Inovação tem que ser tratada nas empresas como processo gerador de conhecimento e não de despesas, de acordo com especialista

por andre_inohara — publicado 14/01/2013 16h33, última modificação 14/01/2013 16h33
São Paulo – Embora o objetivo seja o de retorno financeiro, as empresas precisam entender que os resultados da inovação podem demorar.
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Mesmo que toda a pesquisa e desenvolvimento de novas tecnologias não resulte em produtos ou processos inovadores de imediato, insistir no trabalho de descobrir inovações industriais é essencial ao futuro da empresa.

Todo conhecimento produzido, ainda que sua utilidade inicial seja desconhecida, tende a se acumular na empresa e ser o ponto de partida de uma nova e rentável tecnologia comercial em algum momento no futuro, argumenta Solange Mata Machado, diretora da Imaginar Solutions e coordenadora dos programas de Inovação da HSM Educação.

“Esse pensamento [de que a inovação tem que dar retorno logo] precisa ser eliminado do processo”, afirma Solange. A especialista deu uma entrevista ao site da Amcham antes de participar do comitê de Inovação da Amcham-São Paulo, realizado na terça-feira (15/01), e explicou que há dois tipos de inovação que as empresas costumam trabalhar.

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A primeira é a incremental, que foca na melhoria de processos ou produtos pré-existentes. A segunda é a disruptiva, que são os produtos diferentes cujo sucesso inaugura novas categorias de mercado.

Esse discernimento é crucial para o sucesso ou fracasso dos programas de inovação das empresas, de acordo com Solange. “Se a empresa olhar para a inovação como algo que deve gerar retorno, então tem que pensar em fazer o processo incremental”.

Mas se o objetivo for criar algo que o mercado desconhece, então é preciso tempo e paciência. “Se a empresa pensar em medir o retorno de uma inovação disruptiva no começo, vai acabar matando a ideia no primeiro momento. Isso porque um produto novo não permite conhecer qual será o seu resultado, quem vai consumir ou que tipo de tecnologia surgirá”, comenta a especialista.

Assim que uma tecnologia disruptiva se sobressair, pode gerar ganhos importantes à empresa. “Quando se descobre o pulo do gato nesses processos, o retorno é exponencial e significa a sobrevida da empresa. Mas não há mensuração ou indicador que revele o potencial de retorno dessa inovação”, destaca Solange.

Há métodos para se trabalhar as inovações disruptivas, segundo a especialista. O principal é trabalhar com a experimentação a custos baixos. “É possível dividir o processo de desenvolvimento em pequenas etapas, sem muito investimento. E para cada uma delas, vai-se criando hipóteses e testando para ver se está no caminho certo”, explica.

Sendo cuidadosa, a empresa consegue controlar o investimento e o risco, além de conservar o conhecimento produzido. “A inovação se trata de processo”, acrescenta Solange. “Seu resultado capacita a empresa a gerar novos produtos, serviços e processos continuamente, e que vão atender às novas demandas de mercado.”

Essa tarefa tem que partir da alta gestão. “O processo de inovação se inicia no nível estratégico e consiste em pensar a empresa daqui a 10 ou 20 anos, contemplando cenários de mudança. Ele não está no operacional, que é mais voltado à geração de ideias”, descreve a especialista.

Os processos de inovação

Produzir inovação é uma tarefa cada vez mais colaborativa, algo que as empresas ainda estão aprendendo a fazer. A popularização da internet disseminou o conhecimento e obrigou as empresas a dividir conhecimento, para poder recebê-lo.

“Hoje, não basta às empresas olharem para dentro e buscar processos que tragam inovação incremental. É preciso criar dentro da empresa e também com o seu ecossistema (públicos-chave), para sobreviver a mudanças que se aceleram cada vez mais”, defende Solange.

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O modelo de inovação aberta ou cocriação se mostra bastante receptivo à coleta e troca de informações. “Quando você faz isso, está abrindo possibilidades para ter uma enxurrada de ideias. Há comunidades de consumidores, inventores e programadores que podem agregar conhecimento”, comenta Solange.

Convênios com universidades e institutos de pesquisa também são boas fontes de conhecimento, mas precisam ser direcionados. “Como a geração de conhecimento de novas tecnologias nas universidades não está vinculada às necessidades de mercado, é colocar uma demanda específica [de inovação industrial] dentro da universidade.”

Quanto à criação de centros próprios de pesquisa e desenvolvimento, a exemplo das grandes multinacionais, Solange acredita que esse não deve ser o caminho das empresas brasileiras.

“Somente as grandes multinacionais têm dinheiro para investir nesses centros. Hoje as outras médias e pequenas estão trabalhando muito mais em comunidades virtuais.”

No Brasil, pequenas empresas devem liderar a inovação

Para Solange, são as pequenas empresas nacionais que mais devem inovar neste ano, diante da necessidade de se diferenciar da concorrência.

“As empresas têm que ter projetos na fila, porque quando um deles é copiado, perde potencial de retorno. Minha expectativa é que em 2013 teremos muita experimentação, com empresas pequenas inovando mais que as maduras.”

“Essa postura estratégica diferenciada facilita os processos que abraçam o risco, premiam a colaboração e permitem trabalhar com o ecossistema”, argumenta a especialista.

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