Questões trabalhistas preocupam empresas na adoção de home office

publicado 25/05/2016 08h49, última modificação 25/05/2016 08h49
São Paulo - Modelo de trabalho remoto traz ganhos na produtividade ao cortar gastos e proporciona melhor qualidade de vida aos funcionários
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Com o aumento da prática do home office nas empresas, há uma maior preocupação das empresas em estabelecer regras sobre esse tipo de trabalho. Questões como pagamento de hora extra, qualidade e segurança do local de trabalho, necessidade de controle da jornada de trabalho e o isolamento social são algumas questões que Sólon Cunha, sócio do escritório de advocacia Machado Meyer, apontou como preocupações que as empresas têm durante reunião do comitê de gestão de pessoas realizado na Amcham – São Paulo na terça-feira (24).

Para o advogado, é necessário prestar atenção em alguns aspectos antes de adotar o modelo de trabalho de casa, como segurança e confidencialidade das informações da empresa, além de investimento em um treinamento para lidar com ferramentas digitais. "Eu percebo que as pessoas implementam o home office de forma amadora, sem parar para refletir como ou com quais objetivos esse modelo deve ser praticado", avalia.

Distinguir quem tem vínculo empregatício, quem é autônomo e se é necessário controlar a jornada de trabalho à distância também é importante, principalmente para evitar processos trabalhistas. "O fato de portar um equipamento da empresa, por si só, não caracteriza hora extra. Agora, passará a caracterizar se há exigência de uso. Se a empresa criar um plantão, uma escala ou uma exigência, isso é caracterizado como tempo à disposição, aguardando ou executando ordens - aí é necessário pagar pela jornada", esclareceu. Para evitar problemas legais e processos trabalhistas, a recomendação do especialista é adotar um modelo parecido ao elaborado pelo próprio Tribunal Superior do Trabalho, que regulamentou o trabalho remoto dentro do TST em uma Resolução Administrativa (Nº 1499/2012).

O modelo de adoção do home office na AES Brasil, por exemplo, obriga funcionários que ocupam cargos de confiança a trabalharem em casa pelo menos um dia de casa. Nesse caso, não há qualquer controle de atividade ou horário: a cobrança é feita através de metas e qualidade de serviço dentro de prazos previamente combinados com o gestor, dando ao funcionário a liberdade de organizar seu tempo. "O home office funciona muito bem e é aceito como benefício por funcionários. Na minha opinião, ele funciona bem pra algumas pessoas e pra outras não. É uma questão muito individual", avalia Marcelo Alves Pereira, diretor de Recursos Humanos da empresa.

Já na Edenred Brasil, o home office é ligado exclusivamente ao setor comercial e significou uma mudança enorme em produtividade. Uma pesquisa na empresa mostrou que, no modelo tradicional de trabalho, os funcionários do setor perdiam 40% do tempo de trabalho atendendo a telefonemas e 30% resolvendo outros problemas. Depois da implantação do trabalho remoto, houve uma inversão desse modelo: com mais tempo para ficar mais próximo ao cliente, a qualidade do atendimento aumentou. "Os principais benefícios são a redução de custo, já que hoje o espaço corporativo é muito caro, e o resultado nas equipes melhorou, com aumento da produtividade e qualidade de vida dos funcionários", explicou o diretor de Recursos Humanos da empresa, José Ricardo Amaro. Em números, isso significou um aumento de 40% no volume e 76% de aumento em receita nas novas vendas.

A prática, comum em empresas dos Estados Unidos e países da Europa, sofre críticas por, muitas vezes, criar um isolamento e separar a equipe de trabalho. O gerente de Recursos Humanos da Oracle, Alberto Brisola, identifica que há um movimento inverso de tentar trazer as pessoas de volta para a empresa nesses locais, mesmo que seja apenas algumas vezes por semana. "É o fenômeno do consolidation. Nas áreas de suporte, as empresas chegaram à conclusão de que é melhor que o funcionário fique no escritório para ter troca de experiência, especialmente em áreas técnicas, para melhorar a qualidade da prestação de serviços”, explicou. Nesse caso, Amaro recomenda ações que não distanciem totalmente o funcionário da empresa através de integrações e reuniões constantes para troca de conhecimentos.

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