Sucesso é de quem corre riscos e trabalha para refinar talento, ensina ex-jogadora Hortência

por andre_inohara — publicado 08/03/2013 13h55, última modificação 08/03/2013 13h55
São Paulo – No comitê de Secretariado, ‘Rainha do Basquete’ contou como superava desafios na época em que jogava profissionalmente e recordou passagens marcantes da carreira.
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A ex-jogadora de basquete Hortência Marcari encara os desafios com determinação e interesse. Depois que parou de jogar profissionalmente, no final da década de 1990, a ‘Rainha do Basquete’ brasileiro se dedicou aos filhos, fez cursos de gestão e assumiu, há quatro anos, a direção da Seleção Brasileira de Basquete Feminino da Confederação Brasileira de Basketball (CBB).

A concentração e a energia com que ela se apresentava nas quadras eram suas características mais marcantes, e ajudam a explicar sua trajetória de sucesso. Para Hortência, construir uma carreira vitoriosa envolve uma série de competências, mas, sobretudo, vontade de se superar e trabalho árduo.

“O sucesso pertence a quem sabe correr riscos e aceita sofrer para explorar seu talento. Quem não sabe o que quer, ‘dança’”, afirma ela, que foi a convidada da última reunião do comitê de Secretariado da Amcham-São Paulo, em 28/02.

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Hortência contou sua história de superação e também recordou passagens marcantes da carreira, passando por jogos inesquecíveis. Ela também mostrou como a relação com a rival Paula (a armadora Magic Paula) a ajudou a se aprimorar profissionalmente e apontou sua expectativa sobre o desempenho da seleção feminina de basquete nas Olimpíadas de 2016.

O começo

A personalidade competitiva de Hortência se manifestou durante a infância, quando gostava de medir forças com os meninos. “Com as meninas não tinha graça, eu era mais rápida do que qualquer uma. Competir com meninos me dava sensação de superação”, revela a ex-atleta. Como gostava de competição, Hortência disse que sempre soube que seria atleta.

Escolheu o basquete porque se apaixonou pela bola de cor laranja, e não se arrependeu. “É preciso arcar com as consequências das atitudes tomadas. Não há problema nenhum em ser mais ou menos, mas ser a melhor é dolorido”, diz, referindo-se ao esforço necessário para a preparação.

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No caminho rumo ao aprimoramento e até a hora de se aposentar, Hortência treinava a conversão de mil arremessos livres diários. “Eram 500 pela manhã e 500 à noite. Quando errava, não contava e só ia dormir quando tivesse cumprido a meta”, recorda-se. O resultado é que ela se tornou especialista em lances livres. “Eu não errava”, disse ela.

A autoconfiança era baseada no treino. “As pessoas me consideravam prepotente porque falava que não errava. Mas eu trabalhei para não errar. Ninguém chega a lugar nenhum se não treinar”, argumenta ela.

Treino físico e mental

Além da rotina intensa de treinos, Hortência também se preparava mentalmente. “Eu jogava uma partida dez, quinze vezes na minha cabeça. O que fazer quando estávamos ganhando, perdendo... Estava tudo lá antes de começar o jogo."

"Também observava as meninas, corrigia o que precisava e fazia a leitura do jogo. É importante ficar atento a tudo, amigos e adversários”, se recorda.

O princípio se aplica em todas as situações. “Treine o máximo. Assim, na hora do jogo as coisas acontecem. Para uma entrevista (de emprego) é a mesma coisa. Trata-se de imaginar o que o entrevistador pode perguntar para responder ‘na lata’”, compara ela.

Hortência também falou da importância de se ter uma equipe forte e motivada para vencer. Por isso, ela sempre se preocupava em se integrar e apoiar outras jogadoras. “Não queria nem gostava de perder, então trabalhava por uma equipe forte do meu lado.”

A disputa com Paula

Quando jogava, Hortência dividia as atenções com a armadora Maria Paula Gonçalves da Silva, mais conhecida como Magic Paula. A relação entre as duas maiores jogadoras brasileiras de todos os tempos se mostrou competitiva desde o começo. Na primeira disputa entre as duas, quem levou a melhor foi Hortência.

Ainda adolescentes, ambas foram convocadas pela primeira vez para a seleção de basquete, e Hortência se desentendeu com Paula sobre a numeração da camisa. “Ganhei o número quatro da Paula no par ou ímpar. Até isso disputamos”, diverte-se Hortência.

A vontade de superar Paula era o que motivava Hortência a treinar sempre. “Sem ela, não seria o que sou hoje porque treinei a vida inteira para ganhar dela. Quando estava desanimada, pensava: olha a Paula, ela está treinando agora”, destaca.

“Precisamos ter um rival, concorrente. Senão, corremos o risco de perder para nós mesmos.” Até hoje, Hortência mantém uma relação de profundo respeito com a ex-rival.

Jogos inesquecíveis

Hortência cita dois jogos como inesquecíveis. O primeiro foi a disputa pelo ouro em Cuba, nos Jogos Panamericanos de 1991, contra a seleção da casa. A partida foi vencida pelo Brasil, e as medalhas foram entregues pelo então presidente Fidel Castro.

Hortência revelou que, durante a cerimônia de entrega das medalhas, Fidel brincou e disse que as brasileiras tinham trapaceado, pois jogaram com mira laser.

Outro jogo marcante foi a final do campeonato mundial de basquete na Austrália em 1994, vencida pelo Brasil. “Demoramos 18 anos para ser campeãs do mundo porque levamos esse tempo para entender que o mais importante era o trabalho de equipe”, explica Hortência.

Quando o grupo começou a jogar de forma conjunta, explorando as qualidades individuais das atletas, o time acabou se unindo. “Quando eu via a Paula livre, passava a bola porque ela era melhor que eu na linha de três pontos. E ela também armava o jogo brilhantemente, tenho que reconhecer isso.”

Olimpíadas 2016

A diretora da seleção feminina de basquete não se mostrou animada com um bom desempenho brasileiro nas Olimpíadas de 2016, no Rio de Janeiro. Para ela, atualmente, faltam jogadoras habilidosas para conduzir o time.

“Há uma lacuna muito grande. Não temos jogadoras [de destaque] na faixa dos 24 aos 30 anos. As melhores estão acima dos 30 ou abaixo de 22 anos. Estamos brigando, preparando a base para descobrir talentos com vistas a 2020 ou 2026”, revela a dirigente.

Hortência admite que quatro anos de gestão são um período curto para formar uma atleta de alto nível “porque é preciso ter experiência, participado de mundiais, Olimpíadas”. “Cada competição é diferente da outra”, acrescenta.

Toda a sua vida foi construída com planejamento. Depois de encerrar a carreira nas quadras, ela se dedicou a criar os filhos. “Temos que ter prioridade na vida, não dá para fazer muita coisa ao mesmo tempo. Queria primeiro uma vida esportiva. Depois me casei aos 30 e tive filhos aos 36. Tudo tem hora para acontecer”, ensina ela.

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