Se mulher ganhasse tanto quanto homem, PIB brasileiro seria 30% maior, estima McKinsey

publicado 30/11/2015 15h13, última modificação 30/11/2015 15h13
São Paulo – Encontro sobre empoderamento da mulher discutiu participação femina no mercado de trabalho
mariana-donatelli-1455.html

Um PIB 30% maior, em 2025, com até US$ 850 bilhões a mais em circulação. Este incremento na economia brasileira seria possível se fossem eliminadas as desigualdades entre homens e mulheres no mercado de trabalho, mostra uma pesquisa da consultoria McKinsey, apresentada no Encontro Sobre Empoderamento da Mulher, na Amcham – São Paulo, sexta-feira (27/11).

A partir de dados de 94 países referentes a 2014, o trabalho estima que, na economia global, o ganho seria de US$ 12 trilhões a US$ 28 trilhões – neste caso, um acréscimo de 26%.

Essa diferença está diretamente ligada à diferença de condições de trabalho entre homens e mulheres, afirmam a consultora Heloisa Callegaro e a gerente sênior Mariana Donatelli, da McKinsey.

“Há um potencial significativo de incrementar a economia com a igualdade de oportunidades. Não é apenas uma questão social, mas também econômica. Os avanços da sociedade têm de andar junto aos do trabalho”, declara Mariana.

O levantamento identificou que as mulheres trabalham menos que os homens e estão concentradas em setores menos remunerados. Enquanto eles ocupam a indústria, por exemplo, elas atuam mais na agricultura.

“No país, as mulheres são metade da população e 59% dos formados em universidades, mas representam 44% da força de trabalho e 35% do PIB”, destaca a gerente.

A consultoria pesquisou 15 indicadores de igualdade de gênero no trabalho e na sociedade, nos países pesquisados. Com eles, estipulou-se o gender parity score (GPS), um índice para identificar o quanto os países já avançaram.

No geral, nenhum país venceu totalmente essa desigualdade. O GPS varia de 0,44 no sul da Ásia para 0,74 na América do Norte. “Há os de desigualdade alta e os de extrema desigualdade. O Brasil está no meio do caminho, com 0,65”, diz Heloisa.

O resultados brasileiros são semelhantes aos do restante da América Latina. “Mas tem um potencial para olhar aos países melhores e desenvolver outras experiências”, adverte Mariana.

De acordo com a gerente, os indicadores analisados mostram que salário menor que o dos homens é um problema no mundo todo; que as mulheres estão na maioria dos trabalhos não remunerados; a representatividade política feminina ainda é baixa e ainda há muita violência contra a mulher – uma realidade bem presente na América Latina.

Para mudar o quadro em direção à equidade de gêneros, a consultoria indica 75 intervenções, divididas em seis tipos, envolvendo sociedade, governos, setor privado e mídia. Elas compreendem incentivo e apoio financeiro, capacitação, tecnologia e infraestrutura (como creches e asilos a preços acessíveis, transporte seguro, conteúdo digital e abrigos), geração de oportunidades econômicas, e leis, políticas e regulamentos.

Exemplos em debate

Apesar de mais escolarizada, a mulher ainda ganha cerca de 75% do salário masculino e tem presença acanhada no quadro de liderança das grandes empresas, lembra Deborah Vieitas, CEO da Amcham. Das companhias listadas em bolsas, elas são cerca de 7% da diretoria.

“A Amcham entende que esse é um tema para reflexão, troca de ideias e melhores práticas”, afirma Deborah.

Além da pesquisa da McKinsey, o encontro reuniu executivas para debater os desafios do empoderamento feminino em diferentes áreas do negócio. Participaram Ana Costa, diretora executiva Jurídica Latam da Avon; Teresa Sacchetta, CIO do Grupo Fleury; e Cassia Silveira de Assis, coordenadora do curso de Engenharia Civil no Instituto Mauá de Tecnologia; além da moderadora Esther Nunes, sócia do escritório Pinheiro Neto Advogados.

Questões complexas como a desigualdade de gênero exigem visão estratégica e de longo prazo, pondera Teresa, CIO do Grupo Fleury. Ela relata o que aprendeu em um curso de liderança em Oxford, Inglaterra: “(O curso) me chamou atenção para a perspectiva nova de ser líder no seu contexto, com suas qualidades e apesar das que você não tem”, diz. “Se você não possui todas as capacidades, se associe a quem tem”, complementa.

Ana Costa cita programas da Avon para dar oportunidades às trabalhadoras da companhia, como a creche inserida em sua planta em Interlagos e ações para permitir inserção feminina em áreas consideradas masculinas.

“A primeira coisa é dar condições para quem não está em igualdade para ter acesso às posições. Temos de encontrar contraponto para dar oportunidades semelhantes (às mulheres)”, defende.

Programa semelhante ocorre no Pinheiro Neto, desde 2009, inspirado em escritórios de advocacia de Nova Iorque, segundo Esther Nunes. “O objetivo é contratar e reter talentos em um ambiente que geralmente é hostil, exige várias horas e trabalho fora da cidade”, explica a advogada.

Coordenadora do curso de engenharia civil, uma área em que “ser engenheira é fazer com que acreditem na gente”, Cássia de Assis tem muitas histórias de desafio para contar. Uma delas foi quando um cliente de uma consultoria em que atuou pediu para que chamasse o engenheiro para falar de um projeto, desconsiderando que ela fosse a responsável.

Para ela, o problema deve ser combatido desde o início, repensando os valores e as informações transmitidas às meninas ainda pequenas. “Vi uma matéria, há anos, em que se perguntava para a garota brasileira o que queria ser quando crescesse e ela respondia ‘ser modelo’. Na China, a resposta à mesma pergunta era ‘engenheira’”, conta.

“Há uma diferença cultural na base. Temos que dizer às mulheres que elas têm capacidade de lidar com matemática e que possuem visão espacial, ao contrário do que se apregoa”, avalia.

 

registrado em: