Inovar é uma questão de sobrevivência, diz executivo da Fiat

por giovanna publicado 23/05/2011 11h32, última modificação 23/05/2011 11h32
André Inohara
São Paulo – Para Paulo Matos, supervisor de Inovação Estratégica da montadora, País produz tecnologia de ponta, mas aquém do necessário.
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O Brasil produz inovação tecnológica de ponta, mas não em quantidade suficiente para superar a concorrência de outros países.


Para Paulo Matos, supervisor de Inovação Estratégica da Fiat, o País possui vocação tecnológica em algumas áreas, como a produção de biocombustíveis e fibras naturais.

No entanto, para aumentar a produção tecnológica é preciso que as empresas criem uma relação mais estreita com as universidades. Elas exercem papel fundamental na formação de mão de obra qualificada, pois, além da capacitação técnica, também fornecem os modelos mentais de inovação, argumenta o executivo da Fiat.

Veja a seguir os trechos da entrevista de Matos ao site da Amcham após sua apresentação na terceira edição do Seminário Rumos da Inovação no Contexto Empresarial Brasileiro, ocorrido na quinta-feira (19/05) na Amcham-São Paulo. Promovido pela Amcham em parceria com a Fundação Dom Cabral, o evento reuniu um público de mais de 300 executivos.

 

Amcham: Como está o nível de inovação de produtos e processos no setor automobilístico?
Paulo Matos:
Hoje, em termos de desenvolvimento de produtos da Fiat, temos um polo importante no Brasil. Também já ultrapassamos nossa matriz na Itália em produção e somos o maior fabricante de automóveis do grupo. Nossa proposta é caminhar com a inovação. Como exemplos, temos o carro conceito Fiat Mio e o novo Uno – este último um carro produzido de fato no Brasil, sendo resultado de um processo de maturação e desenvolvimento interno.


Amcham: Como a Fiat vê o Brasil nesse contexto?
Paulo Matos:
Para o grupo Fiat, o Brasil é muito importante. Aqui temos algumas oportunidades que não seriam possíveis em outros lugares, seja do ponto de vista tecnológico ou mercadológico. Quando se fala em tecnologia, o desenvolvimento de fibras naturais é mais fácil no Brasil do que na Europa, assim como acontece com o biocombustível. Além disso, o mercado brasileiro possui desafios importantes em função do crescimento do mercado interno. Inovar não é uma questão de vontade ou capacidade, mas de sobrevivência.


Amcham: Na sua avaliação, qual é a vocação tecnológica do Brasil?
Paulo Matos:
Há coisas que julgamos saber fazer muito bem. Como case de produção, resolvemos questões logísticas importantes. Isso levou nossa unidade de Betim (MG) a ser a segunda maior fábrica de automóveis do mundo, sempre em disputa acirrada para ser a primeira. Em tecnologia, posso citar o desenvolvimento dos biocombustíveis, mas também produtos mais adequados às condições de rodagem no Brasil, como sistemas de suspensão. Estamos criando um DNA tecnológico que está integrado ao resto do mundo. O Brasil não concorre com a matriz da Itália, mas faz parte de uma rede mundial de desenvolvimento de produtos. Nossa capacidade tecnológica se equivale à de centros automotivos desenvolvidos, como Itália e Detroit, nos EUA. Temos um patamar elevado de estrutura de inovação e, por isso, estamos preparados para dar um salto de qualidade. Mas temos muito trabalho a fazer.


Amcham: Como a falta de mão de obra qualificada atrapalha o desenvolvimento da inovação no País?
Paulo Matos:
Quem faz a inovação são as pessoas. Se não houver gente boa para trabalhar, ela não acontece. Nessa quadro, a universidade, como fornecedora de pesquisas e bons profissionais, desempenha um papel muito importante.  É preciso discutir como as universidades desempenham hoje essa função e sua proximidade em relação ao tema da inovação. Elas devem não só trabalhar a formação de pessoas propensas a trabalhar com inovação do ponto de vista técnico, mas também desenvolver modelos mentais para isso.


Amcham: A indústria automobilística tem recebido mão de obra qualificada das universidades brasileiras?
Paulo Matos:
Sim, mas não na quantidade necessária. Temos boas universidades no Brasil e recebemos alunos com nível de preparo semelhante ao de qualquer boa instituição acadêmica do mundo. Porém, precisamos de mais UFMG, Unicamp, USP e tantos outros bons exemplos no Brasil.

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