Conscientização é forma importante de combater a pirataria

por andre_inohara — publicado 04/04/2011 11h50, última modificação 04/04/2011 11h50
André Inohara
São Paulo – Além da repressão, empresas realizam trabalhos permanentes de conscientização nos canais de varejo e junto a consumidores finais.
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Apesar dos esforços de repressão à pirataria, a comercialização de produtos falsificados continua sendo uma das atividades ilegais mais lucrativas do mundo. Diante dessa realidade, as empresas, além das ações de busca e apreensão de produtos falsificados, também investem em campanhas de conscientização para se proteger. É o caso da multinacional  Bic.

“Temos dado continuidade ao treinamento de pessoas que fiscalizam o mercado (alfândegas). No varejo, conscientizamos os varejistas sobre os malefícios da comercialização de produtos piratas”, diz a gerente de marketing da Bic América Latina, Eliana Chinellato.

A HP, fabricante de computadores e periféricos, além de criar constantemente embalagens que dificultam a falsificação de seus produtos, mantém uma equipe para alertar seus distribuidores sobre a pirataria, além de promover, de tempos em tempos, campanhas junto ao seu consumidor final.

“A principal forma de ajudar a combater a pirataria é não comprar esse tipo de produto”, realça o gerente de categoria de produtos da HP, Márcio Furrier.

Grandes números

Dados do Instituto Brasileiro de Ética Concorrencial (Etco) apontam que tanto o governo como o setor privado deixam de faturar até R$ 900 bilhões por ano com essa atividade paralela. Isso representa seis vezes o PIB (Produto Interno Bruto) da agropecuária (R$ 150 bilhões) e de 20% a 30% do PIB nacional.

Em um estudo apresentado pela HP no V Fórum de Conscientização de Educadores no Combate à Pirataria, realizado no sábado (02/04) na sede da Amcham-São Paulo, verificou-se que 8% do comércio internacional dizem respeito a produtos piratas, o equivalente a US$ 600 bilhões por ano.

Case Bic

A Bic começou a sofrer com a pirataria de seus produtos a partir de 1999, quando cópias de seus isqueiros começaram a circular no mercado com grande semelhança em relação aos originais em design, embalagem e marca. “Chegamos a perder 30% de participação de mercado entre 2000 e 2003”, conta Eliana. Ou seja, aproximadamente 24 milhões de unidades deixaram de ser vendidas a cada ano.

De 1999 a 2002, a pirataria dos isqueiros foi tão intensa que fez com que a Bic trabalhasse com apenas 50% de sua capacidade produtiva. Diante das vendas menores, a arrecadação tributária caiu e a Bic deixou de arrecadar R$ 6 milhões por ano em tributos como ICMS, PIS e Cofins.

Virando a mesa

No início da década de 2000, a Bic se uniu à concorrente Crickett para lutar pela implantação de normas de qualidade baseadas em padrões internacionais. Foi assim que, a partir de 2002, tornou-se obrigatório que todo isqueiro a gás descartável, nacional ou importado passe por testes no Inmetro e porte o selo holográfico do instituto para ser comercializado. “Foi a primeira conquista”, conta Eliana.

A partir daí, a Bic iniciou sua campanha de conscientização junto aos distribuidores e clientes. De 2003 a 2004, foram distribuídos materiais publicitários nos pontos de venda, além de textos sobre a nova legislação em revistas, visando atingir consumidores, atacadistas, distribuidores e varejistas.

“Procuramos falar à população sobre os riscos de consumir produtos sem segurança. Para as empresas, alertamos sobre os riscos de terem mercadorias apreendidas e interdição das lojas”, lembra Eliana. Ademais, a executiva ressalta que os ganhos econômicos para o varejista são ilusórios. “Um isqueiro falso dura um terço a menos do que um original.”

O treinamento se estendeu aos responsáveis públicos de fiscalização. A Bic, por meio de um grupo de empresas que sofriam com a pirataria, realizou um programa de treinamento de identificação de produtos falsos nas principais capitais e portos brasileiros, entre 2002 e 2007. Mais de 4,5 mil fiscais foram treinados.

Desde então, o índice de produtos falsificados caiu para 10%. “Recuperamos gradualmente nosso mercado”, afirma Eliana.

A Bic possui equipes permanentes de treinamento e conscientização em todos os pontos da cadeia. “O mais importante é não parar de combater a pirataria, senão o mercado será novamente invadido por cópias de má qualidade”, assinala.

Impactos sobre toda a cadeia de produção e consumo

Além do prejuízo financeiro resultante da pirataria, há o de imagem. No setor de informática, os cartuchos de tinta para impressão e de toner da HP são os produtos mais pirateados. Segundo a gerente de marketing de imagem e impressão da HP Brasil, Anna Cristina Freitag, as cópias em circulação são tão parecidas que causam confusão nos clientes.

“Pessoas que compram cartucho pirata não sabem que o produto não é original e acabam se frustrando por não obterem o resultado esperado em suas impressões”, comenta. Anna alerta que cartuchos não originais também trazem custos ocultos para o consumidor, porque danificam o equipamento.

A questão da segurança é levantada por Eliana Chinellato, da Bic. “Ao adquirir um isqueiro ilegal ou falso, o próprio consumidor se prejudica, pois leva para casa um produto sem qualidade”.

O diretor-geral da grife de surfwear Mormaii, Eduardo Nedeff, também alerta para os riscos de saúde.

Os óculos de sol da Mormaii estão entre os artigos mais pirateados do mercado. “As lentes falsas normalmente não trazem proteção ultra-violeta contra os raios solares. Elas também não apresentam centro focal, o que ocasiona dificuldade de visão, náusea e dor de cabeça”, comenta.

Nedeff disse que há muitas falsificações grosseiras no mercado. “Há diferenças visuais na pintura dos óculos, no acabamento e na aplicação da logomarca e das dobradiças”. A grife combate a pirataria por meio do mapeamento de lojas não credenciadas e autorizações judiciais para busca e apreensão de mercadorias pirateadas que chegam aos portos.

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