O vaso trincado e a formação do líder

publicado 06/09/2013 15h50, última modificação 06/09/2013 15h50
São Paulo – Com provocações filosóficas, consultor Jean Bartoli estimula pensamento empresarial
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Aclamado por seus diálogos, o cineasta francês Michel Audiard criou uma inesperada citação: “felizes os trincados, porque através deles passa a luz”. Esse deve ser um dos pontos de partida para o autoconhecimento quando se está na liderança,segundo o consultor e doutor em ciência da religião Jean Bartoli, que usou a filosofia para instigar os participantes do comitê estratégico de Gestão de Pessoas, na Amcham – São Paulo, quinta-feira (05/09).

“Somos vulneráveis e ninguém escapa disso”, pontua o francês Bartoli, um ex-padre dominicano que hoje é professor de instituições como a FIA (Fundação Instituto de Administração). O interessante na analogia de Audiard, diz Bartoli, é a constatação de que a luz não emana apenas de dentro dos seres, mas vem de fora. “Enquanto eu era padre, fazia minha autorreflexão sozinho. A partir do momento em que casei, entrou um outro elemento na minha reflexão”, exemplifica.

Mestre ignorante

Além das vulnerabilidades, outro elemento fundamental ao processo de desenvolvimento de liderança é reconhecer a própria ignorância. O palestrante lembra a história relatada em “O mestre ignorante”, livro de Jacques Ranciere, em que um francês que não sabe nada de holandês vai à Holanda, lecionar francês a um grupo que desconhece totalmente o idioma do professor.

Para Bartoli, o professor parte do princípio de que todos os alunos, naquele lugar, são inteligentes, mesmo em diferentes modos. No entanto, diz, há líderes que trabalham com a hipótese de que é melhor que todos os seus liderados.

“A distinção não está entre o mestre que sabe ou o mestre ignorante, mas entre o mestre que emancipa a pessoa e o mestre que a emburrece”, pontua.

Pontífice

O desenvolvimento como líder implica em reconhecer as próprias vulnerabilidades e ignorâncias, diz o consultor, para poder estabelecer pontes e se relacionar com os demais. E são os relacionamentos, acrescenta, que fazem a comunicação entre as partes.

“Numa empresa, em que se vive junto para um fim específico, para um pacto gerar relação de confiança o fundamental é que ele seja honesto. Quando se entra numa organização, você pode fazer um pacto honesto ou um pacto narcisista [que interessa somente a você]”, comenta.

Solidariedade é necessidade

A liderança é, ainda, baseada em conceitos de coletividade e solidariedade, ressalta Jean Bartoli. Em primeiro lugar, explica, uma empresa é um processo colaborativo de criação. Essa característica resulta, portanto, em um ambiente solidário, como uma colônia.

“Numa colônia, o que mantém os membros unidos é o objetivo comum. Não é o amor, mas os vínculos em torno de um projeto comum. Solidariedade não é legal, é necessidade”, adverte.

Somente dessa forma é possível haver compartilhamentos [de conhecimento e de forças, por exemplo], defende o consultor. “O ambiente solidário conta com uma liderança voltada para o bem comum. É a partir daí que se forma a discussão sobre o auto-conhecimento. Se não for assim, vira um exercício narcisístico”, declara.

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