Número de mulheres em conselhos de empresas cresce 1% ao ano no mundo, mostra pesquisa

publicado 13/08/2014 10h11, última modificação 13/08/2014 10h11
São Paulo – Empresas brasileiras entre as maiores do mundo têm índice mais alto que as listadas na bolsa
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Na última década, o número de mulheres presentes em conselhos administrativos nas maiores empresas do mundo cresceu menos de 1% ao ano, um ritmo lento, segundo a Corporate Women Directors International (CWDI), que monitora a participação feminina nesses cargos. O dado resulta do último estudo mundial da entidade, que avaliou as 200 maiores empresas listadas pela revista Fortune.

A pesquisa foi apresentada por Irene Natividad, presidente do CWDI, em um café com executivas na Amcham – São Paulo, sexta-feira (08/08). Patrícia Tuma Martins Bertolin, vice-diretora da Faculdade de Direito do Mackenzie, e Yolanda Cerqueira Leite, consultora e coach em ética e valores humanos, também participaram.

De acordo com o estudo, as mulheres são 17,3% dos conselhos das 200 maiores companhias do mundo, ante aos 10,4% registrados em 2004. Entre as três empresas brasileiras nessa relação da Fortune (Petrobras, Banco do Brasil e Banco Bradesco), a participação das mulheres é de 14,8% - menor que a média mundial, mas maior que os 7,7% verificados entre as companhias de capital aberto do país.

Em 2004, 147 empresas entre as maiores tinham ao menos uma mulher entre os conselheiros, número que passou a 162 em 2014.

Ações e consequências

A média mundial de 17,3% é “patética”, diz Irene, para quem a reconfiguração econômica mundial impactou o resultado geral. “O número de empresas europeias entre as 200 maiores da Fortune caiu, enquanto as asiáticas ampliaram sua representatividade”, assinala.

Em queda entre os 200 maiores, países europeus como França e Itália aumentaram a presença de executivas em seus boards, ao passo que os asiáticos, em alta, ainda possuem baixa representatividade feminina.

A França, que há dez anos tinha 7,2% de mulheres nos boards, chegou a 29,7%. Com a Itália, que possui 25,8%, os franceses ultrapassaram os Estados Unidos, que tinha 17,5% em 2004 e está com 22,5% atualmente. Já a China tem 6,8%, o Japão 5,1%, e a Coreia do Sul 3,2%.

“O que impulsionou França e Itália foram as cotas para conselheiras nas empresas, a exemplo da Noruega, que adotou em 2002”, avalia Irene.

A adoção de cotas é bandeira da CWDI. “Não há mudança sem pressão. Não é natural mulher ocupar o papel de liderança (por isso é necessário cota). A mudança de baixo para cima, com educação, já aconteceu e não deu certo – as mulheres têm mais escolaridade que homens, mas não estão na liderança; então a mudança tem de vir de cima, num curto espaço de tempo”, defende. “Há mais de 30 estudos mostrando que a presença feminina na direção das empresas eleva os resultados financeiros”, acrescenta.

Sociedade e a lei

A distância entre as mulheres e as condições igualitárias no mercado de trabalho são tão históricas que se refletem em antigas leis, Patrícia Tuma Martins Bertolin, vice-diretora da Faculdade de Direito da Universidade Presbiteriana Mackenzie.

Até 1989, por exemplo, era permitida a pais e maridos a interferência no contrato de trabalho entre mulheres adultas e o empregador. A mesma lei que extingui essa permissão também revogou parte da CLT que tratava da “proteção ao trabalho da mulher”, como o artigo 379, que proibia o trabalho noturno de mulheres.

“Essa proteção era conservadora e discriminatória. E a proibição ao trabalho noturno significava que mulher séria não saía de casa à noite”, comenta. “O espaço público era dos homens, enquanto o da mulher era o privado”, destaca.

Ela cita, ainda, a diferença salarial (elas ganham 73,3% do que eles, em média), apesar de as mulheres apesentarem mais escolaridade que os homens. “Quanto mais escolaridade, maior a discrepância”, pontua.

Para a vice-diretora da Faculdade de Direito do Mackenzie, fica claro que a divisão sexual do trabalho decorre das relações sociais de sexo. “Ainda há estereótipos sedimentados, como os que as mulheres assumem funções mais ‘leves’ e de menor remuneração. É preciso destruir esses estereótipos”, declara.

Ações e comportamento

Yolanda Cerqueira Leite, consultora e coach em ética e valores humanos, afirma que as mulheres precisam dar suporte umas às outras, no meio profissional, como forma de combater essa diferença no mercado de trabalho. “Homens se reúnem, dão mentoria. Mulher não tem isso e também não é chamada para os encontros, as reuniões entre homens em que eles trocam essas informações”, exemplifica.

Outra sugestão de Yolanda é buscar novos modelos femininos de liderança, os chamados role models. Ela ressalta que sua geração começou copiando outros estilos porque não havia tantas líderes em quem se inspirar. “As mulheres são muito cruéis consigo, repetindo modelos masculinos e não ajudando umas às outras”, expõe. “As mulheres estando no topo, as mulheres ascenderão. Temos de agir de cima para baixo”, completa.

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