Relação com a China tem que seguir o “caminho do meio”, com mais inteligência comercial e pragmatismo, diz gerente da Apex

publicado 19/12/2018 16h23, última modificação 19/12/2018 18h10
São Paulo – Para Augusto Castro, Brasil deve se aproximar dos EUA e China sem privilegiar qualquer lado
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Na relação com a China, é preciso seguir o “caminho do meio”, defende Augusto Castro, gerente-executivo da Apex-Brasil (Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos). “Às vezes, se demoniza demais a concorrência dos produtos e investimentos chineses. Ou o extremo oposto, achando que o capital chinês vai salvar o Brasil, vai resolver os nossos problemas de infraestrutura. Acho que a gente precisa é seguir o caminho do meio.”

Castro foi um dos participantes do Programa Amcham de Capacitação Empresarial da Amcham-São Paulo – PACE – sobre a China, realizado em 30/11. O caminho do meio a ser trilhado, segundo o dirigente, é ter uma postura “realista e pragmática, ancorada em nossos interesses em relação à China”.

O interesse chinês no Brasil é garantir acesso a matérias-primas e busca de ativos com excelente retorno financeiro, assegura Castro. Mas, sem criar uma relação mais próxima, o desconhecimento das intenções chinesas no Brasil cria “mistificações”, continua.

Nos últimos anos a China expandiu sua presença na América Latina, especialmente no Brasil. O gigante asiático é o maior parceiro comercial do país, e a corrente de comércio (exportações e importações) chegou perto dos 80 bilhões de dólares no ano passado, destaca Castro.

Desmistificando investimentos

“Um fator que acho muito relevante é o enorme desconhecimento que temos da China, e isso leva a mistificações para o bem e para o mal. O investimento chinês não é a salvação nem a perdição do Brasil”, reforça o dirigente.

Quando a relação sino-brasileira foi restabelecida, na década de 1970, o Brasil sempre teve postura autônoma na política externa, afirma Castro. Esse é o direcionamento que o país deve manter dentro do contexto de guerra comercial entre os EUA e China: aproximar-se dos dois, mas sem priorizar nenhum lado. “O Brasil não vai ser obrigado a escolher um lado. Tem peso e autonomia no cenário internacional para uma política externa autônoma”, assinala.

A estratégia de comércio exterior em relação à China é ser pragmático e realista, baseado em políticas de longo prazo e inteligência comercial para defender os interesses brasileiros, recomenda. “O conhecimento e o engajamento econômico em relação à China ainda é incipiente, tanto no meio empresarial como acadêmico. Temos necessidade de produzir mais inteligência comercial.”

Castro menciona que o agronegócio poderia explorar mais as oportunidades do mercado chinês, no que se refere às exportações de carnes. Também há muito que ser trocado em setores de economia criativa e serviços. “Em termos de comercio eletrônico, metade do volume vem da China”, detalha.

Relações com China e EUA

Além de Castro, participaram Fabiana D’Atri, economista do Bradesco e professora da FGV, Leonardo Rothmuller, gerente de macroeconomia do banco sino-brasileiro BOCOM BBM, Larissa Wachholz, sócia-diretora da consultoria Vallya, e Janaína Câmara da Silveira, da Agência Xinhua de Notícias.

Rothmuller, do BOCOM BBM, considera inevitável fazer negócios com a China, dada a sua importância estratégica no mundo e posição privilegiada como compradora de matérias-primas brasileiras.

“Tudo bem o novo governo brasileiro querer se aproximar dos Estados Unidos. É só não se distanciar da China”, pontua Rothmuller. Na política externa, a prioridade do Brasil é expandir mercados, reforça D’Atri. “A agenda brasileira é reduzir protecionismo e aumentar sua exposição global”, argumenta.

Para Wachholz, a falta de regras jurídicas estáveis é um empecilho para novos investimentos chineses. Grande parte dos aportes no Brasil foi para comprar ativos, em vez de criar projetos novos (greenfield). “Quando os chineses começaram a vir para cá, tinham intenção de construir operações greenfield. Mas as dificuldades burocráticas fizeram com que recuassem”, detalha.

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