Na área de infraestrutura logística, Brasil não investe o suficiente nem para recuperar perdas, aponta coordenador da FDC

por marcel_gugoni — publicado 06/02/2013 17h21, última modificação 06/02/2013 17h21
São Paulo – Perdas com custos logísticos ficam na casa de US$ 83,2 bilhões por ano, ou 5,6% do PIB, enquanto investimentos no setor não passam de 1,5% do PIB, explica Paulo Resende.
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O Brasil perde o equivalente a US$ 83,2 bilhões por ano com custos logísticos em função de problemas que vão desde a elevada burocracia até a limitada infraestrutura de estradas, ferrovias, portos e aeroportos. O prejuízo representa em torno de 5,6% do Produto Interno Bruto (PIB).

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“O Brasil não investe o suficiente para recuperar nem o que perde”, afirma Paulo Resende, coordenador do Núcleo CCR de Infraestrutura e Logística da Fundação Dom Cabral. Ele participou nesta quarta-feira (06/02) do comitê aberto de Logística da Amcham-São Paulo, o qual debateu os custos logísticos no Brasil.

Segundo Resende, se o Brasil investisse esse montante, veria os ganhos imediatamente na competitividade das empresas, na melhoria do transporte de cargas e na fluidez da mobilidade urbana. “Mas isso significaria ter que aplicar 5,6% do PIB. Nosso patamar atual de investimentos em logística fica em, no máximo, 1,5%.”

Os dados apresentados pelo professor fazem parte de uma extensa radiografia feita em 2012. O levantamento ouviu 126 companhias de vários segmentos econômicos, desde a indústria têxtil e o varejo até o setor agropecuário e de mineração, que representam 20% do PIB do País. Para elas, os custos logísticos comprometem 13,1% de todo o seu faturamento. Na economia do País como um todo, a logística consome 12%, estima a FDC.

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“Na comparação com os EUA, se o Brasil estivesse em exato pé de igualdade competitiva com uma indústria americana, nas mesmas condições tecnológicas de produção e com a mesma demanda de clientes, o Brasil entraria com esse prejuízo de US$ 83,2 bilhões”, ilustra Resende.

Segundo ele, os setores que mais sofrem com a ineficiência são o de bens de capital e o de construção. Nestes dois segmentos, os transportes levam 22,7% e 20,9% da receita, respectivamente. A reclamação das empresas fabricantes de equipamentos é de que a malha brasileira não é capaz de transportar máquinas industriais com preços competitivos. “Essa é a cadeia mais cara”, diz. “Na construção, o problema são as restrições de carga e descarga nas regiões metropolitanas.”

Principais gargalos

Pelos números da pesquisa, as estradas em más condições são o maior entrave. Mais da metade das empresas consultadas (54,5%) reclama das deficiências das rodovias como o aspecto que mais encarece o custo logístico. A carga brasileira é transportada principalmente por rodovias, e os traslados de longa distância são maioria.

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“A longa distância tem maior incidência nos custos logísticos das empresas”, afirma o professor. Na mineração, por exemplo, mais da metade do custo logístico é destinada a levar mercadorias, em caçambas de caminhão, pelo interior do País. “A estrada ruim tem um efeito de encarecer o custo em 30%, em média.”

Outro problema é a informalidade do transporte rodoviário. Há falta de capacitação de motoristas e riscos de segurança no transporte, e a informalidade reflete-se em acidentes – o que custa caro às empresas. “Os acidentes matam em torno de 8 mil motoristas por ano nas estradas, sem contar aqueles que acabam indo para os hospitais e não entram nessa conta”, aponta. “É preciso evitar a informalidade.”

A integração de modais de transporte é vista como saída urgente para baixar os custos. Mais de 70% das empresas defendem a melhor gestão das ferrovias com integração multimodal como uma ação relevante para a redução dos custos logísticos.

Resende elogia as propostas do governo federal para licitar trechos de rodovias e ferrovias, além de terminais portuários e aéreos, à iniciativa privada. “A indústria quer melhor oferta, com mais ferrovias e integração”, comenta. “E precisamos de muito mais do que somente essas concessões porque o Brasil vive um programa de recuperação do crescimento. Depois disso é que poderemos conversar sobre o Programa de Aceleração do Crescimento. Um é o nome que o governo dá, o outro é o que a sociedade vê.”

Agregar valor

Nesse cenário, as empresas se esforçam para tentar baixar seus custos com transportes. “Terceirizar a frota e serviços logísticos para outros operadores foi eleito por 65% das empresas como a ação mais importante para redução de custos”, diz Resenda. Entre as companhias participantes do estudo, 83% dizem já mexer com algum nível de terceirização, seja ela meramente tática e operacional ou voltada à inteligência estratégica dos negócios.

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Para o professor, o caminho é a empresa saber como agregar valor aos seus transportes. Mais de 9 em cada 10 priorizam o cumprimento de prazo das entregas, o preço do serviço e a confiabilidade nesse tipo de trabalho.

“Para adicionar valor, é preciso dialogar com os clientes”, explica o especialista. “As empresas geralmente desenham seus processos logísticos com base no que é melhor para elas em termos de custos. Mas é preferível que atendam as necessidades dos clientes”.

Se há companhias que priorizam a velocidade da entrega, há outras para as quais o cumprimento do prazo combinado, que pode ser mais longo, é o ideal. “Quem busca cumprimento de prazo não precisa da entrega amanhã, por exemplo. Se o operador logístico se prepara para entregar rapidamente e o cliente não tem espaço de armazenagem, ele destrói o valor e encarece o processo. Diálogo é o caminho.”

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