Risco de racionamento de energia existe para 2015, alertam economistas

publicado 25/06/2014 11h29, última modificação 25/06/2014 11h29
São Paulo – Demanda já está em retração e racionamento não compulsório pode ser saída
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Treze anos após o apagão que atormentou o Brasil, a indústria revive a expectativa de racionamento de energia. O risco existe, afirmam André Loes, economista chefe para América Latina da HSBC, e Fernando Camargo, diretor de Investimentos e Finanças Corporativas da LCA Consultores. Eles comentaram os riscos e seus desdobramentos no comitê aberto de Energia da Amcham – São Paulo na terça-feira (24/06). “O risco existe e é para 2015”, diz Camargo (confira aqui a apresentação completa).

“Parte da confiança empresarial se deve a como o governo lida com o setor. No ano que vem pode ter racionamento”, comenta Loes (confira aqui a apresentação completa).

As chuvas no sul e no norte secaram a probabilidade do corte na distribuição esse ano, diz. Além disso, a demanda também está caindo, justamente em função da desconfiança do setor produtivo.

“Alguém que vai investir precisa de contratos de energia a preço razoável, no futuro. A incerteza (sobre o abastecimento) aumenta e a demanda retrai”, explica Camargo.

O consultor considera projeções do setor energético e de bancos, que chegam a estimar em 45% as chances de novo racionamento. “Acho que há 33% de (chance) de alguma intervenção”, estima.

Camargo ressalta que o cenário é muito dinâmico, o que dá mobilidade às projeções. Um dos fatores, por exemplo, é a ocorrência de chuvas, que não se pode cravar com exatidão quando e quanto será. Apenas após o período usual, entre novembro de 2014 e março de 2015, é que o nível dos reservatórios apontará qual o prognóstico mais correto.

Tamanho do corte

O consultor avalia que, se confirmas as expectativas, o racionamento imporia uma economia entre 5% e 10%. “Depende de quanto vai chover e a demanda também já está caindo, o que reduz também a falta de oferta”, complementa. Em 2001, o corte, determinado ao sudeste e ao centro-oeste, foi de 2001.

Por isso, conclui Camargo, o governo poderia tomar medidas mais brandas que há treze anos. “Poderia ser feito na forma de um anúncio como ‘vamos conter o consumo’”, diz.

Ele lembra que, mesmo fora do racionamento, o sul do país apresentou economia no consumo, em 2001, diante do pedido das distribuidoras à população. “Essa indução foi suficiente para a queda brutal no consumo naquele momento, em que havia desperdício e ineficiência maiores, no sistema. Você não tem de forçar o racionamento como lá atrás, de forma compulsória”, compara.

Além de um racionamento não-compulsório, o consultor sugere medidas de replanejamento de oferta, como mais leilões de energia solar e de biomassa. “Quanto mais tempo (o governo) demorar para fazê-lo, maior fica o ajuste”, alerta.

Impactos

Um possível racionamento já se reflete na queda da confiança do empresariado e na decisão de investimentos, comenta André Loes. “Se houver, ele terá efeito relevante sobre o PIB e a inflação, porque pressiona os preços de energia e os ligados a eles”, declara.

Nas projeções do economista, o PIB se reduzia a zero, num cenário de racionamento em 2014. Em 2015, a economia cresceria 1,5%. Os índices de inflação seriam 7,5% e 6%, respectivamente. E o dólar iria a R$ 3, esse ano, e a R$ 2,6, no seguinte.

Caso se confirme o racionamento compulsório, a indústria será a principal afetada, pelo alto custo da energia ou pela contenção.

“Se abstrair o problema do racionamento, a gente acredita que a indústria vá se recuperar em 2015, com movimento ainda esse ano, no segundo semestre, retomando pela infraestrutura e a construção civil”, adverte Camargo.

Para pensar

Se a iniciativa privada já discute a probabilidade de falta de energia elétrica e as alternativas há mais de uma década, a preocupação com o abastecimento de água, sobretudo no estado de São Paulo, enfim sobreveio ao setor produtivo.

Ainda não há análises do que o colapso do Cantareira, por exemplo, pode causar às indústrias da Grande São Paulo, que tem no sistema sua principal fonte. Mas os sinais já preocupam, cita Fernando Camargo.

“Se o sistema elétrico decidir que vai economizar reservatório, vai faltar água nas cidades. O abastecimento e a energia começam a ser conflitantes”, diz. “As empresas começaram a estudar, dimensionar as alternativas. Todo mundo foi pego de surpresa”, comenta.

A seguir, a íntegra das apresentações de André Loes, HSBC, e Fernando Camargo, LCA Consultores, no comitê aberto de Energia da Amcham – São Paulo, realizado em 24/06:

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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