McKinsey: CEOs, a transformação digital depende, sim, da sua liderança

publicado 12/08/2019 12h05, última modificação 12/08/2019 13h23
São Paulo - Nicola Calicchio e Marina Cigarini debatem como a transformação digital se relaciona com liderança
Marina Cigarini e Nicola Calicchio da McKinsey no comitê estratégico de CEOs e Chairpersons da Amcham.jpg

Marina Cigarini (à esq.) e Nicola Calicchio (dir.), da McKinsey, no Comitê Estratégico de CEOs e Chairpersons de São Paulo

A Transformação Digital é sinônimo de liderança neste século, de acordo com a consultoria McKinsey. No nosso comitê de CEOs e Chairpersons em São Paulo, no dia 7/8, Nicola Calicchio, chairman do Conselho Global de Clientes da McKinsey, trouxe os dez elementos mais praticados nas empresas que tiveram sucesso em incorporar a cultura digital nos negócios.

Na reunião, participaram mais de 50 CEOs. Um deles observou que dois tópicos - a centralidade do cliente e o empoderamento das áreas para que possuam maior autonomia com alinhamento aos objetivos estratégicos da empresa - são fundamentais e aparecem em quesitos de liderança.

Calicchio concordou e deu exemplos. “Se você falar de cultura digital, é sobre liderança. A Amazon foi concebida da forma como o seu fundador, Jeff Bezos, pensa.”

Calicchio admite que criar cultura digital em uma empresa que está para nascer é mais fácil do que numa já existente. Mas há exemplos bem sucedidos de empresas estabelecidas que se reinventaram ou renovaram, como a IBM e a Microsoft. “Elas conseguiram se reinventar graças aos seus líderes, mas a pergunta é como fazer isso naquele momento e qual líder é o mais indicado para conduzir o processo”, pontua.

É possível compartilhar a responsabilidade da inovação ao entender os elementos humanos necessários nesta jornada. “Ser digital é uma questão de mentalidade. Quais são as resistências que existem nas organizações? Se o líder fizer as perguntas, ele aprende muito. Porque os freios são diferentes”, disse o executivo.

Mudanças culturais são conduzidas por pessoas, daí a necessidade de ter os profissionais certos nos postos chave, de acordo com o especialista. “Com uma estratégia errada, uma empresa pode seguir funcionando, mas se estiver com as pessoas erradas, não.”

10 elementos para criação de uma cultura de transformação digital 

Marina Cigarini, sócia sênior da McKinsey, apresentou os dez elementos que contribuem para a construção de uma cultura digital. São eles:

1. Centralidade (foco) no cliente

De acordo com a consultoria, o cliente está sempre beautifully unsatisfied (em português, lindamente insatisfeito). “Então é uma busca contínua para saber qual será o próximo passo para deleitar o cliente”, comenta Cigarini. Empresas maduras que conseguem manter o foco nos clientes costumam obter maior retorno financeiro, continua a executiva.

2. Teste e aprendizado

Na era digital, tudo é muito dinâmico e variável. “É um teste e aprendizado contínuo”, pontua a sócia. Com ferramentas analíticas, é possível testar modelos de negócios e produtos de forma rápida e sem grandes exposições a riscos. Por isso é importante que elas abram espaço para certa margem de erro. “Não é um salto no escuro, mas permitir a experimentação e usa-lá como fonte de aprendizado”. Para Cigarini, “o digital é um esporte de equipe”.

3. Empoderamento

É importante que as equipes tenham autonomia, mas com alinhamento aos objetivos estratégicos da empresa. Ferramentas de gestão, como o Agile, são importantes para criar formas conjuntas de trabalho. Calicchio destaca que a velocidade e complexidade crescente dos negócios exige a tomada de um número maior de decisões, e nem sempre os líderes conseguem resolver tudo.

“Em um mundo previsível, onde você tem que tomar uma ou duas decisões por mês, uma pessoa consegue fazê-lo. No mundo atual, são centenas de decisões que devem ser tomadas simultaneamente. Ser confiante e saber delegar com alinhamento aos objetivos da empresa é importante”, pondera.

4. Senso de urgência

“Alguns negócios foram acelerados pelo digital. Há casos de mudança de negócio que claramente aconteceram porque a transformação digital assim o permitiu”, afirma Cigarini.” É muito difícil determinar se uma empresa está enfrentando um ciclo de declínio, mas reagir com velocidade é extremamente importante”, complementa.

5. Transparência

Hoje o cliente quer uma relação aberta com as empresas, principalmente os mais jovens. Há empresas que surgem com formas inovadoras de comunicação. É o caso da fintech americana Stripe, que abriu o seu sistema de e-mails ao público. É um caso extremo, mas ilustra como a transparência é valorizada, cita a sócia. “O consumidor está questionando cada vez mais as empresas. Se não tiverem uma boa resposta ou posicionamento, não vai dar certo para elas.”

6. Entrega constante de valor

As empresas têm que investir constantemente em soluções de entrega rápida de valor ao cliente. É preciso aprender constantemente, afirma Cigarini. “É entregar a primeira versão, aprender e partir para a segunda versão. E assim por diante.”

7. Colaboração

Não há espaço para times que trabalham de forma isolada. Daí a importância de usar ferramentas de gestão que integrem projetos. A Microsoft é um exemplo bem sucedido, cita a executiva. “Eles fizeram uma transformaçao interna que envolveu milhares de pessoas. Tiraram rankings de desempenho individual e colocaram incentivos para trabalho conjunto. Hoje, são reconhecidas pelos analistas, clientes e acionistas como uma empresa colaborativa.”

8. Abertura à disrupção

É comum que startups ameacem modelos estabelecidos de negócio. Não há nenhuma empresa ou indústria que esteja segura, alerta Cigarini. “Toda empresa tem que ter inovação em sua cultura e ficar atento ao que acontece lá fora.”

9. Orientação a dados

Uma das mudanças importantes da transformação digital é a possibilidade de tomada de decisões com base em dados, os quais permitem decisões mais consistentes. Apesar das possibilidades abertas, ainda há resistência. “As pessoas não querem decidir com base em dados e voltam ao que faziam antes (decidir com base na experiência), criando o que chamamos de mindsets (em português, mentalidades) limitadores", disse a executiva.

10. Orientação externa

Hoje, não é mais possível criar inovação de forma isolada. É importante se interligar a outros ecossistemas de inovação, recomenda Cigarini. “Vemos redes de colaboração com empresas, parceiros e mesmo alianças com competidores.”

Ao fim e a cabo, “ser digital é promover a mudança de mentalidade na sua empresa”, diz o executivo.