um nível de desenvolvimento em tecnologia e educação inferior ao de muitos países latino-americanos. “De 1970 a 2006, a participação acumulada do valor agregado de manufatura da Coreia passou de cerca de US$ 5 mil para US$ 50 mil. No mesmo período, a América Latina passou de US$ 8 mil, na época mais que a Coreia, para US$ 20 mil”, compara Jorge.

Melhora da relação entre Brasil e Estados Unidos incentiva desenvolvimento da indústria

O investimento em ciência e tecnologia é um fator essencial para desenvolver a indústria, disse o cônsul em exercício dos Estados Unidos em São Paulo, William Popp. “Vemos muitas oportunidades de cooperação em inovação e setores como aviação”, destaca o cônsul.

O memorando de entendimento para Parceria em Aviação assinado pelos governos de Brasil e Estados Unidos no início de abril, vai aumentar o fluxo de passageiros e cargas entre os dois países, exemplifica Popp. “Temos que investir em pessoas, inovação e educação, focando em áreas da economia com maior valor agregado e oportunidades de negócios”, assinala.

Os investimentos nessas áreas são prioridade nos EUA também, segundo Popp. “A recuperação dos EUA está focada em áreas de alto valor agregado, e baseadas no conhecimento”, afirma.

Por: André Inohara e Marcel Gugoni

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