Modelo que privilegia tratamento gera mais gastos com saúde para empresas

por giovanna publicado 22/11/2010 15h32, última modificação 22/11/2010 15h32
Porto Alegre – Ideal é remodelar atendimento, principalmente considerando cenário de aumento da longevidade, destaca médico.
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Organizações tanto de grande quanto de pequeno porte ainda preferem remediar os danos gerados por situações de risco no trabalho a investir para minimizar pontos de insegurança a que seus colaboradores ficam expostos. Essa mentalidade é reflexo do atual modelo do sistema de saúde brasileiro, que trata doenças em vez de evitá-las. Isso causa gastos superiores aos que seriam necessários se a opção fosse pela prevenção, critica João Arthur Ehlers, neurologista do Hospital Mãe de Deus.

“O ideal seria remodelar o atendimento de saúde no País para termos menos doenças e, provavelmente, mais vida. A mudança, além de reduzir os custos com a indústria farmacêutica e hospitais, prepararia a economia para a realidade dos próximos cinco anos, quando mais pessoas idosas farão parte da população brasileira e precisarão estar saudáveis e atuantes no mercado”, pontuou Ehlers, que participou do comitê de Saúde da Amcham-Porto Alegre na sexta-feira (19/11).

Hoje, 30% da população brasileira com mais de 60 anos estão inseridos no mercado de trabalho e o número tende a aumentar, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Os idosos representam 10,5% da população brasileira e, em termos globais, conforme indicou Ehlers, o número de pessoas com idade acima de 80 cresce 3,9% anualmente. Para 2050, a projeção é de que 20% da população mundial tenham mais de 80 anos.

Para Ehlers, o modelo de atendimento mais indicado para esse novo cenário é o Sistema Integrado de Saúde (SIS), que propõe a criação de uma gestão profissional da saúde, com conscientização do cidadão sobre seus direitos e responsabilidades referentes a bem estar físico e mental, e geração de conhecimento para atender novas necessidades e atender peculiaridades das diversas comunidades sociais.

“Com intervenções para a promoção da saúde, implementação de diferentes conhecimentos técnico-científicos, políticos e sociais também no ambiente de trabalho, e elaborando processos a curto, médio e longo prazos, o cidadão entenderá mais a responsabilidade pela própria saúde e não será apenas consumidor de planos de doença”, explicou.

O cardiologista Fernando Lucchese também ressalta a importância de conscientizar as pessoas e estimulá-las à prevenção. “Ter um estilo de vida organizado nos âmbitos pessoal, familiar, profissional financeiro e espiritual é ter saúde e isso traz felicidade, a grande responsável pela longevidade. Por isso, é importante avaliar quanto benefício tem o indivíduo saudável e estimular o colaborador a querer se cuidar.”

Acidentes de trabalho

O Anuário da Previdência Social revela que em 2009 foram registrados cerca de 730 milhões de acidentes de trabalho no Brasil. A advogada  Mariana Lerina, do escritório Sérgio Müller & Associados, justifica a alta incidência por um conjunto de fatores.

“Existem a questão da falta de fiscalização por parte da DRT (Delegacia Regional do Trabalho) e do Ministério Público e o alto custo para as empresas instituírem programas de prevenção e aplicarem as recomendações técnicas de Serviço Especializado em Engenharia de Segurança e Medicina do Trabalho (SESMT), Comissão Interna de Prevenção de Acidentes (Cipa) e Programa de Controle Médico de Saúde Ocupacional (PCMSO). Além disso, o Brasil é um país de muitas leis. Há um desconhecimento dos próprios gestores sobre as normas”, disse Mariana.

Iseu Milman, coordenador de Patrimônio do Conselho Regional de Medicina do Rio Grande do Sul (Cremers), destaca, por fim, que todos que trabalham estão expostos a algum tipo de risco, assim como na vida pessoal.

“Os especialistas da Medicina do Trabalho devem atacar esses problemas em conjunto. Uma pessoa que está em desequilíbrio em alguma de suas esferas pode gerar erros no trabalho, como problemas técnicos e até acidentes. Cabe às empresas enxergar o todo, não só cumprindo a lei. Isto pode ser feito através de programas preventivos, maior atenção à saúde e melhor cuidado com os colaboradores”, afirmou Milman.

 

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